Noé sai da arca • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de outubro de 2008

Noé sai da arca

Estocado em Goiabas Roubadas

NOÉ: Noé sai da arca

Embora a terra tenha assumido sua antiga condição ao fim do ano de punição, Noé não saiu da arca até receber de Deus ordem para fazê-lo. Ele disse a si mesmo: “Ao comando de Deus entrei na arca; a seu comando sairei dela”.

Porém quando Deus lhe disse que saísse da arca Noé se recusou, pois temia que depois de viver sob terra seca por algum tempo e gerar filhos, Deus traria outro dilúvio. Ele não saiu da arca até Deus jurar que jamais voltaria a visitar a terra com um dilúvio.

“Isso eu lhe disse para que você pudesse implorar misericórdia para a terra”.

Quando saiu da arca e pisou em céu aberto, Noé chorou amargamente diante da devastação causada pelo dilúvio, e disse a Deus:

— Senhor do mundo! O senhor, que é chamado de misericordioso, deveria ter tido misericórdia das suas criaturas!

— Ah, pastor tolo, agora você me diz isso — Deus respondeu. — Mas não foi o que fez quando me dirigi a você com palavras generosas, e disse: “Vi em você um homem perfeito e justo em sua geração, e trarei um dilúvio sobre a terra para desturir toda a carne. Faça para você uma arca de madeira de gôfer”. Isso eu disse a você, deixando claras todas essas circunstâncias, para que você pudesse implorar misericórdia para a terra. Mas assim que ouviu que seria resgatado na arca você deixou de se preocupar com a ruína que recairia sobre a terra. Você nada fez além de construir uma arca para si mesmo, na qual foi salvo; mas agora que a terra está devastada, abre a boca para interceder e orar.

Noé percebeu que era culpado de insensatez. A fim de reconhecer seu pecado e buscar a reconciliação com Deus, ele trouxe um sacrifício. Deus aceitou com seu favor a oferta, pelo que Noé recebeu esse nome.

O sacrifício não foi oferecido por Noé com suas próprias mãos. Os serviços sacerdotais associados a ele foram executados por seu filho Sem, e houve uma razão para isso. Um dia na arca Noé esquecera de dar a ração ao leão, e o animal faminto desferira-lhe tamanho golpe com sua pata que Noé ficou aleijado para sempre depois disso. E, como portador de um defeito físico, ficou impedido de executar as funções de sacerdote.

Os sacrifícios consistiram num boi, uma ovelha, um bode, duas pombas e duas rolinhas. Noé escolheu essas espécies porque supôs que fossem apropriadas para sacrifícios, visto que Deus ordenara que levasse na arca sete pares de cada um. O altar foi erguido no mesmo lugar em que Adão, Caim e Abel apresentaram seus sacrifícios, e onde mais tarde se ergueria o altar do santuário em Jerusalém.

Completado o sacrifício, Deus abençoou Noé e seus filhos. Fez deles governantes do mundo como Adão havia sido, e deu-lhes a ordem “Sejam férteis e multipliquem-se!” — pois durante sua estadia na arca ambos os sexos, tanto de homens quanto de animais, haviam vivido separados um do outro, porque enquanto abate-se uma calamidade pública a continência é indicada mesmo para os que são deixados ilesos. Essa norma de conduta foi violada na arca apenas por Cão, filho de Noé, pelo cachorro e pelo corvo, e por isso cada um recebeu uma punição; a punição de Cão foi que todos os seus descendentes teriam pele escura.

Como garantia de que não voltaria a destruir a terra, Deus pendurou o seu arco [de flecheiro] sobre a nuvem. Mesmo se os homens voltassem a rebaixar-se novamente ao pecado, o arco declararia que seus pecados não voltariam a causar dano ao mundo. No curso das eras houve ocasiões em que os homens foram piedosos o bastante para não terem de viver com medo da punição, e durante esses períodos o arco não era visível.

Deus liberou a Noé e seus descendentes o consumo da carne de animais como alimento, que era proibido desde a época de Adão. Eles porém deveriam abster-se de consumir sangue.

Assim ele outorgou as sete leis de Noé, cuja observância é obrigação de todos os homens, não apenas de Israel. Deus prescreveu em particular a ordem contra o derramamento de sangue humano. Quem derramasse sangue humano deveria ter o seu sangue derramado. Mesmo se os juízes humanos deixassem o culpado em liberdade o seu castigo acabaria por encontrá-lo: ele morreria de morte não-natural, semelhante à que havia infligido sobre seu proximo. De fato, mesmo se fossem animais a matarem pessoas, a vida que haviam subtraído seria requerida deles.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas lamenta quando as coisas em que acredita são defendidas com argumentos ruins