No espaço recém-aberto da minha transgressão • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de junho de 2009

No espaço recém-aberto da minha transgressão

Estocado em Manuscritos

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No espaço recém-aberto da minha transgressão não tive eu mesmo como escapar das armadilhas do desejo mimético, passando a reproduzir em rigorosa sincronia as imperfeições do objeto que procurava dessacrar.

Ao afastar-me da igreja institucional com o objetivo de adequadamente condená-la, tornei-me culpado de rigorosamente tudo que condenava nela. Apontei que a igreja havia se tornado irrelevante para o mundo, mas eu mesmo dirigia-me apenas à igreja. Observei que a igreja havia rejeitado sua tarefa de abraçar o mundo, mas eu mesmo passara a rejeitar a igreja, que é parte integrante do mundo. Ao falar somente à igreja e sobre a igreja, ao torná-la o precioso e circular objeto da minha obsessão, demonstrei estar rejeitando com pelo menos a mesma obstinação, com precisamente o mesmo capricho, a tarefa de abraçar o mundo — e portanto a mim mesmo.

As palavra que proferimos dão a volta ao mundo e voltam para nos qualificar, seja para o bem ou para o mal. Nossas condenações denunciam adequadamente apenas a nós mesmos, nunca os outros.

Insistindo com tamanho zelo na reforma da igreja eu passara a sugerir, de forma subconsciente, que a tarefa mais urgente e nobre da igreja permanecia sendo atrair irresistivelmente o mundo, e não — como eu sabia ser sua verdadeira vocação — desenraizar-se de si mesma, deixar-se arrastar e absorver por ele.

Eu aparentemente não me libertara da mensagem da qual afirmava estar livre, a noção de que uma igreja pura e íntegra deve cobrir com sua virtude a nudez do mundo.

O que a narrativa requer, naturalmente, é precisamente o contrário: a igreja (quem quer que sejam esses “chamados para fora”) deve despir-se diante do mundo — não para mostrar ao mundo que está nu, mas para que o mundo aprenda ele mesmo a se despir.

Meu problema está em que essa nunca foi tarefa fácil, ou isenta de riscos, para ninguém.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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