Não é completa • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de agosto de 2009

Não é completa

Estocado em Manuscritos

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Não é completa a assepsia mítica da narrativa das origens em Gênesis. Se por um lado o texto se esforça para assertar a suficiência e a solidão divinas, o próprio Deus introduz no enredo dois elementos narrativos arquetípicos que povoam e calibram os mitos e lendas de outras tradições, e por isso adentram a história carregando o seu próprio peso.

Aqui está, em primeiro lugar, a Serpente Primal, emblema de perigo, ambiguidade e sagacidade, modelo de tudo que é fluido, insidioso e fugidio — e portanto ícone suficiente da alma humana.

A serpente é a matriz de ouruboros, a cobra que morde a própria cauda — símbolo que pode representar tanto a assimilação e reinvenção do lado sombrio do eu quanto aqueles processos e comportamentos repetitivos que se retroalimentam e conduzem à estagnação, círculo vicioso que a psicologia analítica procura interromper através de intervenções pontuais.

A serpente é por natureza ambivalente: mente quando fala verdade e fala a verdade quando mente. Ela é a Sombra que espreita nos recessos da psiquê — sombra que por um lado representa um aspecto essencial do que somos, por outro promove aquelas fantasias recursivas que (para deixar claro que estou citando Joseph Campbell) impedem o espírito humano de avançar.

Nas lendas e contos de fadas a serpente é o dragão que guarda o tesouro. Ela aguarda pacientemente ali para marcar que não é possível chegar até o tesouro sem passar pela serpente — isto, não é possível encontrar a individuação sem encenar eficazmente a morte e a superação do ego.

Na tradição bíblica, espelho ainda mais desiludido e acurado da realidade, o dragão não podem nem ao menos ser morto. A serpente pode ser pisada pelo homem e o dragão pode ser precipitado do céu por Deus, mas seu último destino não é a morte: o lado sombrio do homem não pode ser eliminado sem que o próprio homem seja eliminado no processo.

No dia da individuação a serpente será lançada no lago de fogo, onde continuará a existir sem poder fazer mais mal a ninguém. Mergulhar a serpente no lago de fogo pode ser o emblema bíblico para o processo oposto: trazer à tona os processos e maquinações do inconsciente, de modo a deixar de ser conduzido por suas armadilhas.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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