Não devemos deixar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de junho de 2008

Não devemos deixar

Estocado em Manuscritos

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Não devemos deixar que nos cegue o cisco da proibição, como terá cegado nesta mesma página os nossos protagonistas — pois o que particulariza a condição de Adão e Eva não é a falsa eloquência do que não devem fazer, mas a formidável extensão de suas liberdades.

Pelo que sabemos o homem podia pular de penhascos, comer manga com leite, fazer xixi de porta aberta, engendrar enxertos inéditos nas plantas do jardim. Era livre para fazer esculturas na areia, dormir reclinado no peito de tigres, cavalgar rinocerontes, receber a massagem de todas as cascatas.

Podia cuidar do jardim sob o sol da manhã, cantar na chuva à tarde, dar nome às estrelas na noite e amar sobre a relva em todos os intervalos. Todas as florestas eram virgens, todos os oceanos inexplorados e mesmo os picos mais baixos aguardavam serem escalados.

Não ouçamos portanto a mentirosa sedução da proibição, porque nesta história o ser humano é, incrivelmente, livre para fazer qualquer coisa. Num certo sentido o conflito singular desta trama não reside na arbitrária proibição que imprime aos protagonistas, mas no embaraço da liberdade de que desfrutam.

A narrativa dos primórdios em Gênesis não é uma parábola sobre os perigos da tentação; é uma história sobre os percalços do gerenciamento da abundância.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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