Meia-volta • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de março de 2007

Meia-volta

Estocado em Manuscritos

– Sei porque você está assim.

– O quê? – ela me olha com olhos enxarcados, aparentemente horrorizada.

– Sei porque você está chorando. A culpa é minha.

Ela desvia o olhar para a paisagem, profundamente ofendida.

– Você não faz idéia – ela anuncia, aceitando o lenço que ofereço mas sem me olhar de frente. – Não tem nada a ver com você.

Estou observando profissionalmente a estrada e o retrovisor.

– Não diretamente – concordo. – Mas você não estaria chorando.

Ela explode.

– Do que você está falando? Você acha mesmo que estou chorando por sua causa? Quanta —

– Na entrada do céu – interrompo, com medidas iguais de firmeza e gentileza, sem tirar os olhos da estrada – há uma série de guichês, e cada guichê tem uma caixa de coleta. Nessa abertura as pessoas deixam todas as lembranças que querem deixar para trás: tudo que decidem não trazer consigo para o céu. Você estava na fila dos guichês quando eu a chamei e trouxe-a comigo pelo interior da rocha. Você não passou pelos procedimentos usuais, não assinou o termo de admissão e não passou pelas caixas de coleta.

– E? – Cassandre está tremendo.

Viro para encará-la antes de responder.

– Não sei porque você está chorando, mas sei que teria deixado na caixa de coleta essa lembrança.

Ela afunda o rosto entre as pernas e chora convulsamente, desesperadamente. Por vinte minutos as convulsões do pranto não arrefecem; Cassandre geme, sapateia, morde as mãos e os dedos, engasga e tem dificuldade para respirar.

Quando ela finalmente desaba há pouco de humano na figura estirada no banco, o vento riscando listras de lágrimas no rosto sem expressão.

– Eu queria poder chorar para sempre – ela explica, as sobrancelhas erguidas de perplexidade e rancor.

– Você terá essa chance – esclareço, e ela quase ri diante do absurdo da proposta.

– Para sempre é tempo demais para qualquer coisa – ela me cita, não sem ressentimento. Depois, respirando fundo: – Por quê, Ciro?

Aperto os lábios, tentando me concentrar na resposta, na pista e no retrovisor.

– Qual dos porquês você está querendo saber? Por que fiz você entrar no céu pela porta de serviço?

– Comece por aí.

– Fiz isso porque devo favores – ergo as sobrancelhas na direção dela, e a sinceridade é ácida como bílis subindo-me pela garganta.

Desta vez ela parece de fato achar engraçado, e solta uma risada curta e penosa.

– Você deve favores – ela faz de conta que está tentando entender. – Está endividado e planeja me usar para pagar as suas prestações.

– Não – corrijo imediatamente, imprimindo à voz todas as ênfases certas. – Preciso de um aliado que não tenha passado pela lavagem cerebral dos guichês da Catraca. Preciso desesperadamente disso.

E só então, por estar me fitando de frente, ela percebe.

– Estão seguindo a gente?

– Não consegui despistar o sujeito – confesso, acompanhando pelo o espelho o avançar do cupê duas curvas da estrada atrás de nós.

– Desde quando? Foi por isso que trocamos de carro?

– Desde que saímos de casa. Trocar de carro não adiantou.

Ela reflete por um segundo.

– Quem é? Um dos caras pra quem você deve?

– Não sei. Vou perguntar – e atolo o pé descalço no pedal do freio.

O asfalto desbasta os pneus faixa branca do Cabriolet, riscando cascalho para o acostamento.

– Você ficou doido! E se estiverem atrás de você?

Lá atrás o cupê cinza também pára no meio da pista, de forma menos espetacular.

– O que ele pode fazer? – argumento, engatando a ré e atrasando o carro devagar. – Além do mais, a prioridade dele é saber para onde estamos indo.

– O que você vai fazer?

– Dizer a ele.

Mas o cupê também já deu ré, e está afastando-se de nós no mesmo ritmo que nos aproximamos dele.

Piso no freio de novo, engato a primeira e começo a avançar devagar, os olhos fixos no retrovisor.

– Vamos despistar o cara?

– Não neste carro – asseguro.

– Ele continua dando ré!

– Está dando meia-volta – corrijo.

– Será que foi porque você percebeu?

– Não, isso ele já sabia faz tempo – e estou parando o carro novamente. – Não foi por causa disso.

Cassandre olha para mim e depois para um ponto da pista dez metros adiante. Já saí do carro e estou caminhando na direção do pequeno volume negro estirado no asfalto, como um casaco que alguém esqueceu.

– O que é?

– Um gato – estou agachado, a pista aquecendo as plantas dos pés, relutando em tocar o bicho.

Cassandre coloca uma mão na cintura e usa a outra para proteger os olhos do sol.

– Um gato morto, é isso? Era amigo seu?

– Não – levo um punho fechado à boca.

– Então por que parar no funeral?

Olho ao redor, como quem procura uma resposta ou um destino.

– No céu nada morre – estou franzindo a testa para Cassandre.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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