Lena Rosa • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de abril de 2006

Lena Rosa

Estocado em Manuscritos

O Hotel Kusnick tinha em todos os corredores e escadas, cobrindo as tábuas escuras e rangentes dos assoalhos, aqueles tapetes compridos e estreitos que se costumava chamar de passadeira. Entre abril e novembro de 1976 a responsável pela limpeza semanal desses longos tapetes (bem como dos acolchoados de pena e das roupas de cama e mesa, sem contar a manutenção da sala de refeições e um número incontável de tarefas menores) era uma jovem de dezenove anos chamada Lena Rosa, de um ramo hoje desaparecido da família dos Rigonatti, que tinham uma serraria no serra abaixo e terras de criação entre a estrada do Corvo Branco e o Morro dos Padres.

Lena Rosa tinha um rosto bonito e regular que já era anacrônico na sua época, as faces antiquadamente rosadas, os cílios longos muito escuros e um cabelo castanho cacheado à escova. Era, inequivocamente, a moça mais bonita da cidade desde que chegara havia dois anos e passara a ocupar um quartinho no sótão dos Müllmann, com uma janelinha de uma só folha que abria para os galhos de uma macieira.

A jovem trabalhava diligentemente durante o dia e estudava à noite no Colégio Estadual, no outro extremo da rua principal – aquela esparsa avenida ladeada por casas de madeira encravadas em empanturrados jardins, os quintais e pomares perdendo-se irremediavelmente em pastos reluzentes e escuras araucárias, no límpido Canoas e na subida suave dos ubíquos morros.

Sua única e melhor amiga era uma brasileira de Rodeio das Ostras chamada Jussara Barão, que morava depois da ponte e com quem voltava para casa depois da aula, muito enfaixadas as duas por cachecóis e gorros e xales de buclê, vencendo um passo atrás do outro a neblina da meia-noite, seguidas e precedidas por grupos maiores e mais animados que cumpriam sob a mesma promessa o mesmo trajeto.

Quando passavam diante do hotel as portas já estavam há muito fechadas, todas as chamas e lâmpadas apagadas, as pequenas cortinas das janelas do salão de refeições ordeiramente puxadas. Em menos de cinco horas, antes do despontar branco do sol e que o primeiro hóspede ousasse expor ao ar gelado o seu pé, Lena estaria alerta varrendo o assoalho, abrindo as cortinas, passando pano em todos os vidros, distribuindo entre as mesas os minúsculos godês de porcelana que manavam manteiga, geléia e mel – mas antes havia a solidão do seu próprio quartinho e a terrível jornada e a aridez de uma noite de sono da qual voltaria sem trazer qualquer lembrança.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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