Judas e o fogo do inferno • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de maio de 2006

Judas e o fogo do inferno

O Judas Iscariotes da radionovela em doze episódios O Homem que nasceu para ser rei1, da inglesa Dorothy L. Sayers, é de longe o mais inteligente, articulado e perspicaz dos discípulos. O Judas de Sayers é um cara brilhante, antenado e idealista; ele é por essa razão o único a perceber por completo e logo de cara o potencial revolucionário, transformador e curativo da mensagem de Jesus. Ao contrário da esmagadora maioria dos seguidores do rabi de Nazaré, Judas percebe que o reino do Messias não é deste mundo; ele compreende maravilhado que o caminho da renúncia é o cerne da mensagem do evangelho e deleita-se que ele seja tão exigente.

Como vê tudo com tamanha clareza, a razão da queda de Judas na narrativa é necessariamente sutil. Seu problema parece estar justamente na pessoa extraordinária que ele é. Como seu orgulho não permite que ele se coloque abaixo de ninguém, Judas acaba obrigando-se inconscientemente a duvidar dos motivos de Jesus. Ele crê que a mensagem do evangelho seja de fato valiosa e extraordinária, mas começa a pensar que seu mestre talvez não esteja à altura dela. Começa a suspeitar que Jesus talvez não queira e não seja capaz de levar suas palavras até as últimas conseqüências. Fica se perguntando se na hora H o rabi saberá manter a pureza e a integridade da sua mensagem.

Quando vê Jesus deixando-se aclamar como herdeiro do trono de Davi pelas multidões, na entrada de Jerusalém, Judas vê suas maiores suspeitas confirmadas. Seu mestre está a um passo de trair os seus ideais e dobrar-se aos poderes deste mundo. O Messias está pronto a sucumbir à tentação, e irá repudiar o caminho do sofrimento que preconizara. Judas, o íntegro idealista, percebe ruborizado que deixara-se seduzir pelas palavras de um impostor. Seu mestre mentira desde o princípio, e Judas vê agora com clareza que era apenas sua a inocência que projetara em Jesus.

Judas Iscariotes trai Jesus porque acredita que Jesus está se traindo. Ele porém está prestes a enxergar a única coisa que lhe escapou até agora, e esse inusitado fogo o consumirá.

* * *

JUDAS. Escribas e fariseus, hipócritas! Quão bem ele os conhecia!… Ouçam-me, seus sepulcros caiados! Acabo de fazer algo tão hediondo que o próprio inferno se envergonha. Os ladrões mais vis demonstram alguma lealdade, e o cachorro de um vigarista pode ser fiel a ele. Mas meu Mestre era inocente, e eu o caluniei; inocente, e eu o acusei; inocente, e eu o traí.

CAIFÁS. Você veio até nós de livre e espontânea vontade – e com os mais elevados dos motivos, tenho certeza.

JUDAS. Vim porque o odiava. “Aquele que odeia seu irmão é assassino”: eu assassinei o Cristo de Deus por ódio… Estava escrito que ele teria de sofrer… Sim! E por quê? Porque há no mundo gente demais como eu… Eu estava enamorado do sofrimento porque queria vê-lo sofrer. Queria crê-lo culpado, porque não era capaz de suportar a sua inocência. Ele era maior do que eu, e eu o odiei. E agora odeio a mim mesmo… Você sabe o que é o fogo do inferno? É a luz da insuportável inocência de Deus que consome e abrasa como uma chama. Ela mostra quem você é… Sacerdote, é coisa terrível uma pessoa enxergar-se por um momento como realmente é.

CAIFÁS. Que temos com isso? Sua consciência é problema seu.

O fogo do inferno é a luz insuportável da inocência de Deus.

JUDAS. O que tem a ver com você?… Você é o Sumo Sacerdote. Dia após dia, semana após semana, mês após mês você faz sacrifício pelo pecado – a oferta queimada e a oferta pacífica e a oferta de transgressão. Ano após ano, no Dia do Perdão, você entra no Lugar Santo e derrama sangue diante do Propiciatório pela redenção de Israel. O que pode o seu sacerdócio fazer por mim? Irá o sangue de touros e de bodes lavar a minha mancha? Você, que está atolado até os lábios no mesmo crime que eu, pode pôr-se de pé ali com as mãos sujas de sangue e oferecer por nós dois um sacrifício imaculado e aceitável? Não há sacerdote, não há vítima em todo mundo que seja pura o bastante para remir essa culpa… É Deus misericordioso? Pode ele perdoar?… De que adianta? Jesus perdoaria. Se eu me arrastasse ao pé do cadafalso e pedisse o seu perdão ele me perdoaria – e minha alma se contorceria eternamente sob o tormento desse perdão… Pode algo me absolver aos meus próprios olhos? Ou libertar-me deste horror de mim mesmo? Eu lhe digo, não há como escapar da inocência de Deus. Se eu subir até o céu ali ele está – se descer até o inferno ele está ali também. O que posso fazer? Caifás, Sumo Sacerdote de Israel, o que posso fazer?

CAIFÁS. Não temos que ficar ouvindo esse delírio. Você fez o seu trabalho e foi por nós bem pago.

JUDAS. Essa é a sua última palavra, meu companheiro assassino? (em voz alta) Tome o seu dinheiro de volta, e que a maldição de Caim esteja sobre ele. (Atira no chão as peças de prata) Eu vou para o meu lugar.

1 The Man Born to Be King (1943), da qual já citei algum trecho aqui e aqui.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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