Geografia cinematográfica curitibana • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de maio de 2006

Geografia cinematográfica curitibana

Estocado em Nostalgia

Finalmente aconteceu, e até que demorou.

Estou finalmente na exata condição do meu pai, e todos os cinemas de Curitiba que lembro da infância e da adolescência estão fechados. O Cine Plaza, o último cinema de rua da cidade ainda em funcionamento, e que vinha capengando admiravelmente há anos diante da concorrência implacável de shoppings e home theaters, fechou nesta quinta-feira por por falta de pagamento – de energia elétrica, de funcionários, de distribuidoras.

* * *

Eu tinha onze anos quando, em 1979, nos mudamos de Londrina para Bauru – cidade no exato centro do estado se São Paulo e em que, para meu horror e eterno escândalo, não havia na época nenhuma sala de cinema. Tive que restringir minhas idas ao cinema às nossas eventuais viagens de férias e finais de semana a Curitiba, para onde vieram estudar a Isa e depois a Alice. Tinha de ser portanto coisa muito bem planejada, e estamos falando de um tempo antes de recursos como o 139 e do Bom Programa – para não falar da inimaginável internet.

Embora seja [e permaneça!] minha cidade natal, eu havia me mudado de Curitiba para Londrina com menos de dois anos de idade, e nada sabia sobre a geografia da cidade.

Uma das coisas que define e entrelaça meu amor por filmes e por Curitiba é, portanto, o fato de ter aprendido a geografia do centro através dos mapas que minha irmã Isa fazia ilustrando o caminho que eu devia tomar para chegar da ponto final do Cajuru na Praça Carlos Gomes até o cinema que eu desejava. Eu seguia à risca aqueles mapas, não me desviando nem para a direita nem para a esquerda.

O centro de Curitiba é por essa razão necessariamente mapeado, para mim, por cinemas – e cinemas que não existem mais. O nobre Vitória, onde vi O Império Contra-Ataca e Krull. O Itália, onde vi Gremlins com a Isa na noite de um dia de Natal. O Lido II, onde assisti a Indiana Jones e o Templo da Perdição. O arquetípico Condor, onde vi Cortina de Fogo e, pelo menos onze vezes, E.T. o Extra-Terrestre. O Rivoli, onde assisti ao atroz O Abismo Negro dos estúdios Disney. O Plaza, onde vi A Mosca e Predador. O mais recente Astor, onde vi [sozinho!] uma infinidade de comédias românticas. Até mesmo o São João, onde eu e pulgas assistimos ao Predador II.

Minha cabeça está cheia dos detalhes dessas salas e de suas bilheterias e escadarias e bomboniéres e banheiros e ante-salas. Vejo com clareza o rosto cansado mas bondoso da bilheteira do Condor – em cujo saguão acarpetado e cheirando a pipoca multidões agasalhadas acotovelavam-se civilizadamente aguardando o término da sessão para dobrar à direita escadaria acima, rumo ao auditório. A sala de projeção do Condor era tão grande que meia-dúzia de helicópteros por certo manobrariam por ali sem maiores incidentes; recordo em particular o padrão das luminárias vermelhas nas paredes altíssimas, seis figuras geométricas alinhadas em grupos de dois, formando um desenho que às vezes me lembrava o robô de O Abismo Negro ou os cilônios de Galactica.

Posso evocar com a mesma facilidade o corredor da galeria que separava o Lido I do II e o estacionamento que ficava do lado; as escadarias opostas que levavam ao auditório do Astor a partir de sua estéril sala de espera; a ambiciosa arquitetura da entrada do Vitória; o carrinho de pipoca do saguão do Plaza, que ficava à direita de quem entra, separado da bomboniére no topo da escadaria; o ângulo da escada na sala de espera do Itália onde eu e a Isa aguardamos sentados a sessão anterior de Gremlins terminar, enquanto eu ficava tentando conceber que criaturas horríveis [e interessantíssimas] poderiam se esconder por trás dos sons que vinham lá de dentro.

O nome dessas salas perdidas no tempo me dizem infinitamente mais do que Barão do Rio Branco, Dr. Muricy, Ébano Pereira, Cruz Machado, Ermelino de Leão – ruas que estou fadado a nunca saber ao certo onde estão.

Mas me fale da esquina do Condor, e terá um ouvinte.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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