A Bacia das Almas http://baciadasalmas.com Onde as ideias não descansam Sat, 23 Jun 2018 04:21:40 +0000 pt-BR hourly 1 O profeta e a revolução http://baciadasalmas.com/o-profeta-e-a-revolucao/ Sat, 30 Jul 2016 12:11:49 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=2480 Fui a Jaraguá do Sul visitar um cliente, coisa que raramente faço, e fui de terno e gravata, coisa que jamais voltarei a fazer. Quando sai da fábrica era o meio da tarde e pensei em dormir numa pousada em Pomerode, depois de encher a carne na Torten Paradis e beber uma imaculada série de Weiss no deque da cervejaria Schornstein.

Eu já estava em Pomerode, naquele cruzamento na frente da delegacia, quando olhou-me de repente a placa da saída para Timbó; lembrei-me inevitavelmente de Rio dos Cedros e de seu profeta, e decidi alongar a viagem por meia hora – ver se encontrava coragem para encarar novamente o homem que olhou o pecado no meu rosto e não viu nada de mais no que viu.

Avancei sem parada na tarde oblíqua e dourada, cruzando arrozais de um verde-limão inclemente e casinhas vermelhas encravadas em jardins de rosas. Quando fechei atrás de mim a última porteira e fiz o Corsa descer crepitando a curva ladeada de jerivás, faltava pouco para as seis da tarde.

Eu havia tirado meias e sapatos assim que entrara no carro, portanto antes de sair só afrouxei a gravata e enrolei duas vezes a barra da calça. Caminhei descalço pelo caminho de lousa até o portãozinho da cerca do jardim, gritei ô de casa, e quando venci os dois degraus da varanda já havia terminado de dobrar até os cotovelos as mangas da camisa branca.

Todas as portas e janelas da casinha de madeira estavam abertas, pelo que demorei a entender que estava vazia. Na varanda de trás (dei a volta por fora) encontrei uma mesa de madeira maciça, um fogão a lenha e um tanque escavado em pedra, abastecido sem trégua pela água de um aqueduto de meia taquara que desaparecia em direção ao morro vizinho. Retirei uma caneca de metal do prego em que pendia e bebi.

Devolvi a caneca, ponderando voltar para o carro e refazer o caminho, anulando por completo aquela tentativa e ganhando pontos para dizer um dia estive aqui e você não estava. Olhei o relógio do celular: cinco e quarenta e quatro. Decidi ir embora imediatamente e em outra ocasião explicar que havia esperado em vão das cinco e meia até as seis. Nesse ponto, no interior da casa, alcançou-me da mesa da cozinha uma visão potente o bastante (talvez a única) para me fazer abandonar o plano de fuga: uma pilha de livros.

O profeta de Rio dos Cedros entrou em casa meia hora depois, batendo uma contra a outra as solas de suas botas de borracha, e encontrou-me lendo fábulas de La Fontaine na mesa da sua cozinha. Os outros livros eram Sobre a origem da desigualdade, de Rousseau, A origem da família, da propriedade privada e do estado, de Engels, Almas Mortas, de Gogol e – o único que eu ainda não havia lido – o panfleto de quatro páginas Teses sobre Feuerbach, de Marx.

– Brabo, você voltou – ele disse, e parecia sinceramente feliz, mas antes de entrar lavou no tanque lá fora as mãos, os pés e uma braçada de raízes de aipim que trouxera numa sacola.

– Meu amigo proletário João do Pó! Desculpe aí ir entrando desse jeito – eu disse, mas ele desconsiderou com um balanço da cabeça e produziu de detrás de uma cortina estampada uma gamela com ameixas vermelhas e pêssegos.

Dez minutos depois as mandiocas cozinhavam no fogão e cada um de nós tinha diante de si um copo com partes iguais de Campari, gelo, vinho branco barato e água com gás, consagrados com uma fatia de laranja.

– E eu que não tinha lido esse livrinho de Marx – eu disse, querendo desviar a conversa. – Quando vi a casa vazia estava decidido a ir embora, mas tive de ficar pra falar com você sobre ele.

– Confesso que não li nada desse teólogo de quem Marx está falando, mas parece que não é preciso ter lido para entender.

– Você vai gostar de Feuerbach, mas sim, Marx está aparentemente falando consigo mesmo – puxei o panfleto do topo da pilha de livros e deixei que abrisse pousado na minha mão aberta. – A prática revolucionária. Eu não conhecia esse lado politizado de João do Pó.

Ele limitou-se a sorrir e sorver um gole.

– Pelo que entendi Marx está enfezado com o materialismo – ele opinou, – que embora seja a mais desiludida e terra-a-terra das ideias, ainda assim não passa de uma ideia. Nada no mundo dos conceitos basta para produzir a prática revolucionária que pode mudar o mundo, et cetera.

– Exato. Até aquele ponto a história da filosofia havia representado uma revolução arquival, por assim dizer. Os filósofos tinham em seu favor haver catalogado todos os problemas, todas as causas e todas as soluções, mas nada daquilo corria o risco de vazar dos arquivos das ideias para o mundo real.

– Como é mesmo que ele diz no final? – ele riu consigo mesmo, passando a mão pela cabeça raspada. – A última coisa?

– “Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de maneiras diferentes” – eu li, imprimindo o devido drama ao cenário de dois homens discutindo filósofos mortos numa casinha de madeira no meio do nada debaixo de um céu límpido orlado por iminentes tempestades de verão. – “A questão, porém, é transformar o mundo.”

– É quase “a fé sem obras é morta”, não é verdade? – ele provocou, e ignorei a provocação.

Nesse momento a luz na cozinha piscou duas ou três vezes antes de apagar por completo, e ouvimos a geladeira tremer e silenciar. Agora só se ouviam os sapos que malhavam ferros no banhado entre o morro e a casa.

– Está sempre chovendo em algum lugar – ele lembrou.

– O bastante para sempre apagar a luz de outro – eu disse, e coloquei o celular em cima da mesa para que ele nos cinzelasse minimamente com sua vigília azul.

– Enfim – ele disse, brincando com a tampa de Campari como se quisesse fechar a garrafa, sem nunca chegar a concluir a tarefa, – houve uma época em que o que a revolução desejava era remover um sistema estabelecido de coisas e colocar outro sistema no lugar. Se a realidade resistisse à mudança, como costumava fazer, para promover a revolução era tido como necessário apelar para a violência.

– Como assim, “houve um tempo”? Não é mais assim?

– Faz algum tempo que não – ele olhou-me muito sério para confirmar. – O capitalismo, que se apropria de tudo e reverte em seu favor, apropriou-se por inteiro do discurso da revolução.

– Che Guevara é uma marca numa camiseta que você quer comprar.

– Justamente – ele ajeitou-se na cadeira, – mas não só isso. A revolução está em todo lugar; impossível agora é escapar dela. A mudança é o presente sistema, e o capitalismo se alimenta precisamente disso. Hoje um produto é que é “revolucionário”. A internet é revolucionária. Os conservadores costumavam ser os que resistiam à mudança; hoje em dias, conservadores são os que creem que a mudança é a única coisa que existe.

– Tornando dessa forma a verdadeira revolução impossível.

– Não completamente. Hoje em dia para fazer violência ao sistema é preciso rejeitar a mudança em vez promovê-la.

– Uma violência de abstenção? – bebi um gole para dissimular um mal-estar que eu sabia só tendia a crescer.

– Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.

Ele silenciou, arrependido do uso excessivo de ênfases, mas aparentemente muito interessado na minha reação.

– Não me parece muito eficaz a sua revolução – fiz com um copo um gesto que abarcava a propriedade. – Você não tem televisão em casa, mas um bilhão de brasileiros está assistindo o Big Brother.

– É como uma revolução qualquer – ele relaxou na cadeira. – Para que funcione é preciso ver mais gente aderindo à violência contra o sistema. Abster-se da revolução é agora a prática revolucionária.

Baixei o copo e ponderei um longo tempo o que queria dizer.

– Nas revoluções anteriores era muito fácil conseguir a adesão das massas, porque o novo sistema a ser implantado oferecia vantagens muito evidentes. Já ninguém vai querer abrir mão da tecnologia e do capitalismo, como você faz, porque não há vantagem nenhuma nisso. Nenhuma vantagem evidente, quero dizer.

– O problema é que o capitalismo é uma revolução que esconde os próprios custos. É um produto que cada um deve vender a si mesmo, por assim dizer, um dia após o outro. E todos compram, porque o dia seguinte depende dessa venda.

– Tenho de reconhecer – baixei a voz, mas foi sem querer, – que a mais simples das operações, que é manter-se vendável (isto é, manter-se produtivo), requer o espaço da vida inteira. Mas, para quem está dentro, apenas o custo de sair do sistema parece maior. Tecnicamente todos sabem que não precisam de um novo celular, mas a revolução é exigente. E talvez por isso irresistível.

– Você entende agora por que O Senhor dos Anéis é uma metáfora tão adequada para o nosso tempo? – ele finalmente fechou a garrafa e colocou-a de lado. – Entende por que a trilogia de Tolkien exerce um fascínio tão grande, mesmo sobre os que não sabem articular a coisa nos nossos termos?

Levantei as sobrancelhas, sinceramente embaraçado, porque não via a conversa tomando aquela direção.

– Não tenho certeza – concedi. – A coisa que mais gosto no livro é que a solução corporativa falha miseravelmente, e o herói remanescente e eficaz só sobrevive inteiramente marcado pela amargura.

Ele sorriu.

– É formidável, mas não é disso que estou falando.

– E do que estamos falando?

– Da revolução – João do Pó cortou mais uma fatia de laranja e derrubou no seu copo. – Tolkien moldou sua história a partir dos grandes épicos e clássicos que tanto admirava, mas com uma diferença. As antigas epopeias narravam a busca por algum objeto poderoso, e as dificuldades que os heróis encontravam no caminho.

– Entendi – senti o rosto queimar, mas entendi também que o profeta faria questão de articular por completo o seu argumento.

O Senhor dos Anéis é precisamente o contrário. Se você pensar, é uma anti-busca. O desafio dos heróis é destruir um objeto poderoso, não encontrá-lo.

– E fica demonstrado que não é nada fácil.

– Especialmente porque o poder representa uma tentação para os próprios heróis. Quem vai querer abrir mão de um artefato que representa uma vantagem tão evidente?

– Pouca gente – concordei. – E mesmo os que o fizerem estarão marcados para sempre pela tentação de possuí-lo.

– O desafio da nossa era – ele disse – não é outro.

Nesse momento um vaga-lume aceso, que não tínhamos notado quando entrara, voou ao redor de nós como uma fada e pousou precisamente no topo da garrafa que nos separava.

Calamos os dois, o pensador de gravata e o pensador com terra debaixo das unhas das mãos. Estávamos ambos descalços, e de fato nossos pés se tocavam sem grande constrangimento debaixo da mesa, mas aparentemente não seguíamos para o mesmo lugar. Ou a mesma pessoa.

Então, pela moldura de tela que protegia a porta aberta da frente, vi que alguém se aproximava pelo pasto escuro guiado por uma lanterna.

– Você está esperando alguém para jantar? – eu perguntei, e meu tom, para meu embaraço, foi quase de repreensão.

– Nunca espero ninguém, mas isso não quer dizer que qualquer um não possa chegar – ele explicou, e ouvimos que se abria o portãozinho do jardim.

Cinco minutos mais tarde esvaziei o copo, pedi licença e lembrei que estava na hora de ir indo.

Este relato faz parte do meu livro As divinas gerações.

Publicado originalmente em 24 de janeiro de 2011

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As persistentes persuasões do desenvolvimento http://baciadasalmas.com/as-persistentes-persuasoes-do-desenvolvimento/ Fri, 29 Jul 2016 20:15:44 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4249 O que o PT e o capitalismo têm em comum? A crença de que de uma produção crescente brotará naturalmente a justiça.

Foi precisamente essa perda de contato com o passado, nosso desenraizamento, que deu origem aos “descontentamentos” da civilização, a uma pressa e uma agitação tão grandes que vivemos mais no futuro com suas quiméricas promessas do que no presente, cujo passo acelerado nosso pano de fundo evolucionário não aprendeu ainda acompanhar. Precipitamo-nos impetuosamente novidade adentro, guiados por um senso cada vez mais acentuado de insuficiência, de insatisfação e de inquietação. Não vivemos mais daquilo que temos, vivemos de promessas; deixamos de viver à luz do presente e passamos a viver nas trevas de um futuro que, esperamos, trará o aguardado amanhecer. Recusamo-nos a reconhecer que toda coisa melhor é comprada ao preço de uma coisa pior.

Carl Jung em Memories, Dreams and Reflections (1957)

 

Como todo mundo, minha tendência é pensar na esquerda como um movimento político concebido com a finalidade de contrapor e anular os excessos do capitalismo. O socialismo, no mundo dos meus sonhos, deveria ser capaz de consertar tudo que é patentemente injusto, insensato e irresponsável no liberalismo econômico: em primeiro lugar, é claro, as devastadoras injustiças sociais patrocinadas pelo capitalismo, mas não só isso. Deveria ter também como prioridade rejeitar os dogmas ancestrais que representam a base e o combustível do capitalismo, especialmente a fé pública e inabalável na trindade suprema do lucro, do consumo e da produtividade – especialmente porque é esse doutrinamento que acaba produzindo as injustiças sociais em primeiro lugar. A situação política ideal, para mim, é aquela em que a injustiça social é anulada porque todos abandonam a obsessão circular e ilusória com o dinheiro, com o consumo e com a produção.

Cara, que idiota que sou. O governo do PT bastou para demonstrar que a esquerda petista é para todos os efeitos a minha direita. Não creio que os petistas sejam mais desonestos do que o político brasileiro mediano, mas por certo não são os reformadores da realidade com que cheguei por um momento a sonhar.

Ao contrário do que agouravam muitos de seus detratores, o governo do PT permaneceu moldando o país numa lubrificada e implacável potência econômica – um da meia dúzia de lugares do mundo em que dizer investimento era quase o mesmo que dizer retorno.

Naturalmente, o PT faz avançar esse projeto com mais responsabilidade social do que os governos anteriores, mesmo porque era impossível agir com irresponsabilidade maior. As reformas sociais colocadas em andamento pelo PT foram a meu ver muito reais e muito necessárias; eram urgentes décadas antes de serem colocadas em prática. Porém, ao mesmo tempo, não há como não enxergar na política econômica petista uma indisfarçada inveja do pênis capitalista.

De modo menos sutil (e, segundo alguns indicadores, com eficácia maior) do que os governos de direita que o precederam, o governo petista permaneceu obcecado em aumentar o escopo, a eficiência e o impacto da produção nacional. O PT quis demonstrar de modo espetacular que a sua estirpe de esquerda é economicamente viável, que produz e dá lucro – e no processo acabou endossando espetacularmente o artigo maior da confissão de fé capitalista, de que é o lucro (e não, digamos, uma maior equidade na distribuição de renda) a medida pela qual se deve pesar o sucesso de um país, de um governo ou de qualquer empreendimento.

Para o PT, a situação política ideal é aquela em que a produção reine suprema e desimpedida, desde que livre do embaraço da desigualdade social. Uma vez que se garanta um patamar mínimo de justiça social, a ênfase deve ser voltada para a produção, tomando-se as devidas providências para que não pare de crescer.

É evidente que há maior mérito em entronizar a produção acompanhada da equidade social, como procurou fazer o PT, do que, como faz o liberalismo econômico, deixar que o culto à produção e ao capital esmague todo traço de justiça. Porém a esta altura já deve ter ficado claro que o pressuposto econômico mais fundamental do PT é idêntico àquele do capitalismo: a noção de que a obsessão com a produção e com a produtividade não é incompatível com a justiça social. Na verdade, tanto o PT quanto o capitalismo creem que a produção é efetivamente o caminho para a justiça. Nos dois credos, o mundo só permanecerá viável enquanto as pessoas produzirem (isto é, consumirem) cada vez mais e de modo mais eficiente.

Para a esquerda da qual estou falando, o crescimento econômico é uma missão tão sagrada quanto é para o neoliberalismo. Uma vez definido como missão, tudo que se coloca no caminho do aumento da produção pode ser muito literalmente posto abaixo. Coisas como florestas, leis ambientais, tribos indígenas e senso de proporção. Ou seja, derrubamos coisas que tem um preço, mas com a conveniência de que são as próximas gerações que terão que pagar.

Não é, portanto, acurado dizer – como vejo que estávamos habituados a fazer, com um definido ar de superioridade moral – que países como Espanha, Portugal e Itália estão “vivendo uma grande crise”. Eles estão vivendo o futuro, e nós estamos vivendo como se não houvesse amanhã. Eles são países maduros enfrentado os limites e os desafios da maturidade, e nós somos adolescentes mimados gastando uma fortuna que não é nossa. Que fique então claro: o Brasil experimentou um boom econômico não é porque somos por natureza ou por upgrade mais competitivos, criativos e competentes do que espanhóis ou italianos: é porque, ao contrário desses caras, temos um país inteiro para queimar.

E, sem sombra de dúvida, o estamos queimando.

A esta altura já será lugar-comum (isto é, uma ideia de que todos somos culpados) dizer que, descoberto o Brasil, os portugueses “levaram o nosso ouro, mataram os nossos índios, derrubaram as nossas matas” e só se dobraram a nos conceder a independência quando não havia mais riqueza visível ou viável para raspar.

Que levaram muito ouro e diamantes, os quais hoje definem sabe-se lá qual desconcertante obra de arte europeia, não se discute. Mas também é indiscutível que na integridade das nossas matas os colonizadores europeus deixaram pouco mais do que um arranhão. Na verdade, tivessem continuado ao longo dos séculos a explorar as nossas florestas naquele ritmo original, teríamos (na faixa litorânea que em termos populacionais representa o grosso do Brasil) ainda muita natureza intocada para nos definir e abraçar. Dizer “mataram os nossos índios” é quantitativamente mais acurado, porém, do mesmo modo que derrubar as matas, é um serviço que deixaram inconcluso e nos ocupamos até hoje em tentar completar.

É parte essencial do lugar-comum dizer que, ao contrário do que fizeram os ingleses na América do Norte, os portugueses foram entre nós mais exploradores do que colonizadores. Senhores, bom dia: poderíamos até dizer uma coisa dessas, se não estivéssemos explorando o Brasil como os velhos portugueses jamais sonharam fazer.

Pelas estimativas mais otimistas, da Mata Atlântica – que bordava a curva extensíssima do nosso litoral, como nenhuma outra mata em nenhum outro continente do mundo ousou fazer – resta 10% da cobertura original (em determinadas regiões, menos de 3%). Porém a constatação verdadeiramente desconcertante é que pelo menos metade desse estrago aconteceu não sob a guarda dos colonizadores europeus, mas em quatro ou cinco décadas do século XX. Ou seja, a beleza singular e irrecuperável que sobreviveu a todas as ganâncias ao longo de mais de quatrocentos anos, nós conseguimos dizimar em quarenta.

Na Amazônia e o pantanal mato-grossense, desnecessário lembrar, essa herança de desolação permanece muito viva no momento em que escrevo. E, daqui de casa mesmo, enxergo a Mata Atlântica do leste paranaense (uma das mais preservadas do Brasil) sendo dia após dia encurralada por pedreiras, indústrias e conjuntos habitacionais. E como eu gostaria que esse “dia após dia” fosse apenas retórico. O meu testemunho é este: em seis meses brota uma indústria numa área que a floresta demoraria 100 anos para ocupar – uma área que, para todos os efeitos, nunca voltará a pertencer à natureza da qual a tomamos.

De onde, meu Deus, surgiu essa ideia de que é tudo bem consumir o país inteiro em chaminés, de que é tudo bem apagar florestas em fábricas, riachos em estacionamentos, pantanais em pastos, cascatas em represas e pradarias em campos de soja – isso tudo num ritmo de tsunami, que as mais diligentes atualizações do Google Earth não conseguem acompanhar?

Essa pergunta, infelizmente, é fácil de responder. Achamos tudo isso mais ou menos normal porque fomos devidamente programados pela doutrina do desenvolvimentismo – a conveniente ideia de que todos os países admiráveis são iguais: que são ricos, no sentido que gastam selvagemente todos os seus recursos no ralo da produtividade. Esse doutrinamento nos faz fechar os olhos a todos os custos pessoais, sociais e ambientais envolvidos na expansão industrial e agrícola, porque cremos que há virtude inerente em ver “o país crescer”. Essa resignação está mesmo gravada em palavra de ordem na nossa bandeira.

Meu amigo subversivo e insuportável Cláudio Oliver gosta de dizer que “desenvolvimento”, como o entendemos hoje, é um dos únicos conceitos que tem data precisa de nascimento. A ideia veio ao mundo por ocasião do discurso de posse do segundo mandato do presidente norte-americano Harry Truman, em 20 de janeiro de 1949. Foi naquele discurso que Truman explicou pela primeira vez que a maior parte do planeta era composta por “áreas subdesenvolvidas”. Dizendo assim, o presidente deixava imediatamente claro que todos os países sensatos do mundo deveriam perseguir o mesmo alvo: o do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, ele não deixou dúvidas quanto ao que entendia com a palavra.

“Todos os países, incluindo o nosso,” explicou Truman, “irão beneficiar-se grandemente de um uso mais eficaz dos recursos humanos e naturais do planeta. A experiência demonstra que o nosso comércio com outros países se expande na medida em que esses países progridem industrialmente e economicamente”. Magnanimamente, tendo em vista essa parceria compensadora para todas as nações, Truman esboçou ali mesmo um programa de assistência destinado a “atenuar o sofrimento desses povos através de atividades industriais e de um padrão de vida mais elevado”. Ficava inaugurada o dogma, em grande parte não questionado mesmo entre gente pensante, da cura das nações através da indústria. Porque, afinal de contas, “uma maior produção é a chave para a prosperidade e para a paz”.

Metade dos países do mundo, mesmo aqueles mais antigos e veneráveis, acordou no dia seguinte debaixo de um novo estigma e de uma inesperada inadequação, a do subdesenvolvimento. Wolfgang Sachs:

“O imperativo de desenvolvimento de Truman queria dizer que as sociedades do terceiro mundo deixavam de ser vistas como possibilidades únicas, vivas e diversificadas de arranjos humanos, e passavam a ser encaixadas numa única ‘trilha de progresso’, sendo julgadas mais ou menos avançadas a partir do critério das nações industriais do ocidente.”

E esses critérios, como não ignoramos eu e você e como não ignora a esquerda petista, são industrialismo e materialismo. O mundo de infinitos destinos, variedades e matizes foi reduzido oficialmente ao mercado. Iluminados retroativamente por vinte minutos de Truman, entendemos ainda hoje que a mais elevada aspiração para uma nação é chegar a ser os Estados Unidos.

A maldição da abundância está sobre nós: mesmo quando um governo brasileiro rouba muito (se você está entre os que acreditam que o PT rouba mais do que os outros) restam em circulação tantos recursos disponíveis que permanece impossível domar o frenesi do nosso crescimento. Este é um dos motivos pelos quais não estou interessado em comparar o desempenho de Fernando Henrique ao dos petistas que o sucederam. A fila já andou e o PT deixou de ser interessante ou relevante; o que quero é gente que entenda que conter o crescimento não equivale a perder em justiça, mas precisamente o contrário.

O Brasil precisa ser ainda [des]colonizado, e restam entre nós pouquíssimos índios e europeus que nos ensinem a viver.


Uma versão deste relato foi publicada na Forja Universal em 05 de dezembro de 2012

Leia também:
A ponte para o futuro menor possível

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A máquina no céu http://baciadasalmas.com/a-maquina-no-ceu/ Wed, 20 Jul 2016 16:05:53 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4232

Podemos supor que, do mesmo modo que o inconsciente nos afeta, um acréscimo no consciente afeta o nosso inconsciente.

Carl Jung em Memories, Dreams, Reflections

 

A chuva era universal, ocupando o espaço da cidade sem pausa e sem trégua havia dois ou três dias, como se o dilúvio fosse o estado natural das coisas.

O livro que ele pousou em cima da mesa, entre o cinzeiro e a garrafa de Chianti, eu já conhecia, o último dele, publicado quatro anos antes. O desenho da capa mostrava uma cena clássica de abdução: um homem num descampado surpreendido pelo círculo de um facho de luz que descia de um disco voador vários metros acima dele.

– Estou pronto a dar a resposta que você quer ouvir – ele puxou o cigarro aceso do cinzeiro e acomodou-se com naturalidade na poltrona: – Sim, perdi o interesse no estudo da ufologia porque finalmente descobri do que se trata. Ria o quanto quiser, descobri o segredo dos discos voadores.

– Se posso retribuir a sinceridade — eu disse, pousando temporariamente a taça de vinho sobre o sapato da perna cruzada, – você descobriu o que todo homem sensato sabe, que são uma ilusão e uma farsa. Só não entendo porque não teve a hombridade ou o senso comercial de publicar uma retratação. Imagino que venderia bastante, a retratação pública de um ufólogo famoso.

Ele sorriu muito menos cinicamente do que eu esperava.

– Imagino que venderia bastante, tenho de concordar. Mas acredite, pode ter sido coisa mais embaraçosa pra mim entender que os discos voadores são coisa muito real.

– Na minha opinião, o que você descobriu foi bem o contrário: que sua posição oficial, de que os ovnis são uma realidade física, foi ficando cada vez mais difícil de sustentar. Mais de cinquenta anos de pesquisa e ninguém conseguiu produzir uma única evidência convincente. Uma única foto inequívoca. Um único parafuso. Você finalmente entendeu isso e saiu de cena de fininho, levando toda a dignidade que conseguiu recolher dos destroços. Seria muito custoso admitir publicamente a verdade: que os discos voadores são um sonho que as pessoas inventaram na tentativa de construir um significado cósmico para a realidade depois que todos os significados cósmicos foram publicamente ridicularizados. Como dizia Jung, que são o mito do século XX.

Ele sorriu e olhou-me nos olhos, aparentemente deleitado com a minha sinceridade, mas deu uma baforada sem acrescentar nada ao sorriso.

– Estou errado? – insisti.

– Muito – ele esmagou o cigarro no cinzeiro. – Para começar, você ficaria surpreso com as coisas que Jung tinha a dizer sobre a realidade dos mitos. Depois, está errada a sua interpretação barata do meu recolhimento. Se abandonei o campo não foi porque entendi que uma evidência física seria impossível de produzir, embora em retrospecto realmente o seja. A coisa decisiva foi… que a própria natureza da minha descoberta levou-me a perder imediatamente qualquer interesse em fazê-la pública. Digamos que descobrir a resposta ao mistério fez de mim um cínico, não um convertido.

– Você jogou bem – admiti. – Jogou muito bem: saiu de cena sem perder o charme e evitou o constrangimento de oferecer uma verdadeira resposta. Em particular, seu cinismo recém-adquirido funciona como uma camada protetora. Você não vai me contar o grande segredo nem mesmo se eu implorar, e vai poder sempre me dizer que está me protegendo de uma realidade que para mim poderia se mostrar terrível demais.

– Mais um engano seu. Não vejo porque você deva morrer sem saber. Não que vá fazer qualquer diferença.

– Estou pronto – reclinei-me. – Ainda melhor se não vai fazer diferença.

Ele mordeu os lábios e serviu-se de vinho, como se estivesse usando o intervalo para medir as palavras ou achar o melhor caminho para a intervenção.

– Há pouco – ele finalmente entrou em acordo consigo mesmo – você disse que os discos voadores são um sonho que as pessoas inventaram para dar um significado ao mundo. Digamos que está tudo aí.

– Então você concorda comigo que são um sonho? Está admitindo que não passam da projeção de um anseio?

– Você é um cara estudado – ele apertou a borda da taça contra o bigode. – De onde vem os sonhos?

– Sonhos em geral?

– Sonhos. Sonhos. Aqueles que as pessoas têm quando dormem. De onde vêm?

– Vamos ter mesmo essa conversa? Você quer uma resposta do século XX? Do inconsciente. Os sonhos são mensagens do inconsciente para o consciente.

– E que vocabulário o inconsciente usa para se expressar?

– São mensagens em código. O inconsciente, por ser inconsciente, não tem como se expressar diretamente, por isso usa nos sonhos um vocabulário simbólico tirado da mitologia pessoal de cada um.

– Você não usou o termo técnico que eu queria ouvi-lo repetir, projeção, mas sua explicação é justa. Você diria então que nos sonhos comparecem imagens da memória e da realidade física, retrabalhadas ou re-significadas pelo inconsciente de modo a indicar uma coisa oculta.

– Essa é a teoria.

– E é claramente uma teoria articulada pelo ego, pelo consciente, porque ao mesmo tempo consegue ponderar a verdade e deixa de lado a verdadeira revelação.

– A revelação que você seguramente vai dividir comigo só depois de adiar o quanto puder.

– De jeito nenhum. Veja, estamos acostumados a pensar que os sonhos são projeções imperfeitas da realidade; que são confusos ou misteriosos porque o inconsciente é incapaz de apropriar-se da realidade com a competência e a capacidade de organização da mente consciente. Na nossa cabeça, o consciente é lúcido e esperto e lida com a realidade; o inconsciente é um asilo de loucos e um inferno e um caos: uma casa de espelhos de parque de diversões, que lida não com o real mas com fantasmagorias. Só conseguimos pensar no inconsciente como um mundo subterrâneo, como uma não-existência em que flutuam sem nexo e sem ordem elementos que são ao mesmo tempo projeções e distorções daquelas porções da realidade que apreendemos com os sentidos e com a mente consciente. É revelador que pensemos no inconsciente como povoado por projeções do conteúdo que o consciente recolhe da realidade, porque na verdade é precisamente o contrário.

– Como assim?

– A verdadeira não-existência é aquela da mente consciente, claro. O ego é que é uma construção. O inconsciente não é povoado por projeções: a mente consciente, bem como aquilo que o ego constrói como realidade, é que são projeções do inconsciente.

Concedi à coisa toda o silêncio que merecia e bebi um gole de vinho antes de voltar à carga.

– E o que isso tem a ver com o nosso assunto? Você está tentando dizer que os discos voadores são eles mesmos mensagens do inconsciente? Que são sonhos que invadem a realidade física, por assim dizer… já que para você a realidade é uma projeção do inconsciente?

– Creia-me, não é nem de longe o que estou tentando dizer. Pense assim: se não houvesse espelhos as pessoas provavelmente nunca chegariam a entender que existe uma diferença, uma vírgula ou um abismo, entre elas mesmas e o mundo. Um espelho é um acidente revelatório na vida de cada um. Ver um disco voador é ter um encontro semelhante com uma revelação vertiginosa que, de outro modo, poderia ficar para sempre oculta. E exige uma conclusão tão portentosa que achamos absolutamente necessário revertê-la na tentativa de anulá-la.

Ele recolheu o livro, atirou-o mais para perto de mim sobre a mesa e apontou para o desenho da capa.

– O que você está vendo? O desenho, o que está mostrando?

– Uma cena de abdução – cedi, impaciente. – O sujeito está para ser sugado para dentro do disco voador pelo raio de luz. Spielberg. Hollywood.

– Olhe de novo, que está tudo aí.

– Não estou vendo o que você vê – insisti. – Você precisa aprender a deixar de contar com o meu brilhantismo. Sou um cara obtuso, especialmente se sinto que estou sendo guiado para uma conclusão.

– Você não vê? – ele inclinou-se para a frente e fez o dedo percorrer o desenho. – O homem no chão, o facho de luz projetando-se da máquina no céu em direção à terra? Trata-se de iconografia que muito claramente existe para ocultar a verdade em plena luz do dia.

– Não entendi – mas a essa altura talvez já tivesse.

– Há muito tempo temos descartado os discos voadores como se fossem projeções do inconsciente. Você mesmo não usou outro argumento desde que chegou. Meu caro, o ego insiste com tanta fúria neste ponto porque não quer admitir que na realidade é o contrário. As projeções não são a máquina no céu. Aqueles que avistam um disco voador são os que por algum deslize do sistema acabam contemplando diretamente, por alguns instantes, o projetor.

Meus olhos voltaram instintivamente para o desenho cru na capa do livro: a silueta do homem lá embaixo definida pelo facho de luz que se despejava de uma abertura circular numa máquina no céu.

– Os discos voadores não são a projeção – ele foi inclemente e achou que devia dizer com todas as letras: – A projeção somos nós.


Este relato foi publicado na Forja Universal em 31 de dezembro de 2012

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O botequim é o anti-shopping http://baciadasalmas.com/o-botequim-e-o-anti-shopping/ Mon, 04 Jul 2016 07:35:34 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4099

Luis Antonio Simas

É aí que localizo na minha cidade o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global – o botequim. O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.

A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva uma Ágora efetivamente popular, espaço de geração de ideias e utopias – sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que têm pouco e precisam inventar a vida – que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim é o anti-shopping center, é a anti-globalização, é a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo doente das anoréxicas – doença comum nesse mundo desencantado.

Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o deus e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o ser humano é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória – a capacidade de sonhar seus delírios e afogar suas dores e medos na próxima cachaça. É onde a alma da cidade grita – Não passarão!

Luis Antonio Simas, em Resistir é preciso

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História é beleza http://baciadasalmas.com/historia-e-beleza/ Sat, 02 Jul 2016 12:58:17 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3499

Milhões de auroras, milhões de entardeceres, milhões de noites e de tardes que acabaram descolorando a fachada, escovando os muros e rebocando tudo com a massa do tempo: aquela pátina velha, preciosa e inimitável que é como o brasão nobiliárquico das edificações antigas e que recuso-me a destruir com uma reforma.
Adriana Zarri, falando de sua velha casa, em Un eremo non è un guscio di lumaca

 

Meu nome é Paulo Brabo, e sou um viajante do tempo. O presente não é o meu mundo – e isso, olha, desde a mítica Idade Offline que precedeu a internet, quando metade de vocês não tinha nascido. Hoje é um lugar que não existe.

Não ignoro, antes que você pesque a contradição, que até mesmo algo desinteressante e sem traços distintivos como o que chamamos de presente pode ser redimido pela mão reparadora do tempo. Por outro lado, não ignoro também que recobrir de beleza e de interesse a tela branca e ordinária do presente é tarefa custosa, árdua e demorada. Requer, na mais otimista e saltitante das hipóteses, cinquenta anos. Com gente é mais fácil: depois de quarenta anos o mais ordinário dos rostos já torna-se finalmente interessante. Porém uma casa é com 80 anos que vai abandonar as fraldas; para a mesma casa, a vida começa aos quarenta: quarenta decênios. Tratando-se de uma cidade ou um país, vamos combinar: pelo menos mil. Pelo menos mil anos.

Quando voltei da minha viagem inaugural à Itália deparei-me com a minha cidade brasileira como que pela primeira vez. Então essa é a mítica Curitiba, de que o país inteiro fala. Vi uma cidade até que muito viva, fresca e atraente – porém, com a perspectiva que trouxera na bagagem, entendi que restava muito pouco na minha cidade para chamá-la de minha.

Em dialeto brasileiro, Curitiba é uma cidade antiga, com mais de 300 anos. No que me diz respeito, o problema é que essa idade não se nota. Fora um recanto ou outro resgatado pela distração ou pela culpa, Curitiba aparenta ter caído pronta do céu, digamos, a partir de 1960. A maior parte da cidade, no entanto, deixa patente ter vindo à luz depois de 1990.

Sem contar o tamanho, Curitiba, com seus 319 anos, tem visualmente pouco que a diferencie de Cascavel, no oeste do estado, que tem 61. E olhe que Cascavel é já enorme, e cresce num ritmo monstruoso: em 1950 tinha 400 habitantes, em 2010 tinha 285.000 – uma população maior do que a da cidade de Verona, que no ano 89 era uma colônia romana. A segunda maior cidade do Paraná, Londrina, que não completou ainda oitenta anos, tem 515.000 habitantes: 144.000 a mais do que Florença – que é Florença há mais de mil anos, e tem uma história que se estende outros mil afora.

A alma de um lugar, naturalmente, não nasce de uma hora para outra. Uma cidade como Cascavel ou como Londrina, que com reles 50 anos já tinha ares de metrópole, não tem como não ser e como parecer mais ou menos genérica. São cidades enormes, mas poderiam ter sido construídas ontem; num certo sentido foram. Não conhecem a puberdade. Sua pele não foi tornada notável pelas rugas. Não tem feições que as distingam de outras crianças da mesma idade. A culpa, é claro, não é da cidade em si; o tempo é que é um artista exigente, um fornecedor cheio de melindres que não promete fascínio para menos de 100 anos.

Uma taxa de crescimento dessa magnitude é capaz de desfigurar até mesmo cidades que muito claramente têm uma alma, como São Paulo e Rio de Janeiro, reduzindo-as a meras coisas enormes: monstros sem forma que devoram tudo em seu caminho, sendo que a primeira coisa que devoram é a humanidade das pessoas e das coisas.

Se é para ser justo, é preciso reconhecer que essa obsessão com o crescimento é uma condição médica que tem raízes históricas: a febre expansionista nos foi transmitida justamente pelos colonizadores do Velho Mundo, que infelizmente não nos passaram a sua imunidade, adquirida ao longo das idades, de entender que toda expansão acaba encontrando limites. No Velho Mundo as nações conhecem os seus limites há milênios. Aqui no Brasil agimos como se o mundo não fosse redondo: como se o espaço não tivesse fronteiras, como se os recursos fossem inesgotáveis, como se a Amazônia não tivesse fim.

É evidentemente injusto que gente humana se veja obrigada a nascer e a viver no deserto sem face que são as grandes cidades brasileiras, e que as comunidades vizinhas sejam terraformadas em deserto ao serem atropeladas pela sua expansão – quando o deserto literal pode se mostrar muito mais vivo e autêntico, mais vivo e menos desumanizador. Porém, sendo o Paulo Brabo que sou, para mim a tragédia final é entender que para a cidade brasileira crescer em ritmo pornográfico não basta. Imolar o espaço e a natureza no altar do progresso não é suficiente: é preciso apagar no processo todo traço de história e portanto de beleza.

Posso ter de explicar que eu meu interesse pela história nasceu muito antes que eu beijasse a primeira pedra do Velho Mundo, no outono de 2008. Antes de me conhecer pessoalmente, meu irmão inglês Julian costumava dizer: “Paulo, você é de fato obcecado com o passado”. Depois de passar duas semanas comigo no sertão do nordeste, em 2005, e conhecer meus ritmos e devaneios, interesses e discursos, seu parecer foi ajustado: “Paulo, você efetivamente vive no passado”. Pouca gente já me entendeu melhor e mais rápido.

Eu mesmo me conhecia o bastante para saber, muito antes de embarcar, que ser finalmente submetido à experiência direto do Velho Mundo me esmagaria e me destroçaria e me faria dançar e cantar como uma criança.

Não ignorava também que para um Brabo como eu a Itália era (e permanecerá) o destino ideal. Como não antecipar que eu desmoronaria ao pisar a Florença de Dante? Se meu mano Paolo (a quem devo tudo e cuja generosidade para sempre me arruinou) tivesse me levado ao estacionamento de um shopping center e dito “aqui ficava a casa de Dante”, eu teria me desmanchado sem qualquer intervalo em lágrimas. Nem eu nem ele ignorávamos isso.

Meu problema é que ele não me levou a um shopping center ou a uma cidade moderna. Estacionamos a diversas quadras de distância e o Paolo conduziu-me a pé a uma Florença medieval de ruas estreitas e sombras e arcos e colunatas e ângulos que sem cessar convidam e galerias; uma cidade que o próprio Dante saberia reconhecer imediatamente, em que ele não teria qualquer problema para encontrar a casa em que morava, que está no mesmo lugar e essencialmente como era há setecentos anos – a poucos metros da capela minúscula onde ajoelhava sua Beatriz, em cujos bancos desabei e finalmente chorei com o desespero de um converso ou de um condenado. Chorei por Dante e por Beatriz e pelo universo e por mim e pela insuportável beleza da história e de todas as histórias.

É claro que eu esperava e rezava para que cidades como a velha Florença e Veneza, a Sereníssima, estivessem preservadas, como de fato estão. Mas essas são destinos famosos, que não só abraçam, mas não têm como contornar o seu destino à memória dos povos. O que eu certamente não esperava é encontrar na Itália uma constelação de outras cidades de que não tinha ouvido falar e que nossa admiração estupidamente não nomeia, espalhadas como pérolas pela paisagem, que haviam adotado e adotam a mesma vocação à eternidade, a mesma resistência à descaracterização.

São cidades de porte médio, como Lucca ou Barga, relativamente pequenas, como Siena e Pienza, ou vilarejos minúsculos, como Corfino e San Quirico d’Orcia. Lugares que são essencialmente como eram há quinhentos anos – em alguns casos muito, muito mais do que quinhentos anos. Em muitos casos, lugares que não têm não só o mesmo traçado urbano que tinham naquela época, mas o mesmo tamanho e a mesma população.

Incrivelmente, fui sacando que as cidades preservadas que ia encontrando não eram a exceção: eram a mais rigorosa norma. Quando tropecei com a mesma teimosa genuinidade nos vales mais remotos e nas mais despretensiosas das aldeiazinhas, intui por fim o que minha ambição teria considerado inimaginável: que o vertiginoso e irretocável projeto das cidades do norte da Itália (e, pelo que sei, de grande parte do sul da Itália e do restante da Europa) é este: o de permanecerem essencialmente as mesmas. A menor aldeia da Garfagnana vai lutar até o sangue para não deixar que o presente sem rosto lhe roube a beleza que é a mesma e que é sua desde a era dos santos medievais, desde o tempo dos soldados romanos antes deles, desde a idade dos etruscos quando não havia ainda romanos. Desde a época em que não havia ainda Jesus.

O que eu certamente não esperava era encontrar cidades preservadas e ao mesmo tempo vivas, já que no Brasil os centros históricos que restam são tornados inofensivos sob a forma de redutos para turistas. No Brasil não ocorreria a ninguém rebaixar-se a viver dentro da história. Enquanto isso, Florença e Siena e Barga são cidades de traçado medieval mas ao mesmo tempo são muito claramente cidades: cidades em que restaurantes, galerias de arte, boates, bancos, lojas de moda, lojas de celulares, quitandas, papelarias, açougues, lan houses e o que o valha existem em prédios de uma antiguidade (isto é, uma beleza) que entre nós não existe e não teria como existir.

Nunca esperei encontrar nesta vida uma história viva (no Brasil de onde venho história é morte, ou está separada da experiência por uma daquelas faixas vermelhas de museu, que estão ali para que a ninguém ocorra atravessar a linha entre o passado e o presente), e essa perspectiva me derrubou. Meus sonhos mais improváveis não teriam me levado tão longe. Caraca, pensei, é possível viver dentro da história. A história é indistinguível da vida desses caras.

Então voltei para casa, muitas vezes mais ambicioso e, naturalmente, muitas vezes mais desiludido (essa lucidez adquirida é um dos grandes perigos da perspectiva).

É claro que no Brasil o reboco da história é necessariamente mais fino do que na Europa, mas isso é o de menos. Eu queria ser Verona, mas ninguém tem culpa de ser jovem. Muito mais grave, mais irreversível e imperdoável, é o nosso delito de autodesfiguração: o fato de que a pouca história que temos tratamos febrilmente de apagar.

Para falar muito sucintamente de mim: a Curitiba que conheci há trinta anos não existe mais. Vejo nas fotos antigas que havia casas ao redor da praça Santos Andrade, e destas não conheci uma e não resta uma. O casarão de janelas altas, na esquina da João Negrão com a Marechal Deodoro, onde ficava uma pensão onde morou meu pai, só persiste na memória. Nos bairros, casas muito sólidas e distintas tiveram nas últimas décadas a indignidade de, antes de completar oitenta anos, ceder seu lugar para edifícios residenciais que são todos iguais entre si, ou de serem desertificadas em estacionamentos.

Quando voltei a Santa Felicidade, depois de uma pequena ausência de vinte anos, entendi que o bairro que eu havia conhecido tinha sido sequestrado e substituído por um aglomerado indistinto de enganos de cimento cometidos às pressas: um lugar que poderia ser qualquer lugar incerto e infeliz do mundo menos a velha Santa.

A casa adorável que foi sede da Junta da Convenção Batista, e que tinha uma varandinha pitoresca, uma cozinha arejada e um sótão irresistível, foi derrubada e substituída por um quadrado de cimento branco. Hoje a própria Junta existe num edifício com a fachada apagada por vidros e o charme de loja de conveniências de posto de gasolina.

Isso para não não falar de lugares menores do que Curitiba, das cidadezinhas que são engolidas pelas áreas metropolitanas; para não falar dos índios, dos casarões da avenida Paulista, do cassino da Urca. Se você vive no Brasil, sabe que não preciso me estender nos exemplos.

Tudo na minha terra tende a não permanecer bonito, genuíno e interessante como era. Qualquer coisa que tenha acumulado tempo, e portanto valor e interesse, encontrará ocasião de ser eliminada da paisagem, da experiência e da memória. Toda beleza será castigada. Somos o país do progresso, pelo que não nos deve embaraçar o embaraço muito evidente que é a história. Recusaremo-nos altaneiramente, até o último momento, a deixar que se crie entre nós o estorvo que seriam uma alma e uma herança.

Curioso é que há na Itália uma canção muito conhecida, de Adriano Celentano, que lamenta o ritmo de crescimento de Milão: Il ragazzo della via Gluck. Sua mágoa está resumido na frase “là dove c’era l’erba ora c’è una città”: ali onde havia campo agora há uma cidade.

O paradoxo está em que na Itália as cidades crescem, mas nem de perto com o ritmo com que crescem aqui. Não há verdadeiras metrópoles italianas além de Roma e Milão (sendo que Milão, claro, é menor do que Curitiba).

É evidente que me entristece encontrar uma cidade onde antes havia campo, e Deus sabe que passei por essa experiência muito mais vezes, e em grau maior, do que Adriano Celentano. Porém o centro histórico de Milão ainda está lá, vasto e vivo e radiante, e quando vou a Curitiba encontro uma cidade genérica e sem personalidade onde havia uma cidade pitoresca, elegante e inconfundível. Onde havia a minha cidade agora há uma cidade qualquer.

E de que adianta ser uma cidade-modelo, quando se é uma cidade qualquer? Qual é, na verdade, a diferença? No sertão do nordeste e nas escarpas verdes dos Apeninos, em lugarejos com uma área menor do que o estacionamento do restaurante Madalosso, encontrei mais genuinidade e beleza e interesse do que em Curitiba inteira.

Quando ficou sabendo que eu havia visitado a Itália, em particular a Toscana e a Florença de Dante e do Renascimento e de Michelangelo, meu amigo Julian (que quando menino passava as férias correndo assombrado debaixo daquelas arcadas) escreveu-me a mais acurada, sucinta e lisonjeira das avaliações:

“Finalmente. Agora então você já sabe que está condenado a passar a vida voltando para a Itália.”

Meu nome é Paulo Brabo, e sou um viajante do tempo.


Este relato foi publicado na Forja Universal em 9 de novembro de 2012

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Dos deleites da repetição http://baciadasalmas.com/dos-deleites-da-repeticao/ Mon, 20 Jun 2016 10:41:17 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4167 Outro resultado desse novo arbítrio foi a geral catadura e revisão da genealogia de gente blasonada dos sete ventos dos antanhos. De Carnivaldo a menos controversa é também a mais extensa e mais recente, aquela que aparece nas Crônicas e falaços de Fabrizio Forro. Não se requer maior cotejadura: a versão aberta diante do leitor […]]]> Outro resultado desse novo arbítrio foi a geral catadura e revisão da genealogia de gente blasonada dos sete ventos dos antanhos.

De Carnivaldo a menos controversa é também a mais extensa e mais recente, aquela que aparece nas Crônicas e falaços de Fabrizio Forro. Não se requer maior cotejadura: a versão aberta diante do leitor não só assume a genealogia de Forro como rigoroso meridiano, como a ignora por completo. Em manobra que aprovaria sem pestanejo Carnivaldo, rendemos preferência ao tradicional em detrimento do comprovado, ao pitoresco em detrimento do que é mesquinhamente acurado. Não deixou de apontar Regente Boffé que Forro é historiador em perfeita gamba, mas requer quem lhe corrija continuamente a concisão e a precisão, estendendo-lhe as digressões com material que ninguém ignora mas que todos podem beneficiar-se de voltar a pesar.

É sabido que nada há mais belo, mas também nada mais fora de propósito, do que os sete cantos e quatorze mil versos do Cordel da Descrição da Carne Roubada de Leonardo Mota, que se limita a descrever com doverosa minúcia a nudez de Ferrabrás, filho de Lampião, morto assassinado sobre a laje. Pode haver maior despropério do que descrever à exaustão os membros, as pregas, os orifícios, os dentes, os dedos, os pentelhos e os colhões que todos os homens têm em comum? A força da Carne Roubada está em tratar-se de descrição que, por ser escrita, só gente humana é capaz de ler, mas que por esmiuçar em tantalizante detalhe a humana residência (a que toda gente tem acesso irrestrito e contínuo) para gente humana é de antemão desnecessária.

Aqui reside o mistério e o naipe de toda maquinação e de toda arte, a notícia de que pode haver maior deleite na repetição do que na novidade, que reler pode surpreender com mais severidade do que ler, que o vinho no copo é sempre novo porque é sempre seco. Não comem todos os dias os homens? Não bebem cana todos os dias? Não derrubam todos os dias libação a Onã? E nessas repetições são encontrados por deleites que são sempre novos em que suas confirmações não se alteram.

A lapidação da safira, de Arrobino Manteiga, consiste no elenco versejado de mais de duzentos eufemismos para “masturbar-se” (compreso aquele fornecido por Galeno em Do uso das partes do corpo, e que envolve a palavra “tutano”), e não há cristão que não entenda que a satisfação que produz está em se ver incessantemente regenerado e recriado, por via das figuras alternadas que se sucedem, o processo mais casalingo e familiar. O senso sublime sistá.

Da mesma seiva se extrai o prazer das longas genealogias e das biografias de gente famigerada. A enumeração é toda a arte, disse Shakespeare a Nathan Hale, e para São Coro de Minância a felicidade é contar de zero a dez numa língua estrangeira. O leitor que levo para a cama encontrará quem sabe o mesmo prazer em ser lembrado que na planície de Bezerros os guaitacazes conquistaram os etruscos, os botocudos conquistaram os guaitacazes, os genoveses conquistaram os botocudos, os venezianos conquistaram os genoveses, os turcos conquistaram os venezianos, os normandos conquistaram os turcos, os sicilianos conquistaram os normandos, os guaranis conquistaram os sicilianos, os portugueses conquistaram os guaranis, os holandeses conquistaram os portugueses e os nagôs conquistaram os holandeses, mais ou menos nesta ordem e até que fossem decretados irmãos e sentenciados brasileiros.

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O otimista http://baciadasalmas.com/o-otimista/ Fri, 17 Jun 2016 22:54:43 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4133 Pergunte se não acabei de pintar o meu amigo Gustavo Leal Brandão:

Ex-pastor, leitor impenitente, protetor dos fracos, fazedor de pão, oferecedor de café com guloseimas, romeiro, bebedor de vinho, amigo de pecadores, ouvidor de confissões, matutador sem pausa, abraçador de causas perdidas, alçador de espíritos, distribuidor de biscoitos, visitador gentilíssimo, pessoa doce e provocador perpétuo – o Brandão é mais do que um rostinho bonito.

O Gustavo é um dos poucos caras cujo otimismo inflexível até um pessimista empedernido como eu se sente inclinado a perdoar, e pelo excelente motivo de que se existisse no mundo mais gente como ele haveria de fato razão para ser otimista.

Preciso desenhar?

Hora do café com Gustavo Brandão

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A [inaudível] guinada para a direita dos evangélicos http://baciadasalmas.com/a-inaudivel-guinada-para-a-direita-dos-evangelicos/ Mon, 13 Jun 2016 18:15:04 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4124   O movimento evangélico é já resultado de uma privatização Circulou há algumas semanas uma entrevista em que o sociólogo Roberto Dutra analisa o impacto político do crescimento da população evangélica no Brasil. Seu alerta mais ressonante é o de que haveria “uma cegueira da esquerda em compreender essa nova classe trabalhadora”: O PT é […]]]>  

O movimento evangélico é já resultado de uma privatização

Circulou há algumas semanas uma entrevista em que o sociólogo Roberto Dutra analisa o impacto político do crescimento da população evangélica no Brasil. Seu alerta mais ressonante é o de que haveria “uma cegueira da esquerda em compreender essa nova classe trabalhadora”:

O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo antiindividualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo, a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo acusatório: “É a pregação do individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”.

Há diversas camadas nesse raciocínio. Politicamente, ele sugere a possibilidade (ou a necessidade) do surgimento de uma esquerda de alguma forma conciliada com o individualismo. Num nível mais profundo, seu argumento é de que se os evangélicos conciliaram cristianismo com individualismo, o PT (ou algum seu sucessor mais iluminado) poderia muito bem estar aprendendo a conciliar individualismo com a esquerda:

De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos EUA, por exemplo. É um liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.

Confesso que não entendo o que acabei de ler. O autor parece não encontrar qualquer dificuldade de conciliação entre as prioridades sociais da esquerda e as ênfases individualistas de uma novo liberalismo popular (que teria, magicamente, semelhanças com o dos EUA sem ser necessariamente conservador). Dutra dá a entender que o social é muito incompetente por deixar de cooptar em seu favor o individual, porém não dá qualquer indicação de como isso poderia ser feito.

A quem se interessa pelas contradições inerentes à questão, recomendo fortemente o quarto e último capítulo do documentário O século do eu, de Adam Curtis. Esse episódio (assista clicando aqui: o vídeo Oito pessoas bebendo vinho é o último, está mais ou menos no meio da página) relata as tentativas de partidos progressistas na Inglaterra e dos Estados Unidos (via Tony Blair e Bill Clinton) de reverter em favor das causas sociais as ênfases individualistas das populações desses países. Posso adiantar que é mais difícil do que parece, e as consequências podem ser ao mesmo tempo ridículas e desastrosas; é um relato de interesse ainda porque fala de concessões que num cenário diferente o PT também fez.

Se Roberto Dutra pede que ignoremos as contradições inerentes entre os valores coletivos da esquerda e os valores individualistas dos neoconservadores talvez seja porque os evangélicos fazem algo semelhante, escolhendo ignorar eles mesmos as contradições entre a sua pregação individualista e a ênfase dos evangelhos e do Novo Testamento no social e no comunitário.

A priorização do coletivo é um dos muitos sentidos em que os católicos estão mais próximos do ~evangelho~ do que os evangélicos (ah, a doce cooptação das palavras). Nesse sentido, há muito mais consequências políticas no fato de a nova classe trabalhadora estar escolhendo se distanciar do catolicismo pela filiação evangélica do que no fato de que sua formação está deixando de ser sindical.

O relevante é que a ênfase individualista do movimento evangélico – “a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade” – não é uma novidade no movimento com a qual a esquerda brasileira deveria estar se atualizando, mas define desde a sua origem a herança protestante. A novidade é a penetração da ideia país afora pela expansão do movimento evangélico: a noção em si tem pelo menos 500 anos.

Pouco a pouco vamos nos dando conta de que Weber não foi longe o bastante quando sugeriu que a ascensão do capitalismo deve muito à propagação da ética de trabalho protestante. A Reforma representou a privatização – a palavra é essa mesmo, com todas as suas ressonâncias – efetiva e sem precedentes de esferas inteiras da experiência. Os reformistas invocaram mundo adentro nada menos do que uma nova leitura e representação da realidade.

Em linhas gerais, no mundo caótico e sem privacidade da idade medieval tardia o católico encontrava na missa o silêncio e a pausa possíveis para uma reflexão individual. O encontro do adorador com o individual acontecia dentro da igreja: do lado de fora das portas reinavam a esfera do público e do comunal. A herança católica era portanto e permanece um diálogo perene com a sociedade: um cristianismo exercido fundamentalmente quotidiano adentro, fora das portas.

A privatização proposta e efetuada pela Reforma Protestante reverteu esse cenário. Para o protestante e seus descendentes evangélicos, a esfera pública está essencialmente restrita ao que acontece dentro do templo: são os cultos, as reuniões, os louvores, as vigílias, a Escola Dominical. São encontros ricos, intensos, calorosos e emocionalmente compensadores, em tudo estudados para antagonizarem e anularem o recato da missa. Em retribuição, e ao contrário do católico, o evangélico acredita que fora da igreja é o terreno em que vem exercidas a individualidade e a privacidade. Dito de outro modo, o evangélico sente ou tende a sentir que fora da igreja não é responsável por ninguém além de si mesmo: seu diálogo com a sociedade e sua noção de responsabilidade social simplesmente não existem.

Não é a hora nem o lugar para lembrar o quanto essa disposição contradiz a disposição de Jesus e do Novo Testamento. Bastará entender o quanto a ênfase do movimento evangélico no individualismo em detrimento do coletivo se alinha às necessidades do capitalismo. Não é absolutamente à toa que os Estados Unidos e a Inglaterra do capitalismo são países de herança protestante.

Através do movimento evangélico, e não só: ele está no meio de nós.

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Vamos chamar de democracia http://baciadasalmas.com/vamos-chamar-de-democracia/ Wed, 08 Jun 2016 12:27:28 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4101 A manipulação deliberada e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é elemento fundamental de uma sociedade democrática. Os que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que representa o verdadeiro poder dirigente do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossas preferências formadas, nossas ideias sugeridas em grande parte […]]]>

A manipulação deliberada e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é elemento fundamental de uma sociedade democrática. Os que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que representa o verdadeiro poder dirigente do nosso país.

Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossas preferências formadas, nossas ideias sugeridas em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar.

[. . .] Em praticamente tudo que fazemos na vida diária, seja na esfera política ou nos negócios, seja em nossa conduta social ou convicção ética, somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas que entende os processos mentais e padrões sociais das massas. São eles que puxam os cordões que controlam a mente do público, que canalizam antigas forças sociais e encontram novos modos de amarrar e conduzir o mundo.

Este é Eduard Bernays, sobrinho de Freud, precursor de Eduardo Cunha, Maquiavel moderno e designer inteligente do presente século, logo na primeira página do seu livro Propaganda, de 1928. Não se deixe enganar pelo despejo dos parágrafos acima: Bernays achava coisa necessária e benéfica a manipulação das massas pelas elites, e escreveu o seu livro e inventou o conceito de Relações Públicas para mostrar ao mundo como se faz.

Funcionou.

Para uma introdução aos estragos de Bernays você pode querendo recorrer a O século do eu, documentário da BBC. A partir de uma lembrança da @Denisemattos

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Entrevista com o demônio do Facebook http://baciadasalmas.com/entrevista-com-o-demonio-do-facebook/ Sat, 04 Jun 2016 09:19:35 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4056  

«Então Borges não dizia que o Paraíso é uma espécie de biblioteca? O Inferno é uma espécie de Facebook»

Não tenho televisão há mais de dez anos, e um dos efeitos colaterais dessa condição é o sobressalto. Seja onde for, encontrar um aparelho de tv ligado não tem como gerar em mim estranheza menor do que produziria encontrar naquele mesmo canto uma ariranha, um grifo ou um zumbi acorrentado. Que os outros no aposento ignorem por completo a ameaça só contribui para acentuar o senso de afastamento da realidade da coisa toda.

A ressalva é que, sendo gente, não ignoro o fascínio quase doméstico de ariranhas, grifos e zumbis.

Porém existe um horror cósmico que nada tem de doméstico: um horror de indiferenças ciclópicas, um estranhamento que fala de distâncias interestelares e um terror inescapável diante do caráter contingente de tudo que a humanidade toma por valioso. Essa sorte de alienação completa que Lovecraft entreviu mas não encontrou forças para mapear encontro quando me deparo com, aberta em uma tela qualquer, uma timeline do Facebook.

De vez em quando meu pai me chama para ajustar alguma coisa no computador dele e a página está ali aberta, um rigoroso buraco negro, um perfeito anti-Aleph, e ah se Nietzsche estava certo quando disse que o abismo olha de volta para você.

Outro dia eu estava ajustando alguma coisa no computador do meu pai e um demônio estava ajustando alguma coisa no Facebook do pai da mentira. Esse diabo era tão nefasto e baixo astral que ficamos logo amigos; antes de ir embora ele pediu pra me adicionar e eu disse que não estava no Facebook.

– Ah – disse o coisa-ruim. – Tenho no meu coração negro um lugar para os suicidas como você.

– Ê, sim – eu disse. – Soubesse todos os negócios que já perdi por não pactuar.

– Um dia vocês todos cedem.

– Disso não tenho dúvida. Lasciate ogni speranza, voi che ~non~ entrate.

– Você que curte Dante – sorriu o demônio – já deve ter sacado que tomamos o inferno da Divina Comédia como base para o Facebook, não já?

– Sabe que até hoje não percebi – eu disse. – Para o abismo olho pouco.

– Pois preste atenção, que está tudo ali. A geografia de montanha invertida da timeline do inferno, os impenitentes condenados a imprecar dentro dos seus círculos, as relações interpessoais congeladas que nunca avançam nem se desenvolvem, os perdidos ignorando o fato de que estão sendo punidos. Enchemos o Face com esse tipo de ovo de Páscoa, um dia quando tiver um tempinho dê uma olhada ali rapidão.

– Estou achando que vou preferir reler a Comédia. Digo sem ofensa.

– Não me ofendo. Então Borges não dizia que o Paraíso é uma espécie de biblioteca? O Inferno é uma espécie de Facebook.

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👊 http://baciadasalmas.com/a-luta-continua/ Wed, 01 Jun 2016 00:37:15 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4052  

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De Merito Metricio http://baciadasalmas.com/de-merito-metricio-2/ Mon, 30 May 2016 03:19:22 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4049 Em dias de ojejorno não há quem ignore que as genealogias nos tornam pessoa melhor na medida em que menos claramente nos antecipam a grandeza. Carnivaldo de Bezerros, tendo vivido e atuado em tempos menos ilustres e menos conexos, não teve como se beneficiar desse conhecimento, embora tenha angariado o mérito de se mostrar gente […]]]> Em dias de ojejorno não há quem ignore que as genealogias nos tornam pessoa melhor na medida em que menos claramente nos antecipam a grandeza. Carnivaldo de Bezerros, tendo vivido e atuado em tempos menos ilustres e menos conexos, não teve como se beneficiar desse conhecimento, embora tenha angariado o mérito de se mostrar gente nobre e admirável sem ter chegado a saber se o sangue lhe endossava a virtude ou a puxava para baixo.

Foi Cravalo de Orvaglio, poeta da versejadura do iluminismo e partidário da água de cevada, o único autor do famoso De Merito Metricio, tratado em cinco livros em que está escrito que num mundo justo todo homem insigne deve poder ter a liberdade de orgulhar-se de desconhecer se sua genealogia lhe sustenta a virtude: “toda peçoa de virtouosa mercê tem dreito a suster ignorancia da propria estirpe, fimquê a nobreza da raça não lhe roube o mérito da virtude, e sua mesquigneza que não lhe esgote os brios”.

De Merito Metricio foi publicado pela Casa Editrice Tupi Guarnieri em 1676; em cinco anos já havia sido traduzido para o italiano, o tedesco, o guató, o sardo, o holandês e a língua geral. Lido cinquenta anos depois, o tratado inspirou a devassa de meios-médios na guerrejadura de Gualmiro Pontefússido, ocasião em que foram queimados os livros-registro de todas as igrejas de Valdilá, Mucuçaba e Quixabeira, bem como os livros de história das bibliotecas de Galibó e da aldeia tipográfica de Arnaldo Pioli.

Gualmiro, em Piaça do Mugimim: “Não são livros, são cadeias de sangue. Deixe que queimem”.

Na Garofa Rofanha a Queimação dos registros genealógicos foi decretada compulsória em março de 1728. Foi a eclosão da Guerra da Catraieira, em dezembro daquele ano, a causa móvel da não-entrega ao fogo dos livros-registro das paróquias de todo o vale do Mugimim.

Pode não ser conveniente continuar a ignorar que o meritricismo, de untura de Cravalo de Orvaglio em De Merito Metricio, foi a manifestação original da linha de pensamento que os bitos, em sua controvérsia com os cricatis, rebatizaram de capitalismo ou libersejatura.

Foi preciso 1887 para que Celso Lunquegardo, calvinista e vernovense da escola austro-húngara, publicasse no Diário da Tarde série de ensaios que linguapopularizaram a visão oposta (porém já presente como germe na nata de urdidura do meritricismo) sobre a questão das investiduras ancestrais. Para Lunquegardo, todo homem de comprovada comenda e estatura, testado e assajado na manufatura da própria prosperidade e versado no liberestar, deveria ter a liberdade de conhecer e propalar a própria linhagem – justamente de modo a demonstrar, sendo esse o caso, que o seu sucesso como êssere humano não dependia dela.

Daquela hora em pois a genealogia voltou à voga em regime de arrema no sertão, sendo que todo homem de ilustração passou a desejar antecedentes infames ou a produzi-los conforme a demanda, de modo a que o contraste laborasse para salientar-lhes o individual valor.

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Terezinha e Lindalva e Ramin Djawadi http://baciadasalmas.com/game-of-pobres/ Sun, 29 May 2016 19:36:18 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4043   O rico e o pobre, Game of Thrones | Terezinha e Lindalva, Ramin Djawadi | Clique no triângulo para ouvir Este documento contém clipes de áudio que você talvez só consiga ouvir na página da Bacia na internet.]]>  

O rico e o pobre, Game of Thrones | Terezinha e Lindalva, Ramin Djawadi | Clique no triângulo para ouvir

Este documento contém clipes de áudio que você talvez só consiga ouvir na página da Bacia na internet.

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Pausa para o café http://baciadasalmas.com/pausa-para-o-cafe/ Thu, 26 May 2016 12:23:03 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4035 Porque toda ideia do café é a disciplina da pausa. Sem alguma pausa sensorial arbitrária o ser humano tende a esquecer a tradição de que é possível e necessário experimentar em alguma medida a realidade.

Este é pra ser o Renato Santana Santos. A iluminura foi feita aqui no Monastério a partir de uma foto da Priscila Nogueira.

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A mística da desqualificação http://baciadasalmas.com/a-mistica-da-desqualificacao/ Sat, 21 May 2016 23:06:08 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=4005   Quem tem autorização para se indignar? Pegue a sua senha O impeachment nem foi ainda sancionado e já é um anticlímax. Na tempestade perfeita das exaltações políticas do Brasil, não há quem não se sinta perplexo, não há quem não se sinta refém. Dentre as coisas que eu tinha esquecido está que numa crise […]]]>  

Quem tem autorização para se indignar? Pegue a sua senha

O impeachment nem foi ainda sancionado e já é um anticlímax. Na tempestade perfeita das exaltações políticas do Brasil, não há quem não se sinta perplexo, não há quem não se sinta refém. Dentre as coisas que eu tinha esquecido está que numa crise a moeda mais cara é a da alocação da culpa. Se é fácil olhar o cenário e encontrar alguma falta, mais difícil é encontrar paz na atribuição retroativa de responsabilidades.

Digamos que o governo interino seja um desastre: a culpa pelo desastre é dos que promoveram o impeachment ou dos que colocaram Dilma (e o seu vice) no poder? Digamos que o governo interino seja a melhor coisa: a culpa pela reação negativa do mercado e do mundo ao novo governo é dos sabotadores que não estão deixando o homem trabalhar ou da patente ilegitimidade da nova direção?

Organizando direitinho todo mundo pode se indignar

Grosso modo, a direita atribui à esquerda os eventuais insucessos (via boicote) e a própria existência (via eleições de 2014) do governo interino; a esquerda atribui à direita os excessos e retrocessos (via conservadorismo) e a própria existência (via impeachment) do novo governo. De quem exatamente é a culpa? Quem tem autorização para se indignar legitimamente?

Na tarefa da alocação da culpa, estratégia vital é a da desqualificação: quem é você para dizer alguma coisa, se você Numa palavra, antes que você possa criticar ou opinar, todos os lados vão lhe pedir as credenciais.

Parte da direita decidiu que quem apoiou o PT não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque aconteceu só que tomou posse o vice eleito com Dilma. O que você esperava?

Parte da esquerda decidiu que quem apoiou o impeachment não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque está apenas colhendo o que muito claramente plantou. O que você esperava?

Parte da direita decidiu que quem é de esquerda, mesmo se se opunha ao PT, não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque o PT é de esquerda. O que você esperava?

Parte da esquerda que se opunha ao PT decidiu que quem é de esquerda não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque Dilma já havia feito alianças sacrílegas com as elites e o agronegócio, sendo para todos os efeitos um governo de direita. O que você esperava?

E assim por diante. Ciro Gomes não tem direito a opinar porque vem de uma família de políticos profissionais. Glenn Grenwald não tem direito a opinar porque é estrangeiro. Diogo Mainardi não tem porque mora na Itália. Paulo Brabo não tem direito a opinar sobre processos constitucionais porque já prescreveu que a anarquia é a única forma de governo. Luis Fernando Veríssimo não tem direito a opinar porque é escritor e sei lá, Lei Rouanet.

O anarquista dentro de mim preferiria não ter de defender uma instituição, mas tomando-se a democracia como ilusão útil, deve ser tomada pelo que diz: nesse universo de combinação somente o voto é irreversível, e num certo sentido, somente o voto é sagrado. Todo o resto precisa ser e espera-se que seja continuamente questionado, refinado, explicado, qualificado, justificado, trazido à luz, criticado e reformulado – sem que de antemão se saiba se o que vamos cavar daí é convivência, resistência ou aquele amargo misto das duas que é o preço e a recompensa da democracia 1Nesse cenário até os picaretas e canalhas devem poder falar, especialmente pela conveniência de que falando revelam quem são.. A boa e a má noticia é que não há quem saiba como fazer isso por todos. Dito de outro modo, todos em qualquer circunstância estão qualificados para opinar, porque muito claramente não há um só que esteja.

Se deixarmos que todos os desqualificados falem e se ouçam quem sabe acabemos empurrando uns aos outros a ocupar os espaços viciados da democracia com arranjos mais vitais, locais, legítimos e representativos, coisas que nem nome talvez ainda tenham e que só pela metade aprendemos a desejar.
 

Notas   [ + ]

1. Nesse cenário até os picaretas e canalhas devem poder falar, especialmente pela conveniência de que falando revelam quem são.
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Em todo lugar menos http://baciadasalmas.com/em-todo-lugar-menos/ Sat, 21 May 2016 14:46:19 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3994 – Só digo que Deus não está no controle – disse rabi Y. – Não estou dizendo que ele não está talvez em algum outro lugar.

– E se o salmista encontra espaço de adoração porque Deus está no controle? – disse rabi M.

– E se Deus pede para ser reconhecido pela sua prontidão em perdoar, sendo que perdoar é abrir mão do controle? Fato é que se não abrisse mão do controle Deus perderia o controle de qualquer forma, porque os homens cometeriam toda a injustiça com a desculpa de que ele está, como efetivamente fazem. Não farás para ti imagem de escultura, mas Deus mesmo transgrediu no Éden moldando o homem do barro à sua imagem e semelhança. O homem é a imagem de escultura de Deus, é sua transgressão, sua estátua e sua abdicação de controle. Deus está em todo lugar menos naquilo que é humano, resultado do fato de que Deus interino somos.

– Deus não pode ser culpado pelo mal dos homens.

– É precisamente o que digo eu – disse rabi Y, – e o que disseram os profetas. Pare de dizer que Deus permitiu quando Deus não tem nada a ver com isso, eles diziam. Pare de dizer que é justo porque simplesmente aconteceu. O relato da criação não é então uma enumeração de limites, e a redenção não é a história do que Deus se absteve de fazer? Desde que o homem ganhou o conhecimento do bem e do mal, Deus está em todo lugar menos no que é humano. Deus está em todo o lugar menos no controle.

– De que outro modo – disse rabi M depois de ponderar um momento – Deus poderia ensinar os homens o que é ser como Deus.

– De que outro modo – disse rabi Y.

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O mercado que nos protege http://baciadasalmas.com/o-mercado-que-nos-protege/ Thu, 19 May 2016 21:23:16 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3973 O governo que não deve ser nomeado deflagrou uma semana de rigoroso Choque e pavor – a tática militar de ocupar dando demonstrações múltiplas e espetaculares de força, de modo a desestimular qualquer resistência. Numa semana, o governo que até segunda ordem é interino divulgou estar pronto para: “repactuar” (leia-se reduzir) o SUS privatizar os […]]]> O governo que não deve ser nomeado deflagrou uma semana de rigoroso Choque e pavor – a tática militar de ocupar dando demonstrações múltiplas e espetaculares de força, de modo a desestimular qualquer resistência.

Numa semana, o governo que até segunda ordem é interino divulgou estar pronto para:

Isso só para citar as medidas mais desconcertantes, e sem pausar para examinar a ficha de antecedentes dos ministros apontados, do novo líder do governo e do próprio presidente em exorcismo.

Embora espero que seja poupado desse constrangimento, você vai encontrar brasileiros satisfeitos com esse pacote de propostas. O motivo da satisfação? Cada uma das medidas listadas acima representa um avanço do neoliberalismo – a doutrina segundo a qual o mercado é promotor de toda justiça, o estado é promotor de toda injustiça.

A curiosidade teológica está em que para neoliberal/fundamentalista de mercado reduzir a saúde pública e eliminar o ensino público são medidas que na boa não deixam ninguém desamparado, porque se você tiver fé (e emprego) o mercado nos protege. As necessidades que o estado supria de modo tão amador o mercado vai suprir de modo profissional, através dos planos de saúde e das escolas privadas. Como o serviço do estado é inferior e menos confiável do que o do mercado, eliminar o serviço do estado é um grande favor que estamos te fazendo, um dia quando for grande você vai agradecer.

Em regime complementar, o novo governo também já sinalizou que não vai fiscalizar o serviço prestado pelos planos de saúde, e nesse lavar de mãos está embutida uma outra manha neoliberal: o mercado é um deus caprichoso, e só promove a justiça quando e enquanto permanece “livre” – querendo dizer, entre outras coisas, livre de fiscalização e de regulamentação.

Para recapitular: o SUS precisa ser reduzido, mas se tiver interesse você pode contratar este plano de saúde pelo preço arbitrário que o mercado quiser cobrar por um serviço que para sua conveniência ninguém vai fiscalizar. Mas confie, está tranquilo e está favorável; para saber mais tecle 2 ou espere na linha para ser atendido por um dos nossos colaboradores.

 

Nada disso foi votado pela população e nada disso não é esperado de um governo essencialmente alçado ao poder pela FIESP, mas caramba.

O que me surpreende não é a cara lavada com que as medidas que só beneficiam o mercado são tomadas por quem quem está oficialmente representando os interesses da população; do neoliberalismo não convém esperar ignomínia menor.

O que me deixa de cara é o modo como a agenda neoliberal ignora como por completo, como se nada fossem, esferas inteiras de vida, de interesses e de modos de fazer que existem e operam à parte do mercado. A cara de pau que é preciso ter para agir como se não existissem faixas e intersecções inteiras da sociedade que por n motivos – idade, capacidade, vocação, doença, “deficiência” física ou mental, desinteresse, idealismo, convicção, inadequação, ambição artística, tradição ou falta de oportunidade – vivem fora do mercado e não tem como ser protegidas por ele (algumas vezes não tendo inclusive qualquer interesse nessa proteção).

Agir e legislar como se só a esfera do mercado fosse legítima serve para efetivamente marginalizar (e marginalizar é um modo conveniente de criminalizar) quem no mercado não está porque não quer ou porque não pode: anciãos, doentes, índios, licenciados, loucos, desempregados, órfãos, gente da rua, saltimbancos, sertanejos, quilombolas, poetas, incapacitados, subsistentes e qualquer um que escolha um modo de vida não-predatório. Quem não produz e não consome para o mercado não existe: está na margem e com a margem será punido, porque quem está na margem o mercado não protege.

Para efetivamente punir quem está na margem, o estado deve diminuir e o mercado deve tudo cobrir, daí a ênfase absoluta nas privatizações.

 

O estado, por ideia interina e falha que seja (e é), está fundamentado na noção de que sempre existirão os desamparados, gente que o cidadão comum não vai ter os recursos ou o tempo para proteger. O contrato é que o estado seja sustentado por todos para que todos saibam que diante da contingência – a doença, a incapacitação, o desemprego – ninguém vai estar descoberto.

Muito menos realista e muito mais cafajeste, o fundamentalismo de mercado opera num mundo fictício em que os desamparados não existem ou não contam. Na malha inclemente do neoliberalismo, o mercado protege quem no mercado está, e qualquer outro arranjo é inconcebível – e ilegítimo. Nada de saúde pública, nada de ensino público, nada de empresas públicas, nada de florestas, nada de reservas indígenas, porque tudo que tem valor – inclusive gente – precisa demonstrar o seu valor passando pelo fogo no cadinho do mercado. Quem permanecer descoberto é porque nunca mereceu.

A última curiosidade é que as duas farsas sem complementam, e se existem tantos desamparados que o cidadão comum não tem como proteger (tendo de ser atendidos pelo estado) é porque o cidadão comum tem sua vida inteiramente sugada pelo mercado, não lhe restando espaço para pensar em outro interesse que não seja o seu. Não é de estranhar a criminalização de quem tem tempo para pensar em outra coisa.

Todo o choque e todo pavor, é claro, são para nos distrair de que nada se mostrará mais eficaz para enxugar o estado do que o mercado mínimo. Falemos disso em seguida, e continuamente.

 

 

Tuítes verdadeiros

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Não fale em crise, olhe fotos http://baciadasalmas.com/nao-fale-em-crise-olhe-fotos/ Wed, 18 May 2016 12:15:38 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3968 Feed me, Seymour

instagram.com/saobrabo/
flickr.com/photos/saobrabo/

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Três pontos http://baciadasalmas.com/tres-pontos/ Thu, 12 May 2016 16:33:14 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3961 Mas o que acho que pode ser dito, entretanto, é que, sendo chamado de golpe ou não, o que está em curso é um abuso da justiça; o uso seletivo e parcial da justiça e das leis para obter seus próprios fins. E a justiça pela metade, longe de ser meio caminho andado, é uma […]]]> Mas o que acho que pode ser dito, entretanto, é que, sendo chamado de golpe ou não, o que está em curso é um abuso da justiça; o uso seletivo e parcial da justiça e das leis para obter seus próprios fins. E a justiça pela metade, longe de ser meio caminho andado, é uma injustiça por inteiro […] Do mesmo modo, Henrique Alves, por exemplo, parece ter a convicção de que o que se pune no Brasil de hoje não é ser corrupto, mas estar ao lado do PT (e desmente, de uma tacada, a ideia de que foro privilegiado, por sua vez, possa ser algo que torne o detentor particularmente imune à condenação). Falando da Justiça como didática: não se está ensinando a não roubar, e sim a não ser, ou se aliar com, nada que pareça de esquerda. Se aplica à Lava Jato, se aplica às pedaladas fiscais; se pedaladas são ou não condenáveis como crime de responsabilidade é uma discussão jurídica complexa, creio que definitivamente pedaladas sejam uma conduta reprovável. Mas o importante é que o mesmo Congresso que pretende impedir Dilma pelas pedaladas, na mesma sessão, aliás com o expresso fim de iniciar o processo, aprovou as pedaladas de FHC e Lula. Deixando muito claro, mais uma vez, que o que se está punindo não são as pedaladas. Voltando à didática: deixando claro que roubar e pedalar são OK, para quem não é de esquerda; o efeito é o contrário da justiça.

Tiago de Thuin, em A semântica e a matemática do impeachment

 

Para os consequencialistas a retórica é outra. O que menos importa são seus motivos ou razões, se ela expressava anseios populares ou democráticos, se ela tinha um plano liberal ou neoliberal. Importa que sua gerência operacional não funcionou. Nós empobrecemos. O país está economicamente em colapso e socialmente em estado de insegurança. Temos então os melhores motivos para destituí-la, porque tudo aquilo que não está rendendo como deveria, deve ser substituído. Como qualquer outro trabalhador que não faz seu serviço direito, deve ser trocado. Seu governo é um desastre. Mas quanto tempo devemos esperar para afastar o próximo desastrado? Que exista uma lei que atende pela alcunha de “eleições e democracia”, isso exprime apenas uma intenção de nossos antepassados, uma indicação genérica do que devemos buscar em nosso desejo, não o que devemos praticar com nossos atos. Se ela não respeitou suas promessas, como Polinice não respeitou seu acordo com Etéocles, ela deve ser punida. Não é golpe nem vingança, pois as intenções estão afastadas, mas apenas uma troca de técnico em um time que não está ganhando.

Percebe-se quão fraco é o argumento dos consequencialistas se lhes retiramos o seu complemento obsceno. O direito pode afastar um presidente, mas a economia não. É preciso imputar-lhe a acusação de corrupta, mau caráter, condenando-a e a sua família (seus associados partidários) em nome de uma família melhor e maior: a nossa. Aqui a pergunta que se levanta contra os consequencialistas é: que consequência terá uma destituição processada desta maneira? Se pelo menos 30% das pessoas percebe esta reunião de intenções e efeitos como um golpe, não estará nosso futuro tragicamente comprometido?

Christian Dunker, em A tragédia ética da política

 

Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.

Acontece que, no meio de tudo isso e ao mesmo tempo, produzimos formas originais de inventar a vida onde amiúde só a morte poderia triunfar. Um Brasil forjado nas miudezas de sua gente, alumbrado pela subversão dos couros percutidos, capaz de transformar a chibata do feitor em baqueta que faz o atabaque chamar o mundo. Um Brasil produtor incessante de potência de vida, no arrepiado das horas e no chamado de uma pluralidade de deuses bonitos como as mulheres e os homens. A luta por esse segundo Brasil, ao meu juízo, não me enreda porque acho que ela será vitoriosa.

Luiz Antonio Simas, em Continuaremos

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A ponte para o futuro menor possível http://baciadasalmas.com/a-ponte-para-o-futuro-menor-possivel/ Mon, 09 May 2016 18:37:00 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3929   Escolhemos o câncer como o modelo do nosso sistema social. Ursula K. Le Guin   É inveja. Invejamos os protagonistas de séries como The Walking Dead e Mad Max porque a realidade deles é uma crise mais pura e depurada do que a nossa. O paradoxo do Apocalipse é que com a sua chegada […]]]>  

Escolhemos o câncer como o modelo do nosso sistema social.
Ursula K. Le Guin

 

É inveja.

Invejamos os protagonistas de séries como The Walking Dead e Mad Max porque a realidade deles é uma crise mais pura e depurada do que a nossa. O paradoxo do Apocalipse é que com a sua chegada a realidade se torna mais crítica, mas também mais simples e – numa infinidade de sentidos – menos exigente. Os habitantes do fim do mundo estão ao mesmo tempo vivos e livres de tudo que é acessório: não há condição que secretamente desejemos com maior intensidade, embora lutemos contra ela todos os dias.

E aparentemente não é que vamos ter de esperar muito. O sistema deste mundo – vamos chamá-lo de capitalismo por conveniência, mas neoliberalismo, fundamentalismo de mercado e abominação da desolação são termos teológicos igualmente precisos – quebrou o mundo, e não temos peça de reposição.

Não sei quantos modos vou encontrar de repetir: é surreal ver uma maioria equilibrada e fundamentada apontando desapaixonadamente que o fim está próximo, quando ao longo dos milênios o Apocalipse foi oferecido levianamente, de acordo com a demanda, por insensatos e fanáticos. Ignoro se alguém foi capaz de antecipar a reversão do atual cenário, em que os fanáticos, os levianos e os insensatos são aqueles que não estão sendo pessimistas o bastante.

Os fanáticos e levianos, naturalmente, são (e somos) os que permanecem defendendo e patrocinando o capitalismo no momento em que o capitalismo, achando desnecessário continuar a usar qualquer máscara, revelou-se a causa e a permissão secreta de todos os abismos, chagas e fraturas da presente era, do aquecimento global à falência das democracias.

George Monbiot chama o neoliberalismo de “doutrina zumbi” – uma ideologia que não há quem ignore ser ultrapassada, contagiosa e mortalmente inadequada para a presente condição do mundo, mas que continua avançando como se estivesse viva porque ninguém encontrou modo de conter a sua maldita inércia.

Para levantar o exemplo ao mesmo tempo mais banal e mais inescapável, hoje em dia não há gente sensata que ignore que as contas mais pessimistas a respeito do aquecimento global estão certas (é na verdade possível que as contas mais pessimistas estivessem por demais otimistas). 2015 foi o ano mais quente registrado nas eras dos homens, e 2016 começou já mais quente do que 2015. O aquecimento global é um exemplo útil em que não há como ignorar que este é só o começo das dores. O março mais tórrido das memórias das gentes é o emblema adequado das primeiras e ainda muito gentis cobranças de apenas uma das promissórias do capitalismo: uma dívida de que não começamos ainda a pagar sequer os juros, de que ignoramos o valor principal e que continuamos a ampliar como se houvesse amanhã.

O aquecimento do planeta e suas previstas (e impensáveis) consequências podem ser traçadas de volta ao capitalismo através de uma infinidade de rotas, da queima de combustíveis fósseis à conversão das diversidades amazônicas em pasto para gado de corte, mas está longe de ser a sua única culpa. Deus me perdoe, talvez não seja a sua culpa maior.

O dogma de que o mercado justifica toda causa em que põe a mão possibilitou, ao preço de tudo que achamos conveniente, horrores em escala planetária. A mera possibilidade de que Donald Trump se torne presidente dos Estados Unidos devemos a um mundo regido pela crença de que não há outro Deus além do mercado. Sem a ideia de que o mercado tudo justifica não haveria o desastre de Mariana, não haveria Belo Monte, não haveria o desmatamento da Amazônia, não haveria a farsa das soberanias nacionais anuladas pela realidade soberana das multinacionais, não haveria o vácuo lovecraftiano deixado por irrecuperáveis culturas e modos de fazer queimados na vala comum do desenvolvimentismo.

Foi em Viveiros de Castro que encontrei a noção genial de que o capitalista trata os seres humanos (e culturas) não-capitalistas do mesmo modo que o homem ocidental trata os animais e a natureza: com o mesmo senso arbitrário de superioridade, a mesma curiosidade superficial e canalha, a mesma ânsia de se definir como diferente, a mesma convicção de que tem o direito e a missão de explorar, de corrigir, de reconfigurar, de domesticar, de consumir, de rotular, de descartar, de tornar produtivo e de incorporar.

Isso quer dizer que o capitalismo – que você pode com igual imprecisão chamar de ocidente, de progresso, de desenvolvimento, de Anticristo e de Antibuda – avançou e avança [1] queimando o diferente, um diferente que [2] entende ter todo o direito de queimar.

Avanço, naturalmente, é a ideologia do capitalismo numa palavra. O capitalista vai dizer (e de fato acredita) que a lama no Rio Doce, o desmatamento da Amazônia, a acidificação dos oceanos e a torrefação do planeta são todos inconvenientes gerenciáveis num caminho que é justificado pelos seus avanços – avanços tecnológicos, científicos e (se o cabra for realmente cara de pau) sociais e políticos. Imperialista e militarista em sua origem, o uso da palavra não esconde (e portanto esconde) que avançar é essencialmente pisotear e destruir, e que não há nada “gerenciável” ou “sustentável” em continuar avançando como se fosse possível fazê-lo para sempre.

Tratando-se, como apontou Ursula K. Le Guin, da apropriação ideológica dos desejos e dos métodos do câncer (que não aspira a outra coisa, ele também, além de avançar), nenhum outro sistema de dominação mostrou-se mais eficaz e mais resistente do que o capitalismo – talvez porque nenhum estabeleceu para si projeto mais bombástico e justificativa mais pobre. O projeto do mercado, sua declaração de missão, é crescer sem pausa até sujeitar à produtividade cada centímetro, cada movimento e cada organismo do planeta, quem sabe do universo – como se a plena produtividade fosse algo possível e, muito mais sério, como se fosse algo desejável.

É claro que o sistema vai falir muito antes de alcançar esse pesadelo de escatologia realizada. É claro que um sistema que é um câncer vai se inviabilizar muito antes de ter incorporado tudo que gostaria, mas o que conta é que os avanços mais destruidores serão os últimos, aqueles que estão ainda por vir.

Mesmo fazendo água em todas as frentes, não é agora que o capitalismo vai flertar com a moderação. O mercado não vai ter vergonha de continuar operando com as suas fraturas publicamente expostas: a diferença é que agora tem muita pressa, mais do que jamais teve.

O sistema capturou no ar a conclusão de que é hora de um esforço concentrado. É preciso raspar o fundo do tacho da Terra antes que o acúmulo das inconveniências denunciem o fim da festa. As palavras de ordem são fazer-se de louco e acelerar. No Brasil, onde ao contrário de outros lugares da Terra temos quase tanta natureza para queimar quanto a que já queimamos, isso quer dizer ignorar de caso muito pensado os danos do desastre de Mariana e o risco muito real de desastres novos; quer dizer celebrar Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco como sucessos a serem multiplicados, em vez da Hiroshima e Nagasaki que são; quer dizer chamar de ponte para o futuro derrubar as provisões da lei que moderam o uso de selva e cerrado ancestral, com a intenção de sujeitar a terra a monoculturas como pasto e soja; quer dizer chamar o extrativismo de progresso e a morte de rios de desenvolvimento; quer dizer salvar bancos em vez de florestas; quer dizer priorizar o agronegócio e criminalizar modos de vida não-predatórios; quer dizer dar a tudo que é destruição o nome de avanço.

Em particular, aqui mas em todo lugar do mundo, quer dizer eliminar a competição.

O capitalismo é singular em sua capacidade de incorporar os seus críticos e no fato de, estando baseado na competição, beneficiar-se da existência de competidores em vez de perder com a presença deles. Isso quer dizer que num sentido importante o capitalismo não tem competidores e não tem cura. O único modo de vencer o capitalismo é/seria/permanece ignorá-lo em vez de combatê-lo, mas essa sorte de descolonização é tremendamente difícil de efetuar na vida real. O capitalismo se beneficia do fato de que é fácil ensinar as pessoas a desejar, é difícil ensiná-las a deixar de desejar.

A única verdadeira competição que o capitalismo enfrenta, portanto, é da parte dos que decidiram que não precisam dele, ou decidiram que dele precisam minimamente: índios, sertanejos, ribeirinhos, caiçaras, quilombolas, caipiras, beiraqueras, preguiçosos, saltimbancos, subsistentes, maloqueiros, encantados, maltrapilhos, desalinhados, hobbits: gente da rua, da beira da estrada, da orla do rio e do pé da serra. Esses homens e mulheres, que ousam desejar outra coisa – qualquer outra coisa, – representam uma verdadeira ameaça ao capitalismo no simples fato de existirem. O discurso do capitalismo é onipresente e para todos os efeitos todo-poderoso, mas o modo de vida de gente livre e autônoma pode, incrivelmente, ainda mais: pode até “servir” para descolonizar gente cativa da sua servidão.

É por isso que nos estertores do sistema os senhores do mercado estão fazendo um esforço muito deliberado no sentido de barrar, desativar, desarmar, conter, criminalizar, cercear, conter e eliminar essa sorte de competição: a competição de quem para o capitalismo ousa estar se lixando. Viveiros de Castro vai alertar sobre a última ofensiva do mercado/agronegócio contra os índios e indígenas, mas a mesma sorte de cerco e desativação sistemática estão sofrendo todos os marginalizados deste mundo 1Marginal, naturalmente, é uma invenção e uma ideologia, um discurso útil na criminalização de quem ousa querer ser deixado em paz..

Os rumores dessa guerra não vão, naturalmente, chegar até os seus ouvidos. Em parte porque ela se desenrola nas margens, e eu e você somos o tipo de gente que ninguém barra na entrada do shopping. Também porque as vozes dos meios de comunicação, como não poderia deixar de ser, operam sob o cabresto dos interesses do mercado, e despejam incessantemente em favor dele ruído útil.

O ruído é incessante porque tem por tarefa convencer você de que o Estado é corrupto porque se deixa vender, o mercado a coisa mais pura porque toma a iniciativa de comprar. O ruído vai tentar convencer você de que o problema singular do Brasil (que nos destaca vergonhosamente no cenário mundial e entrava todos os nossos sucessos) é a corrupção, quando a corrupção é inerente ao sistema no mundo todo e o problema singular do Brasil é a desigualdade na distribuição de renda, que está entre as dez maiores do mundo. O ruído vai tentar convencer você de que no Brasil há muita desigualdade porque há pouco capitalismo, no preciso momento em que o mundo inteiro se obriga a reconhecer que o capitalismo acentua todas as desigualdades em vez de gradualmente atenuá-las.

Em particular, o ruído vai tentar convencer você de que é tarefa importante e factível aumentar a esfera do mercado e diminuir a esfera do Estado, como se mercado e política não tivessem uma relação de mútua dependência desde as origens.

O que deveríamos estar urgentemente discutindo e projetando (com a ajuda dos índios, maltrapilhos e desalinhados que criminalizamos porque dominam esse modo de vida) é uma vida inteira e um mercado mínimo.

Porque impensável é a alternativa; impensável é não pensar nisso. O mercado mínimo é a estreitíssima ponte para o menos injusto, o menos letal, o mais gentil dos futuros possíveis.

Notas   [ + ]

1. Marginal, naturalmente, é uma invenção e uma ideologia, um discurso útil na criminalização de quem ousa querer ser deixado em paz.
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Caução http://baciadasalmas.com/caucao/ Wed, 04 May 2016 22:44:10 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3919 – Só os bons conhecem o ressentimento – disse o questor Quintino, – porque só para os bons o mundo é como não deveria ser. Os maus não têm ilusões, não sabem o que é ressentir-se de coisa qualquer. – Ah, sim? – disse José Fabro. – Certo, é como eu digo a vossia. Para […]]]> – Só os bons conhecem o ressentimento – disse o questor Quintino, – porque só para os bons o mundo é como não deveria ser. Os maus não têm ilusões, não sabem o que é ressentir-se de coisa qualquer.

– Ah, sim? – disse José Fabro.

– Certo, é como eu digo a vossia. Para os bons o mundo é uma eterna frustração, em que tudo ao seu redor recusa-se a moldar-se às suas expectativas de justiça. Para os canalhas o mundo é a coisa única que poderia ser, não? A celeuma universal diante da injustiça universal. Estúpido seria crer que pode ser reformado em alguma medida.

– O mundo se recusa antes de tudo – disse o mestre de obras – a deixar-se dividir entre maus e bons.

– Não, agora? Vossia por exemplo é um homem bom, e essa vai ser sem sombra de dúvida a sua ruína. Eu sou um calhorda e recolho diariamente os prêmios dessa condição. Em compensação o meu coração é mais puro do que o seu, porque não alberga a mágoa do ressentimento. O homem maduro é o homem resignado.

– Vossia se ressente e muito – disse José – do que interpreta ser a minha bondade. Isso quando não dei nunca indicação qualseja de ser menos desprezível do que outro qualquer.

– Nenhuma indicação, a não ser um modo de vida projetado para ser intolerável. Basta olhar para os seus pés descalços para entender o projeto seu de reformar o mundo que despreza.

– O que desprezo no mundo todo – disse José Fabro, e reclinou-se contra a parede da varanda – é o que nele luta para que todo o mundo seja uniforme. Diz vossia que os maus não têm ilusões, e mais enganado não poderia estar. Os que vossia chama de maus acreditam mas é tanto no valor da autoridade, no valor do dinheiro, no valor do poder. Acreditam que há valor em possuir, que há valor em acumular, que há valor em usar sapatos que custam quanto uma rês. Numa palavra, ilusões.

– Porque vossia o santo vai dizer que essas coisas valor não têm. O mundo está errado e vossia não.

– O que estou dizendo é que os que o mundo chama de maus acreditam nas mesmas coisas em que acreditam os que o mundo chama de bons. Dão valor às mesma precisas, escarradas coisas. Iludidos todos estão, pelo que não faz sentido fazer a distinção.

– É por isso que vossia presta o mesmo tratamento a santos e cafajestes? Porque merecem a mesma punição?

– Ou a mesma recompensa – disse José Fabro. – O mundo em que há quem deseje outra coisa para alguns é recompensa, para outros punição.

– E vossia o que deseja, no fim?

– No fim – disse José Fabro – desejo o que oferecido nunca me foi.

O questor bebeu um gole do vinho que tinha trazido, e da mão que segurava o copo deixou erguidos dois dedos para emoldurar o que tinha a dizer.

– Seguro que posso lhe oferecer, mestre José, uma centena de coisas que nunca aconteceram de lhe oferecer. Uma meia dúzia das quais pelo menos muito escandalosa.

– E basta oferecer pra que eu deixe de desejar, não vê.

– Ah – o questor riu sem entusiasmo quando entendeu. – Por ora então eu o proíbo de beber o vinho que eu trouxe sem intenção qualquer de lhe oferecer.

José serviu-se de vinho.

– Nunca vi vossia tão irritado – disse o mestre de obras – para deixar-se gastar tanto tempo com esses nossos preâmbulos.

– Vossia tem razão. Estou hoje me odiando e querendo me deixar queimar. E vossia quer melhor companhia que mestre José pra quem quer se fazer mal.

– E por causa de coisa foi esse desprezo particular?

O questor levou a mão à boca para esconder um sorriso e uma engasgada de surpresa.

– Meu rei, dissimulado vossia nunca foi e não sabe fazer. Estou irritado, claro, porque o que fui mandado pra fazer vossia vai tornar impossível.

– Isso dizer não precisava – disse o mestre de obras. – Pergunto por que motivo o senhor questor iria querer não se demorar aqui, quando não há quem ignore a paixão que nutre por mim… e pela comida que os que estão comigo colocam na sua frente. Desse jeito me constrange a imaginar que está perdendo alguma coisa de enorme grande na capital.

– Ah, Fabro José, não me pergunte do que está acontecendo na capital. Basta dizer que se vossia soubesse iria apagar esse sorriso bonito da sua barba. Basta dizer que as seguranças dessa gente… ah, vamos deixar perder.

– Iludida está a capital se acha que provê alguma das seguranças que esta gente tem.

– Soubesse vossia tudo que a capital está prestes a tirar deste lugar.

– Soubesse vossia quanto é pequeno quem se acha grande pelo que pode tirar.

– Soubesse vossia o quanto o mundo está se lixando para o que José Fabro acha grande. A propósito, vou lhe dar permissão para me dizer o quanto me despreza pelo que vim fazer. Vai.

– Posso?

– Vai.

José Fabro depositou o copo sobre a mesinha sem experimentar. Ele sabia que era importante para o outro ver sua reação à qualidade do vinho, e sabia ao mesmo tempo que o questor esperava ser irritado quanto possível e convinha fazer-lhe essa homenagem.

– Eu não lhe teria por desprezo – Fabro disse, – ainda se fosse o caso que vossia fosse capaz de ver feito o que veio fazer.

– Sabe que vossia me ofende um pouco, mestre José, quando dá a entender que o homem que vossia está protegendo vai ter uma vida mais fácil sob os seus cuidados do que sob os meus.

– Pode ser que eu saiba e pode ser que não do que vossia está falando, mas se é pra embrenhar, vossia quer prender e deportar o sujeito.

– E vossia acha menos cruel e mais natural que ele passe o resto da vida fugindo.

– Se na sua boca fugindo quer dizer procurando diariamente ser deixado em paz, sou culpado eu José Fabro antes dele.

– Vossia é meio imigrante mas não é ilegal – disse o questor, batendo na lateral do copo com o dedo cheio de anéis. – De que vossia é culpado encontro sem sair desta cadeira duas ou três testemunhas, mas a lei pode ser torcida para deixá-lo em paz. Não é o caso do seu amigo.

José Fabro recolheu da mesa o copo e bebeu um gole. Um gole grande.

– Estou aqui calculando quantas garrafas de vinho vamos contar – disse o mestre de obras – até que vossia me faça convencer de que faz sentido chamar de legal a fantasia do Estado que o senhor representa. E do outro lado que faz sentido chamar de ilegal um ser humano cujo sangue como o nosso só não derrama porque está embrulhado na mesma pele. A pressa é sua.

– Estou instruído, e instruiu-me vossia obrigado, a não me deixar aperrear pelas suas armadilhas – disse o questor. – Não me toca convencer ninguém debaixo da lei da legalidade da lei. Agora, o Estado é uma teia, pressa não tem. Nem mesmo sua santidade descalça ignora que o seu amigo não vai conseguir viver indefinidamente sem acabar tocando em algum fio. Em algum momento o imigrante ilegal vai tropeçar no Estado: ter o braço apanhado em alguma barreira, responder ao olho de alguma autoridade, recorrer a algum serviço público: a lei todo mundo alcança.

– Não se ele viver como eu, não vai.

– Pelo amor do beleguim, não me faça saber por favor quanto ilegal é a sua vida neste momento, mestre José, que é certo que vão me fazer ainda um dia de testemunhar contra vossia no tribunal. Não me deixe nunca, não me deixe saber.

– A inocência diante da lei depende menos do tamanho da culpa do que do tamanho do escrutínio – disse o mestre de obras, – mas o que vossia chama justiça, fosse capaz de deliberar com justiça, diria que ao Estado não devo nada. Mas também nunca paguei.

– Diezin, esqueço sempre que vossia em dinheiro não toca. Mas ainda que todas essas suas obras sejam acordadas como escambo, vossia sabe que é coisa controversa a questão de se incidem ou não impostos sobre permutas, ainda que sejam de serviços.

– Nada que faço fica acordado em base de troca, isso de experiência vossia sabe.

– E a comida lhe aparece na mesa por mágica, a vossia e seus aprendizes.

– Feitiçaria não maior do que a aparição agora deste vinho bom. Ou do peixe assado que vossia fez há pouco desaparecer.

– Eu só odeio gente pobre quando acontece de comerem melhor do que reis – disse o questor. – Não é admirar o quanto odeio os pobres desta terra.

– O que trabalha de lembrete de que esta terra que não é sua acolheu até mesmo um picareta como eu. E vossia.

– Esta terra limada é meu exílio, Fabro, não como vossia minha escolha. Romantizemos mas só quanto baste. O que estou lhe dizendo com toda delicadeza é me entregue por amor à sua consciência o sujeito. O Estado quando apanhar o homem vai ser delicado com ele muito menos do que estou disposto a me mostrar agora.

– Homem nenhum é meu para dar – disse José. – Muito menos um que o Estado poderia querer para si.

O questor mexeu-se no lugar e desviou os olhos para o vale, pela primeira vez demonstrando alguma verdadeira irritação.

– Seu problema – ele disse – é achar como certa para os outros a liberdade que é muito precária sendo sua. Vossia não é estúpido de não saber que um soluço do Estado e todas as liberdades que vossia toma como suas lhe são tomadas por quem as dá.

– O Estado não me dá porra nenhuma – disse José Fabro, – muito menos alguma liberdade. Com o perdão da palavra Estado.

– E vossia que pede justiça para os pobres quer ver diluído ainda mais o pouco que lhes toca? Quer ver adicionados ao caldo da escassez universal imigrantes que nem para esse não muito contribuíram.

– Primeira coisa – José Fabro completou o seu copo e depois o do outro homem, – vossia nunca viu e não vai me ver pedindo justiça para os pobres. Havendo quem precise de justiça são os ricos, que vivem sem quem os chame para fora da servidão.

– Os ricos são escravos e os pobres livres, agora? Eu pedi que romantizássemos quanto baste.

– Os pobres não existem e nunca existiram, meu caro questor. Os pobres são uma fantasia, uma invenção, uma ferramenta; são uma ideologia dos que dão a si mesmos a liminar de ricos.

O questor levantou as sobrancelhas.

– Vossia mestre José decerto não ignora – ele disse – que depois de um dado tempo o seu pensamento deixa de ser pitoresco e brilhante e passa a ser incompreensível.

– Nunca foi minha ideia deixar alguma coisa clara, mas obrigado. E quanto aos imigrantes, o Estado deveria celebrá-los pelo que são: o contrário de inimigos. Imigrantes são gente que por qualquer motivo incompreensível não nos odeia, e cometem a impertinência de demonstrar.

– Gafanhotos também não odeiam a plantação – sorriu o questor, contente por ter achado como rebater o outro com uma palavra forte. – E vossia está de propósito ignorando o fato de que de dez mil imigrantes que não nos odeiam basta que deixemos entrar um, basta um, que nos despreze. Esse um pode nos destruir através justamente das liberdades que dez mil vieram entre nós encontrar.

– Vossia diz que a farsa da ideia de nação vale à pena ser mantida pela simetria de que há quem acredite numa farsa similar? A mia vossia não tem como convencer. E não me venha dizer que já não temos entre nós quem nos possa destruir. Não é também por acaso que os daqui que tem força para destruir fazem parte do embuste útil que é o Estado seu.

– A diferença, sinto dizer, está pura e simples na legalidade. O seu mais caro imigrante essa legalidade não tem.

– Não me perdoe vossia, mas um indivíduo não tem como ser coisa mais ilegítima e ficção maior do que uma nação.

– Diezin, José Fabro, fica difícil dialogar com quem tem por projeto acreditar em coisa nenhuma.

– Não tenho projeto outro além de não me deixar arrastar pelo seu.

– E eu, meu rei – disse o questor, – não tenho infelizmente como discordar simetricamente de vossia pelo tempo que iriam requerer a minha pança e a boa literatura da minha possível autobiografia. Vou ter de preencher as partes que faltam sem a participação de vossia, vou ter.

– Vossia vai me escrever maior do que mereço, isso não há quem não saiba.

O questor limpou com um recorte de pão o último suco do prato, limpou os dedos na madeira da mesa, recolheu o seu copo e pôs-se de pé.

– Vossia está então cem por cento seguro de que não vai me dar o imigrante ilegal e possível terrorista que está abrigando? – o enviado da capital esvaziou e devolveu à mesinha o seu copo. – Vai me obrigar a entregar na mesa dos meus superiores mais uma insubordinação e um revés com a assinatura de José Fabro? Quanto tempo vossia acha que essa cadeia pode continuar sem que me peçam a sua cabeça? Ou pior, sem que concluam que estou eu mancomunado com vossia? Estou disposto a arriscar não pouca coisa por amor ao espetáculo, mas entre a cabeça sua e a minha não vou pedir tempo para pensar qualseja.

– Uma vez no mercado de rua de Soapé – disse José Fabro, fazendo sinal para que o outro voltasse a sentar – vi um rapaz comprando rabanetes. Eu tinha um encontro marcado junto do relógio dali a uma hora, pelo que gastava tempo caminhando pelo mercado o mais devagar que podia. Quando vi o rapaz em pé diante da banquinha ele já estava pagando a compra que tinha feito, as duas mãos erguidas junto do rosto, como se não enxergasse bem. Com a mão direita ele apertava o maço de rabanetes e um saco de pano cru com dentro as outras verduras que já tinha comprado; com o indicador e o polegar livres ele contava e revirava uma ventina de moedas, todas de pouco valor, na palma da mão esquerda. Teria pouco mais de vinte anos, mas era mais alto e mais gordo do que alguém tão jovem pode ser neste mundo para viver sendo deixado em paz. Tinha uma barba dourada formidável, cabelos ralos e um rosto bonito infinitamente bom e infinitamente triste. Vossia não vai tirar de mim porque esse menino me chamou a atenção. Decerto eu não esperava encontrar no centro mais ruidoso do mercado uma viela tão deserta e tão quieta. Dez ou doze barraquinhas de batatas e outras raízes cobertas de pó escuro definiam aquele braço de rua, mas ninguém estava ali para vender. Só no centro a vendedora de rabanetes, que era jovem e enrugada e queimada de sol e tinha um feitio de esfinge e esperava com as mãos juntas assim na frente do corpo, sem dar qualquer sinal de pressa ou de cobrança. E o rapaz que pinçava as moedinhas da mão para pagar, e talvez tenha sido também isso: o tempo foi se acumulando e o rapaz parecia não encontrar as moedinhas certas ou que bastassem. De vez em quando ele apertava com o dedo uma moeda sobre a caixa de madeira diante da vendedora, mas no mais do tempo procurava na superfície da mão a conta certa, os gestos cada vez mais pesados de obstinação e embaraço, até que o rubor do rosto dele chegou ao meu que observava. Então algo extraordinário aconteceu: uma das moedinhas escorreu da borda da mão do rapaz e a poeira do chão acolheu sem ruído a sua queda. Ele não se abaixou para recolher a moeda e continuou o que estava fazendo, mas naquela altura o universo já havia se rasgado na minha frente e a minha alma estava destelhada e a minha nudez completa. O que aconteceu foi que o rapaz terminou de pagar, ajeitou os rabanetes dentro do saco de pano e foi embora gingando nos quadris muito largos, foi embora deixando no chão o dinheiro onde ele tinha caído. Fiquei sem saber se ele não recolheu a moeda porque não a viu cair, se porque ficou com vergonha de se abaixar para recolher uma ninharia ou porque se achava gordo ou míope demais para recolher a moedinha do chão sem chamar a atenção pela deselegância.

O questor estava sentado nos degrauzinhos da varanda e ouvia a história com os pulsos apoiados nos joelhos. A dureza do rosto dele aqueles dez minutos tinham drenado.

– Vossia naturalmente apanhou a moedinha do chão e deu de volta ao rapaz – ele disse.

– É o caso que não – disse José Fabro. – Eu estava paralisado e paralisado fiquei. Só voltei a respirar quando a vendedora por alguma razão virou o rosto e me olhou nos olhos e me ofereceu um olhar de pura curiosidade, livre de todo desprezo e de toda condenação. Contornei o olhar da mulher e contornei a moeda caída no pó e segui na direção que tinha tomado o rapaz, mas a multidão já o tinha requerido para si. Nunca mais vi o sujeito. Nunca trocamos uma palavra.

– Vossia é José Fabro, cacete – o questor deu ênfase a cada palavra. – Nunca vi vossia paralisado por coisa nenhuma, e não consigo ver.

– O universo sabe muito bem como desarmar o cabra, meu caro. Se alguém, quem quer que fosse, tivesse ousado diminuir ou constranger aquele rapaz na minha frente, teria sido o alvo infeliz de toda a joséfabrice desse mundo. Até o osso eu teria limado o miserável. Mas ali quem estava constrangendo o menino era o universo, e isso me paralisou. Isso me destelhou. O que senti muito claro é que nada que eu pudesse fazer teria força para tornar a vida daquele guri menos dura e menos injusta. Nada que eu pudesse fazer bastaria para tirar de cima dele o manto de indignidade que não era seu e que não é de ninguém mas o mundo lhe havia colocado nas costas.

O questor baixou os olhos.

– E vossia me contou essa história para me amolecer daquilo que o mundo me trouxe aqui para fazer.

– Conto sim porque essa foi das duas ou três vezes em que o universo se mostrou sem pudor na minha frente, não fazendo questão de esconder engrenagem qualseja do seu moinho. Dentre as coisas que entendi naquele momento, sabe vossia qual a diferença entre aquele rapaz e o meu filho? Nenhuma. Rigorosamente, matematicamente, nenhuma. Eles inclusive se parecem. Sabe vossia a diferença entre aquele menino e eu mesmo, entre aquele garoto e cada mulher ou homem que vivem debaixo de algum peso arbitrário que lhes deixaram por herança outros homens e mulheres? Nenhuma. Diezin, o absurdo daquilo tudo, trocar comida por círculos de metal.

– O que vossia podia ter feito pelo rapaz, José Fabro? Deixe essa história em paz. Deixe o menino em paz, que é essa só a dignidade que vossia pode lhe dar.

– Por aquele menino eu podia ter lhe defendido dos ataques que vão querer drenar-lhe a ternura.

– Vossia podia quando muito ter ensinado ele a lutar.

O mestre de obras apertou os lábios.

– Vossia não ainda entendeu, meu caro corréu, que é preciso desarmar os armados em vez de ensinar os indefesos a lutar?

O questor suspirou.

– Pode-se dizer – ele disse – que este hoje é o primeiro dia em que José Fabro me decepcionou: a primeira ocasião em que a mia vossia pareceu mais iludido do que lúcido. Ensinar os indefesos a lutar é uma quimera enorme, meu amigo, mas está ainda dentro do possível. Já os armados só se deixam desarmar por quem chegar empunhando arma maior.

– Arma maior deve haver.

– Sua arma não pode ser só a sua língua, José Fabro. Nem ela vai conseguir salvar o mundo.

– Concordo plenamente.

– Ficamos assim, então – o questor pôs-se de pé e limpou as mãos uma na outra. – Vou embora deixando vossia acreditar que comprou com a moeda da sua história a liberdade de um homem que não merece a sua proteção, um homem que se não erro a sua proteção nem chegou a pedir?

– Nada paga por coisa nenhuma, senhor questor, mas deixemos como caução entre eu e vossia aquela moeda caída na poeira do mercado de Soapé. Quem dentre nós tiver maior necessidade ou mais impaciência que trate de lhe testar a liquidez. O que vossia por certo desconfiou e com fundamento é que o homem que vossia procura nunca esteve longe; foi naturalmente ele quem preparou o peixe que meu filho pequeno colocou na sua frente.

O homem da capital trouxe à superfície o melhor sorriso que encontrou à mão naquela dia, naquela hora da tarde. Sua escolta foi se fechando atrás dele à medida em que ganhava distância da casa e da orla do vilarejo.

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Ironicamente http://baciadasalmas.com/ironicamente/ Tue, 26 Apr 2016 17:45:29 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3913

Ironicamente, quanto mais propagamos gestos espontâneos, despretensiosos, naturais, puros ou sinceros, mais sintéticos, autoconscientes, simulados ou fingidos nos tornamos.

Wilson Ferreira, escrevendo sobre coisas estranhas e familiaríssimas (não mais estranhas do que o Facebook ou o Instagram) no Monastério da Cinegnose.

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Para desenhar um círculo http://baciadasalmas.com/para-desenhar-um-circulo/ Mon, 04 Apr 2016 08:14:40 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3895 No décimo-sexto volume de Vidae zu santi della Brasilicata de Giuseppe di Anscietta está escrito que São Coro de Minância tinha uma espada que só levantava para deter os que o admiravam. “De todas as missões que Deus outorgou a cada homem, a maior e mais urgente é dissuadir qualquer outro homem de segui-lo (Oração à treva que precede a aurora, XII, V)”.

Está dito que São Coro só achava interessantes os pecadores, só encontrava prazer na presença dos que o tomavam por pessoa comum e temia e detestava como o diabo os que o admiravam. “Não há volume da Biblioteca Infernal que não trate da arte de expressar admiração […] Só quem crê em si mesmo mais do que em mim tem o direito de me seguir”.

Todas as noites era acordado em plena madrugada, com um tapa ou com um beijo, por um de seus discípulos, sendo que enquanto dormia um sorteio determinava o discípulo e a modalidade de despertar que lhe caberia naquela noite. Segundo Munhaça de Bê, a função dessa disciplina era ensinar que o homem nunca sabe quando será encontrado pela morte ou pelo amor (não havendo outro registro ou testemunho contemporâneo, a tradição tratou de determinar que o beijo representava a morte e o tapa o amor).

Uma vez despertado, São Coro vestia sua rede e caminhava pelo mundo até o amanhecer, sendo que não havia outra coisa que amasse mais do que a madrugada. A Munhaça contou que tinha sido a madrugada a convencê-lo da existência da divindade: “se tivessem me falado, se eu não tivesse visto com os olhos e experimentado com o coração, a madrugada teria me soado coisa mais inacreditável do que Deus.”

Na opinião do santo de Minância, Deus criou a madrugada para que todo homem pudesse, querendo, caminhar pelo mundo e experimentar o mundo como o experimenta Deus. A noite é o mundo avesso (e portanto direito) em que todos se dobram, em que todos comungam: em que dormem abraçados, sem saber, amigos e inimigos, santos e pecadores, vítimas e algozes. A madrugada é um mundo de plena graça em que os homens apenas existem, livres de rótulos e de destinos, de compromissos e de posses, de méritos e deméritos, de títulos e de papéis a desempenhar.

Dos ditados atribuídos ao santo, nenhum é mais frequente do que este: “Avançando sempre, um homem pode desenhar sobre a terra um círculo; para desenhar uma cruz é preciso voltar atrás”.

 

Este relato foi postado na Forja Universal em 18 de abril de 2013

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Os desejos do golpe http://baciadasalmas.com/os-desejos-do-golpe/ Thu, 31 Mar 2016 10:54:58 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3883 Declaro esse texto do Diego Viana a coisa mais bonita, generosa e equilibrada que li em não sei quanto tempo. É na porta do tribunal que Sócrates, o eterno impertinente, convida todas as partes a ponderar o que está por trás das palavras que estão defendendo.

Para além desse caso específico, já podemos ver que, na arquitetura da visão de mundo petista, a noção do golpe ocupa uma posição basilar. Essa centralidade decorre de um certo poder purgativo, até mesmo redentor, que ela detém. Necessariamente alguém que foi vítima de um golpe, de uma remoção forçada, de um conluio, é alguém gostável.

Por isso, o desejo de golpe, no caso petista, opera bem assim: sem a perspectiva de ser golpeado, o que é o governo Dilma? É um governo de apoio ao latifúndio (com seus corolários, o agrotóxico, o genocídio indígena, a dominação semi-coronelista da política em nível local), e ao extrativismo (está aí o Rio Doce que não me deixa mentir, mas o que dizer dos projetos de exportação de minério de Eike Batista? – aliás, lembra dele?), sem falar no flerte descarado com fundamentalistas religiosos cujo maior interesse não está na salvação da alma de ninguém.

Ou seja, um governo que, em nome de um desenvolvimentismo que não desenvolve coisa nenhuma, se coloca em aliança bastante incestuosa com o capitalismo mais clientelista. Ou seja, torna-se intermediário e fiador de uma brutal acumulação primitiva, fazendo da população e dos trabalhadores que lhe emprestam o nome a matéria-prima para um regime ao mesmo tempo rentista e especulativo.

No entanto, o petista alarmado com a chegada do golpe (alarmado, ou seja, motivado, mobilizado, eletrizado) continua a ver o atual governo como baluarte da esquerda brasileira contra o avanço das tropas fascistas. Como isso é possível? Certamente não é olhando para o próprio governo. Não é pela negociação de cargos no varejo, pela construção de Belo Monte, pela escolha de ministros, pela orientação das empresas estatais.

E se você acha que Viana está defendendo o impeachment, você não ouviu a metade – a outra metade. Leia o texto na íntegra aqui.

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Sobre o manejo eficaz da culpa econômica http://baciadasalmas.com/sobre-o-manejo-eficaz-da-culpa-economica/ Wed, 30 Mar 2016 10:25:09 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3859 Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo. Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara. Ah, se estávamos errados. Fascismo, […]]]> Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo.

Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara.

Ah, se estávamos errados. Fascismo, só para tirar a sua dúvida, é quando mães são agredidas porque seus bebês estão usando roupas da cor errada. Não deve haver dúvida: quando parte que seja da população acredita poder determinar quem tem razão através de um código de cores, o tecido social está já bem rompidinho.

Outra indicação da vitória do fascismo: palavras são usadas como imagens, de modo a tornar impossível o diálogo e a conciliação.

No exercício de reavaliar a minha ingenuidade e a dos meus amigos, nada se mostrou mais útil do que uma leitura a que me conduziu o impenitente e pacientíssimo Jung Mo Sung, teólogo mas pessoa formidável.

Para entender o fervor dos presentes rancores, me disse Mo Sung, é preciso levar em conta que o mundo, não apenas o Brasil, está passando pelas dores da transição entre dois mitos, dois modos de articular o capitalismo: a transição do mito do desenvolvimento para o mito do livre mercado.

Nos últimos sessenta anos (inclusive debaixo dos mandatos do PT) o Brasil operou debaixo do mito do desenvolvimento. Segundo a sua promessa, a industrialização e o crescimento econômico acabariam produzindo a equidade social. Se os países designados como subdesenvolvidos se rendessem às diretrizes desenvolvimentistas do capitalismo, um dia o padrão de consumo dos países ricos seria estendido a todas as áreas do globo: Quixeramobim com o padrão de vida de Paris, Bogotá como Manhattan, o Congo como o Japão.

A promessa da universalização do padrão de consumo fez com que indivíduos e sociedades aceitassem enormes sacrifícios: culturas tradicionais e modos de ser e de fazer foram queimados no forno do qual deveria sair um mundo melhor, um mundo finalmente justo. Lavradores foram usar gravata na cidade, rios foram transplantados, ritos e saberes esquecidos, comunidades abandonadas, florestas aplainadas em pasto e estacionamento, tradições de mil anos trocadas por um colar de mil contas.

Se conseguiu convencer o mundo todo, foi porque o mito do desenvolvimento partia de uma premissa equalizadora, a ideia de que todo ser humano tem o direito e a vocação natural de beneficiar-se dos frutos do crescimento econômico. Sua narrativa parte do pressuposto de que a desigualdade socioeconômica não é nem justa nem inevitável, e prometia que a desigualdade dos países subdesenvolvidos podia ser corrigida pela sua simples inclusão no projeto do desenvolvimento. Seu mundo ideal é o futuro da série Jornada das Estrelas – um mundo quase comunista em que, premiados pela expansão econômica e pela inclusão no mercado, todos podem desfrutar de um mesmo patamar de consumo.

Trata-se, naturalmente, de uma promessa sem fundamento, uma cenoura ideológica projetada para que as sociedades do mundo se deixassem queimar. O milênio não tinha ainda virado e estava evidente já que o mito do desenvolvimento, fundado no mito intolerável do subdesenvolvimento, acentuava as desigualdades do mundo em vez de gradualmente eliminá-las.

Foi nesse cenário de tensões subterrâneas que, silenciosamente, o capitalismo transferiu o seu mito condutor do desenvolvimento para o livre mercado. O liberalismo do bem comum dos democratas norte-americanos cedeu lugar ao neoliberalismo individualista de Ludwig von Mises.

O neoliberalismo está engatado ao mito do livre mercado, a ideia de que o mercado só funciona de maneira ótima – só distribui justiça – quando livre de intervenções governamentais. Os neoliberais vão insistir num estado mínimo e num mercado grande e soberano, incentivando as privatizações e desencorajando qualquer medida de distribuição de renda.

Esse último ponto é importante. Para os neoliberais, o Estado é um entrave e um juiz parcial que impede o justo funcionamento do mercado. Segundo a sua lógica, o Estado erra gravemente quando procura indiretamente regulamentar ou amansar o mercado, mas erra ainda mais quando interfere diretamente, promovendo a distribuição de renda às populações mais pobres através de políticas sociais como o Bolsa-Família. Para os neoliberais, quando o Estado procura ser imparcial, distribuindo riqueza a todos, está na verdade sendo parcial – porque a justiça só é feita quando o mercado funciona livre de quaisquer intervenções.

Tudo isso mais ou menos eu sabia. O que Jung Mo Sung pediu que eu atentasse foi para o fato de que embora ambos sejam iterações de um mesmo capitalismo picareta, o mito do livre mercado difere do mito anterior num pressuposto fundamental.

O mito do desenvolvimento pressupunha que todos os seres humanos têm o direito natural (e o destino natural) de se beneficiar das mais elevadas (entre aspas) conquistas socioeconômicas. Um mundo equalizado como o de Jornada nas Estrelas, em que a pobreza foi eliminada e todos os cidadãos desfrutam de um padrão de consumo similar, era o seu projeto e a sua promessa.

Para o mito do livre mercado, como articulado por von Mises, tudo que o mercado faz, e apenas o que o mercado faz, é legítimo. Como tudo que o governo faz interfere no mercado, o governo tende à ilegitimidade – e deve por isso ser reduzido a um mínimo, com uma mínima capacidade de interferência nas regras ou no resultado do jogo da riqueza.

Resulta que para os neoliberais, e aqui está a diferença fundamental, os seres humanos não têm qualquer direito natural a desfrutar de bens materiais. Quem decide quem tem direito a que é apenas o mercado. Se você tem alguma coisa é porque o mercado entendeu que você merece; se não tem, é porque ele viu que você não merece. Não há outro Deus além do mercado, não há outro juiz e não há outra justiça.

O neoliberalismo é o fundamentalismo do livre mercado. Na sua lógica, nenhuma distribuição de riqueza não efetuada pelo mercado e nenhuma equalização econômica efetuada pelo governo é “justa” ou “natural”. Nessa manobra os neoliberais rejeitam as noções de “divida social” e “justiça social” que estavam mais ou menos embutidas no mito do desenvolvimento. Na visão neoliberal, medidas que tiram dos ricos para dar aos pobres são não apenas roubo, mas a forma mais fulgurante de injustiça, porque interferem diretamente naquilo que ninguém deveria ser capaz de tocar: a soberania do livre mercado.

O que von Mises está de fato sustentando é que o mundo nunca vai ser equalizado em termos socioeconômicos, e que para permanecer justo não deve chegar a ser. Não só os milionários sempre existirão, mas ninguém – nem os ricos, nem as elites, nem o Estado – deve sentir-se responsável pela condição dos pobres. “A igualdade frente a lei dá a você o poder de desafiar cada milionário. Em um mercado não sabotado por restrições impostas por governos, a culpa é exclusivamente sua se você não supera o rei do chocolate, o astro de cinema e o campeão de boxe” – e sim, este é von Mises falando.

Que estamos falando de religião fica claro pela maneira com que von Mises articula a coisa em termos de culpa. Se você acontece de ser pobre, afirma o fundamentalismo de mercado, a culpa não é dos ricos, não é da sociedade, não é do governo: a culpa pela sua pobreza é exclusivamente sua.

Aqui von Mises (o mesmo que acreditava que Jesus não tem nada a ensinar ao mundo sobre moralidade, e dizia – com razão! – que o cristianismo é incompatível com o capitalismo) propõe uma reversão da culpa que é moralmente cafajeste mas conceitualmente brilhante.

Durante milênios a tradição judaico-cristã explicou ao mundo que a culpa pela condição dos pobres, e pelas durezas dessa condição, estava no ombro dos ricos. Na condenação dos ricos concordam o narrador do Êxodo, os profetas, Jesus, Lucas, Tiago e uma infinidade de santos e santas. Treze séculos antes de Marx, Ambrósio de Milão explicava que mesmo quando os ricos derem tudo o que tem aos pobres, como Jesus encorajava que fizessem, não haverá mérito nessa transação: estarão apenas devolvendo o que tinham roubado em primeiro lugar:

Quando dá a um pobre você não está dando do que é seu, está devolvendo o que pertence a ele. Você é quem havia usurpado o que é comum, aquilo que foi dado para o comum benefício de todos.

Durante esses milênios, portanto, entendeu-se que a culpa pela dureza da condição dos pobres era dos ricos, e que tirar dos ricos para dar aos pobres era mais ou menos o oposto de roubar.

Aqui reside o brilhantismo canalha de von Mises, que ensinou os neoliberais, com enorme sucesso, a pregarem o contrário. Na nova pregação as culpas são simetricamente revertidas: os ricos são aqueles que provaram no cadinho do mercado a sua inocência e o seu mérito, e os pobres são condenados e condenáveis, os únicos culpados pela dejeção da sua condição.

Para von Mises, apenas os ricos não devem sentir-se culpados, em que o mercado demonstrou ou seu valor. Dentro dessa lógica, aqueles que criticam o capitalismo o fazem movidos (mesmo que inconscientemente) pelo próprio senso de culpa. São anticapitalistas porque querem colocar no sistema a culpa pela próprio fracasso e pela própria inadequação. “Para consolar a si mesmo e restaurar a sua autoafirmação, esse homem procura um bode expiatório. Ele tenta persuadir a si mesmo de que o fracasso não é por sua culpa”.

A ideologia neoliberal em que os ricos são inocentes e os pobres culpados chegou no exato momento em que ia ficando claro que o desenvolvimentismo não tinha cacife para pagar as suas promissórias de justiça para todos. O mito do desenvolvimento já tinha cumprido a sua função, aquela de convencer as sociedades do mundo a queimar as suas singularidades e futuros no altar comum do capitalismo. Cooptado o planeta, chegava a hora de reconhecer que prometer equidade nunca tinha sido a vocação do capitalismo. Só era preciso convencer o mundo, e meu Deus como foi fácil, de que equidade é de alguma forma coisa diferente de justiça.
 

Se os ânimos na timeline do Brasil de hoje parecem mais acirrados do que deveriam, isso deve-se em grande parte ao sucesso da pregação do livre mercado em obliterar das mentes e corações o acordo anterior (igualmente picareta, mas menos abertamente Lado Negro) do mito do desenvolvimento.

Surfando as políticas privatizadoras de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, o FMI e o Banco Mundial semearam o mito do livre mercado mundo afora. “Institutos Ludwig von Mises” levantaram-se em toda a parte, inclusive no Brasil.

No Brasil, uma expressiva parcela da população de classe média e acima já opera a partir da pregação neoliberal, que toma os ricos por vítimas e injustiçados e os pobres por aproveitadores e culpados. Essa é a linha ideológica da revista Veja, de Reynaldo Azevedo, de Olavo de Carvalho, de Rodrigo Constantino e Diogo Mainardi – porém o mais inquietante é que o fundamentalismo de mercado já converteu silenciosamente mesmo quem foi sensato o bastante para nunca ter lido esses picaretas.

É assim, afinal de contas, que um mito funciona, organizando em regime subterrâneo afetos e afeições do corpo social. Este é Jung Mo Sung:

A maioria das pessoas, e especialmente a grande mídia, pensa a partir do “mito neoliberal”. Assim, ele passou a ter um papel fundamental no processo de abrir e fechar as possibilidades de conhecimento e diálogos, de definir critérios de discernimento entre o “bem e o mal”, entre as ações aceitáveis e as não. E como é um mito fundamental, estruturador, as pessoas imersas nessa cultura não o enxergam, pois veem o mundo através dele.

Não adianta você dizer a um fundamentalista de mercado que no Brasil, com 200 milhões de pessoas, a desigualdade socioeconômica é mais acentuada do que na Índia, que tem um PIB menor, um sistema inteiro de castas e mais de 1 bilhão de habitantes. A desigualdade na distribuição de renda no Brasil, mesmo estando entre as dez mais díspares do mundo, não vai sensibilizar o seu interlocutor, porque o mito orientador do livre mercado passou a determinar o seu senso de justiça, aquilo que para ele é aceitável ou não. A crença neoliberal de que não há nada inerentemente errado na desigualdade fechou antes dele nascer a possibilidade do diálogo que você estava procurando entabular.

Com o perdão da palavra, a presente polarização está fundamentada não nas críticas ao governo ou à corrupção, coisas sobre o que todos mais ou menos concordam. O que está sob ataque é o conceito tradicional de justiça, que vê a desigualdade social como inerentemente injusta, pelo novo conceito neoliberal, que vê a desigualdade social como demonstração de justiça.

Preciso dizer qual das duas tende ao fascismo.
 

Concluo com duas curiosidades. A primeira já mencionei e acho formidável: o fato de von Mises, o grande proponente moderno do mito do livre mercado, ter entendido que o capitalismo é incompatível com o cristianismo. Essa candura demonstra que von Mises, embora fosse um vilão e um canalha, retinha alguma honestidade intelectual. Os admiradores cristãos do neoliberalismo deveriam ouvir o cara: “um cristianismo vivo não pode, ao que parece, existir lado a lado com o capitalismo”.

A segunda curiosidade é que, de novo, o DNA de algum aspecto sórdido do capitalismo pode ser traçado diretamente à Reforma Protestante.

Os católicos, benditos sejam, até hoje tendem à visão tradicional de que são os ricos que exploram os pobres, e não o contrário como querem os neoliberais. Basta ouvir qualquer coisa que tenha dito São Francisco ou esteja dizendo o papa Francesco.

Os grandes proponentes do neoliberalismo, por outro lado, são os países e pensadores de tradição protestante.

Não é de estranhar que seja assim, visto que séculos antes de von Mises os calvinistas já procuravam soluções para a questão de remanejar a culpa dos ricos. Como ignorar as advertências bíblicas sobre o caráter inerentemente injusto das riquezas? Como anular a questão da culpa dos ricos diante do rigor das condenações de Jesus e dos profetas? Como proteger-se da posição de São Paulo, segundo o qual “ganância é idolatria”?

A solução que os calvinistas encontraram para o manejo da culpa (e usam essa solução até hoje, pergunte aos diretores e adidos do Mackenzie) foi a soberania divina. Nenhum rico deve sentir-se culpado pela sua riqueza e nenhum rico deve sentir-se responsável pela condição do pobre, porque foi a soberania de Deus que colocou cada um na sua posição. Estender a mão para ajudar o pobre, de virtude cristã que era, passou a ser visto como tentação, visto que não nos cabe interferir numa diferença de mérito que quem determinou foi a soberania de Deus. Se Deus não quisesse que o pobre fosse pobre ele seria rico; se Deus não quisesse que o rico fosse rico ele seria pobre. O que Deus separou não cabe ao homem colocar no mesmo nível.

Na tarefa de remanejar a culpa dos ricos, o que o neoliberalismo fez em von Mises foi trocar a soberania divina pela soberania do mercado. O dogma do “mercado livre e soberano” exige que o mercado é soberano no mesmo sentido em que Deus era para os calvinistas. A mão invisível do mercado, precisamente como a mão divina, avalia os méritos e distribui a justiça, e não cabe ao homem ou a governos feitos por mãos humanas interferir no seu julgamento. Se o mercado não tivesse julgado você indigno de ser rico, você não seria pobre. Se o mercado não tivesse julgado você indigno de ser pobre, você não seria rico. Não há deus além do mercado, não há outro juiz e não há outra justiça.

Mas, caramba, quem disse que o mercado é medida para alguma coisa? Quem estabeleceu o mercado como medida de justiça?

O remanejamento da culpa econômica é, no fim das contas, um remanejamento de palavras e de conceitos. Certo que sempre existiu gente que quis colocar o mercado no lugar de Deus. Certo que sempre existiu gente que acreditou que os ricos são vítimas da exploração dos pobres, e não o contrário.

A façanha do neoliberalismo é ter conseguido convencer que quem acredita nessas coisas é “gente de bem”.

Para ver esclarecida a sacrílega intersecção entre teologia e economia você deveria estar ouvindo é Jung Mo Sung. Vá ler um livro dele imediatamente.

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Correluz http://baciadasalmas.com/correluz/ Sun, 27 Mar 2016 08:01:27 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3806 ]]>

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A sorte de justiça que fomos quase capazes de prover ao mundo http://baciadasalmas.com/a-sorte-de-justica-que-fomos-quase-capazes-de-prover-ao-mundo/ Fri, 18 Mar 2016 09:53:06 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3832 «Um dia», me disse o Giovanni num bar da Itália, «a música popular brasileira vai salvar o mundo.»

Era a minha primeira vez fora do Brasil e eu estava numa papelariazinha de Florença comprando um caderno decorado. O italiano que me atendia entregou o troco e aproveitou aquele último momento para arriscar:

– Ma lei è brasiliano?

Quando respondi que sim, testemunhei pela primeira vez A Transformação. O cara, que tinha se mostrado até ali cordial mas muito na dele, se encheu de uma alegria ao mesmo tempo solene e indisfarçável, o tipo de alegria que se abre no coração quando você recebe a notícia de que vai ter um filho, ou quando você esbarra no seu artista favorito e ele se mostra um cara muito gente boa e te dá um minuto da sua atenção.

– Ma io ho tanti amici brasiliani, lei lo sa?! — me disse o sujeito, abrindo o mais desarmante dos sorrisos. Disse que os brasileiros são gente formidável e me acompanhou até a porta da loja para indicar, na geografia do seu bairro na cidade medieval, onde exatamente moravam e trabalhavam os amigos brasileiros de que ele podia se orgulhar.

Saí dali sorrindo sozinho e para me proteger da ternura pensei tem cada doido.

Meu problema é que aquela foi só a primeira vez. Não dá pra contar o número de vezes que recebi na Itália tratamento de superstar pelo mérito único e singular de ser brasileiro. Canalha e sacana que sou, nunca cheguei a me acostumar ao sorriso de simpatia sem nenhum traço de cinismo que se abre no rosto de um italiano quando alguém te apresenta com um “este é o Paulo, ele é brasileiro”. Às vezes eu me ofendia um pouco e pensava “mas esse sujeito/essa guria nem me conhece e já gosta de mim”. Era irritante ser amado só por ser brasileiro, quando um canalha como eu espera ser amado pelo que tem de singular.

Mas não: o brasileiro recebe na Itália uma deferência que precede o conhecimento pessoal. É como quando você curte o trabalho de um artista e faz questão de adiantar a sua admiração mesmo antes de saber se o sujeito bate na mulher ou tem inclinações fascistas.

Garantem-me que não é só na Itália que o simples fato de ser brasileiro é tomado como credencial. Este é Luiz Zanin 1Num artigo que você a propósito precisa ler imediatamente.:

Vivi na França e pude testemunhar a admiração que os franceses tinham por nós. Como se, apesar de nossos óbvios problemas, fôssemos emissários de alguma boa nova, de uma possibilidade de alegria incomum num mundo triste.

Fato é que quase entendo o que os italianos admiram nos brasileiros, embora não seja capaz de arrebanhar as palavras para expressar. Não se trata de Carnaval, não se trata de samba ou simpatia ou cordialidade. Os italianos não são burros e sabem que os brasileiros podem ser tão corruptos quanto qualquer italiano e mais cruéis, menos confiáveis, mais egoístas e mais perigosos.

Mas como o Giovanni, que no mesmo bar italiano em que o conheci me disse “um dia a música popular brasileira vai salvar o mundo”, esses caras enxergam que a boa nova residual da qual somos portadores paira acima de qualquer uma das nossas limitações.

O bizarro é que é possível que não estejam de todo enganados. O bizarro é que o ameríndio e o sertanejo e o nordestino e o carioca e acrescente aqui o seu clichê teriam de fato como oferecer ao mundo e a si mesmos uma sorte singular de justiça fundamentada no cinismo, na desconfiança, na malandragem, na preguiça, na falta de ambição, no conformismo, na luxúria, na cachaça, na roda de samba, na lealdade líquida, no sarau, no jeitinho, no despacho, no sarro, no repente, na gambiarra, na pelada, no cordel, na encantaria, na capoeira, no flozô e em uma série de vícios interligados e complementares, vícios escolhidos a dedo para contrapor virtudes que, o mundo já entendeu ou intuiu, podem resultar em injustiças desfigurantes e avassaladoras.

O mérito que o mundo nos atribui, em grande parte, é o mérito de não desejar o que o resto do mundo deseja. Podem ter nos diagnosticado com algum acerto, mas não contavam que buscássemos para a nossa singularidade uma cura.

Mundo, é oficial: aquilo que prometemos não seremos capazes de entregar.

Trocamos os vícios que nos redimiam pelas virtudes que irão nos destruir. O discurso da luta pela corrupção só faz sentido num mundo em que faz sentido a ganância, e a ganância só faz sentido num mundo não redimido pela preguiça. O ameríndio que não cessamos de cercar, cercear e eliminar, é ele é o verdadeiro portador da boa nova, e articulado em pobres palavras a boa nova é não cobiçar outra coisa além de ser deixado em paz. Essa autossuficiência refletida ou residual o brasileiro transmite por onde passa, e em todo o lugar ela é tomada como credencial, exceto aqui.

O brasileiro nunca existiu além da promessa, mas era uma promessa muito real porque estava fundamentada no não-desejo e no despoder. Grande e rico é quem não precisa de nada e, meu Deus, como já fomos grandes. Meu Deus, como já fomos ricos.

Giovanni, acho provável, acho quase certo, que a música popular brasileira vá um dia salvar o mundo.

Só não vai ser hoje.

Só não vai ser aqui.

Notas   [ + ]

1. Num artigo que você a propósito precisa ler imediatamente.
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A manhã em que ninguém é mais justo que ninguém http://baciadasalmas.com/a-manha-em-que-ninguem-e-mais-justo-que-ninguem/ Thu, 17 Mar 2016 09:04:15 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3811

Se você for dar a cada um o que merece, quem escapará do açoite?
Hamlet, Ato 2, Cena 2

As regionais de São Paulo e do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil se pronunciaram entre ontem e hoje sobre os grampos vazados por Sérgio Moro. Em sua nota a OAB do Rio de Janeiro se mostra estarrecida com o fato das gravações terem sido feitas e divulgadas. Em sua nota a OAB de São Paulo se mostra estarrecida com a opinião de Lula sobre a justiça no Brasil, registrada nas gravações. A fenda entre essas posições recorta o país.

Até onde você quer ir com a justiça? – é a pergunta que Sócrates faz continuamente a quem se aproxima do tribunal.

O juiz Sérgio Moro, que justificou a condução coercitiva de Lula com o argumento de que queria evitar “tumulto” e “comoção”, não tinha como ignorar que a divulgação das gravações, neste preciso momento (e por mais inócuas ou controversas que se mostrassem), provocaria precisamente comoção e tumulto. Moro não resistiu e fez a sua própria delação premiada, sendo que seu prêmio está ainda por definir. É até aqui e mais longe, Sérgio Moro respondeu a Sócrates, que quero ir com a justiça.

Esta, senhoras e senhores, é a manhã das máscaras caídas. Precisamente por isso encontro nela, mesmo em suas sombras, alguma ternura e alguma esperança. A teoria dos três poderes parte do desiludido e acurado pressuposto de que um poder vai querer mais poder do que o outro, e vai precisar para manter a linha do tempero dos outros dois – mesmo que esse tempero seja a luta de cada um pela primazia. É uma ideia que tem alguma beleza porque parte da ideia que ninguém é mais propenso à integridade do que ninguém. Ela aposta a sua eficácia na sua precariedade, e pede ao mesmo tempo que cada envolvido não nutra grandes ilusões sobre a própria importância.

Numa dada manhã qualquer todos acordam, mesmo sem se darem conta, para defender a sua justiça.

A manhã em que ninguém é melhor do que ninguém, que são todas, requer o delicado equilíbrio de que todos façam o que é justo sem que ninguém lute para levar a justiça até onde gostaria.

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O xadrez da política no dia D http://baciadasalmas.com/o-xadrez-da-politica-no-dia-d/ Sun, 13 Mar 2016 04:33:06 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3791 É dia 13, você não está contente? Bem-vindo ao episódio de hoje de Game of Thrones.

Não importa de que lado resida a sua indignação, nenhuma outra leitura lhe será mais útil nesta manhã do que este artigo de Luis Nassif. Leia agora O xadrez da política no dia D, e me escreva imediatamente para dizer que não foi a coisa mais esclarecedora que você leu esta semana.

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Os Virgulóides e John Williams http://baciadasalmas.com/os-virguloides-e-john-williams/ Fri, 11 Mar 2016 23:17:21 +0000 http://www.baciadasalmas.com/?p=3776  

Esta você vai ouvir mais de uma vez.

Bagulho no Bumba, E.T. End Credits | Os Virgulóides, John Williams | Clique no triângulo para ouvir

Este documento contém clipes de áudio que você talvez só consiga ouvir na página da Bacia na internet.

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