Eva recua • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de dezembro de 2008

Eva recua

Estocado em Manuscritos

47

Eva recua e, explicando mais do que aprendeu, responde que os homens são livres para comer de todas as árvores do Éden, mas a árvore no terrível centro do jardim está interditada: seu fruto não devem comer nem tocar, caso contrário terão de morrer. Uma vez proferida, sua resposta é menos um recuo do que um avanço: sua explicação revela que Eva levantara insconscientemente uma regra adicional entre ela mesma e o fruto proibido, este elucidativo “não devemos tocar”. Dito de outra forma, a serpente ainda não dera início ao seu ministério, e o ser humano já imprimira seu próprio conflito ao conflito inicial provido por Deus; com isso a engrenagem da narrativa avançara mais um dente inexorável ou dois. A nova prescrição, que não consta da boca divina, revela que Eva, embora talvez não tivesse se sentido livre para considerar a possibilidade de comer, já havia se inquietado com a possibilidade de tocar.

Com isso um novo vento arrepia as folhas do Éden, porque a serpente, depois de invocar num golpe certeiro a presença de Deus, extrai do homem, em outro, uma terrível confissão.

Diante desta espantosa brecha, é o momento em que a serpente deve levantar-se e assumir o seu verdadeiro papel, o de Profeta Não-autorizado de terríveis verdades divinas.

— A Palavra do Senhor veio sobre mim — o vento crescente emoldura sua primeira revelação — e uma coisa posso garantir: vocês não vão morrer.

O restante da Bíblia existe para elucidar o mistério de se ela estava mentindo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas adverte: desta vida tudo se leva