Este cosmos desolado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de outubro de 2009

Este cosmos desolado

Estocado em Goiabas Roubadas

A vida é uma coisa pavorosa, e por trás do pano de fundo daquilo que conhecemos dela espreitam indicações demoníacas de realidade que tornam-na por vezes mil vezes mais horrenda. A ciência, já opressiva em suas traumáticas revelações, representará talvez o algoz último da espécie humana – se é que chegamos a ser uma espécie distinta, – pois seus horrores inimaginados, se lançados à solta no mundo, não poderiam ser suportados por cérebros mortais. Se soubéssemos o que somos, faríamos o que fez Sir Arthur Jermyn, e Arthur Jermyn certa noite banhou-se em gasolina e atiçou fogo em suas próprias roupas. Ninguém depositou os restos carbonizados numa urna ou destinou um memorial àquele que havia sido, pois certos papéis e um certo objeto encaixotado foram encontrados que levaram os homens a desejar esquecer. Alguns que o conheceram recusam-se a admitir que tenha existido.

H. P. Lovecraft, Facts Concerning the Late Arthur Jermyn and His Family (1920)

 

Eis, agora, Howard Phillips Lovecraft (1890-1937): “Encontro-me tão brutalmente fatigado da humanidade e do mundo que nada chega a me interessar a não ser que tenha dois assassinatos por página ou trate dos horrores inomináveis e incontáveis que espreitam além dos universos exteriores”.

Os que amam a vida não lêem livros. Também não vão ao cinema, para falar a verdade. Não importa o que se diga, o acesso ao universo artístico está mais ou menos confinado àqueles que se sentem um tanto indignados com o mundo.

Quanto a Lovecraft, esse sentia-se mais do que um tanto indignado. Em 1908, Os que amam a vida não lêem livros.com 18 anos de idade, sofreu o que foi descrito como um “colapso nervoso”, e mergulhou numa letargia que durou cerca de dez anos. Numa idade em que seus antigos colegas de classe davam de bom grado as costas à infância e abraçavam a vida como quem mergulha numa aventura maravilhosa e sem censura, Lovecraft se enclausurava em sua em casa, falando apenas com sua mãe, recusando-se a levantar o dia inteiro e perambulando a noite toda de roupão.

E o que é pior, nem mesmo escrevendo estava.

O que ele fazia? Lia um pouco, talvez. Nem mesmo isso sabemos ao certo. Na verdade, seus biográfos são obrigados a admitir que não sabem muita coisa daquele período, e que, a julgar pelas aparências – pelo menos entre os 18 e os 23 anos de idade – Lovecraft não fez absolutamente nada.

Então, entre 1913 e 1918, muito lentamente, a situação foi melhorando. Gradualmente ele começou a retomar o contato com a raça humana. Não foi fácil. Em maio de 1918 Lovecraft escreveu a Alfred Galpin: “Estou vivo somente cerca de pela metade; uma enorme parte das minhas forças é consumida em coisas como sentar ou caminhar. Meu sistema nervoso é uma pilha em frangalhos e vivo em absoluto tédio e apatia a não ser quando me deparo com alguma coisa que me interessa particularmente”.

É definitivamente supérfluo tentar empreender uma reconstrução psicológica ou dramática, porque Lovecraft é um homem lúcido, inteligente e sincero. Uma espécie de terror letárgico desceu sobre ele quando completou 18 anos, e ele sabia muito bem a razão. Numa carta de 1920 ele revisita detalhadamente a infância: a pequena ferrovia cujos vagões eram feitos de caixas de embalagem, a estrebaria onde instalou seu teatro de marionetes e, mais tarde, o jardim que ele mesmo projetou, desenhando cada um de seus percursos. Era irrigado por um sistema de canais que ele mesmo escavara, suas saliências delimitadas por um pequeno gramado no centro do qual erguia-se um relógio de sol. Aquele era, segundo ele mesmo, “o paraíso de meus anos de adolescência”.

Vem então esta passagem que conclui a carta: “Percebi então, com horror, que estava ficando velho demais para sentir prazer. O implacável Tempo cravara em mim suas garras, e eu tinha 17 anos de idade. Meninos crescidos não brincam com casas de brinquedo ou com maquetes de jardim, pelo que fui tristemente obrigado a transferir meu mundo a outro menino mais jovem que morava do outro lado do terreno. Desde aquele tempo não mexo com a terra nem abro caminhos ou traço percursos. Há uma recordação tremendamente melancólica nesse procedimento, pois a alegria efêmera da infância nunca pode ser recapturada. A idade adulta é o inferno.”

A idade adulta é o inferno. Diante de posicionamento tão incisivo, os “moralistas” dos nossos dias irão proferir vagos murmúrios ultrajados enquanto aguardam uma chance de atacar com suas obscenas insinuações. Talvez Lovecraft fosse realmente incapaz de tornar-se adulto; o certo é que ele não o queria. E, dados os valores que governam o mundo adulto, como argumentar com ele? O princípio da realidade, o princípio do prazer, a competitividade, os desafios permanentes, sexo e status – são poucos os motivos de regozijo.

Lovecraft, por sua vez, sabia que não tinha nada a ver com este mundo. A cada esquina jogava com cartas perdidas, na teoria e na prática. Perdera sua infância e perdera também a fé. O mundo o enojava, e ele não via motivo para acreditar que olhando para as coisas de modo positivo elas lhe pareceriam diferentes do que são. Via as religiões como ilusões açúcaradas que o progresso da ciência tornara obsoletas. Por vezes, quando numa disposição de ânimo especialmente boa, falava do círculo encantado da crença religiosa, mas tratava-se de um círculo do qual ele de qualquer forma sentia-se banido.

Poucos seres já sentiram-se dessa forma impregnados, atravessados no coração, pela convicção da absoluta futilidade da aspiração humana. O universo nada é além do arranjo de partículas elementares, um grandeza matemática numa transição em direção ao caos. É isso o que, no final, irá prevalecer. A raça humana desaparecerá. Outras raças se levantarão e por sua vez desaparecerão. Os céus se tornarão glaciais e vazios, atravessados pela luz débil de estrelas meio mortas. Essas também desaparecerão. Tudo desaparecerá. As ações humanas são tão livres e desprovidas de significado quanto o movimento desregrado das partículas elementares. Bem? Mal? Moralidade? Sentimentos? Puras “ficções vitorianas”. Tudo que existe é egotismo. Frio, intacto e radiante.

Lovecraft estava plenamente consciente da natureza deprimente de suas conclusões. Como escreveu em 1918, “todo racionalismo tende a minimizar o valor e a importância da vida e a diminuir a soma total da felicidade humana. Em alguns casos a verdade é capaz de causar uma depressão suicida ou quase suicida”.

Ele permaneceu consistente em seu materialismo e seu ateísmo. Carta após carta voltava a suas convicções com deleite nitidamente masoquista.

A vida, naturalmente, não tem sentido. Mas tampouco a morte, e essa é outra coisa que faz gelar o sangue de quem descobre o universo de Lovecraft. As mortes de seus heróis não têm sentido. A morte não traz qualquer senso de conciliação. Em nenhum sentido ela permite que a narrativa encontre uma resolução. Implacavelmente, Lovecraft destrói seus personagens, evocando o desmembramento de marionetes. Indiferente a essas vicissitudes patéticas, o medo cósmico continua a expandir-se. Avoluma-se e toma forma. O Grande Cthulhu emerge de sua letargia.

O que é o Grande Cthulhu? Um amontoado de elétrons, como nós. O terror de Lovecraft é rigorosamente material. Porém é inteiramente possível, devido à livre interação entre as forças cósmicas, que o Grande Cthulhu possua habilidades e poderes para agir que superem em muito os nossos. O que, a priori, não tem nada de reconfortante.

De sua viagem aos mundos penumbrais do impronunciável Lovecraft não voltou tranzendo boas novas. Talvez, confirmava ele, algo esteja oculto por trás da cortina da realidade, algo que por vezes se permite ser percebido. Algo verdadeiramente perverso, na verdade.

É possível, na verdade, que além do limitado alcance de nossa percepção outras entidades existam. Outras criaturas, outras raças, outros conceitos e outras mentes. Dentre essas entidades, algumas são provavelmente muito superiores a nós em inteligência e em conhecimento – mas isso não é necessariamente uma notícia boa para nós. O que nos faz pensar que essas criaturas, diferentes de nós como são, exibirão qualquer tipo de natureza espiritual? Nada sugere que exista uma transgressão das leis universais do egoísmo e da maldade. É ridículo imaginar que, na orla do cosmos, outros seres sábios e bem-intencionados aguardem para nos guiar rumo a alguma sorte de harmonia. A fim de imaginar como nos tratariam caso entrassem em contato conosco, melhor seria lembrar como nós mesmos tratamos “inteligências inferiores” como coelhos e sapos. No melhor dos casos, esses nos servem de alimento; outras vezes, e na realidade com frequência, nós os matamos pelo simples prazer de matar. Este, alertava Lovecraft, seria o verdadeiro quadro de nosso relacionamento futuro com esses outros seres inteligentes. Talvez alguns dos mais belos espécimes de humanidade fossem honrados e acabassem numa mesa de dissecação – mas isso é tudo.

E, mais uma vez, nada disso faz sentido.

Este cosmos desolado é absolutamente nosso. Este universo abjeto em que o medo acumula-se Este cosmos desolado é sem sombra de dúvida nosso universo mental.em círculos concêntricos, camada após camada, até que o inominável seja revelado, este universo em que nosso único destino concebível é ser pulverizado e devorado, devemos reconhecer como sendo sem sombra de dúvida nosso universo mental. E para qualquer um disposto a conhecer esse estado mental coletivo através de uma rápida e acurada sondagem, o próprio sucesso de Lovecraft é um sintoma. Hoje em dia, ainda mais do que outrora, podemos proferir como nossa a declaração de princípios com que começa a história de Arthur Jermyn: “A vida é uma coisa pavorosa, e por trás do pano de fundo daquilo que conhecemos dela espreitam indicações demoníacas de realidade que tornam-na por vezes mil vezes mais horrenda”.

O paradoxo, no entanto, está em que preferimos esse universo, horrendo como é, a nossa própria realidade. E nisso somos precisamente os leitores que Lovecraft antecipava. Lemos seus contos com precisamente a mesma disposição que levou-o a escrevê-los. Satanás ou Nyarlathotep, qualquer um dos dois irá servir, mas não toleraremos sequer um momento a mais de realismo. E, verdade seja dita, dada à sua prolongada familiaridade com as deploráveis reviravoltas de nossos pecados ordinários, o valor cambial de Satanás tem caído sensivelmente no mercado. Melhor que seja Nyarlathotep, inteiramente frio, perverso e não-humano.

Está claro porque ler Lovecraft é paradoxalmente reconfortante para as almas que se encontram enfadadas da vida. Na verdade, sua leitura talvez devesse ser prescrita para todos que, por uma razão ou por outra, chegaram a sentir verdadeira aversão pela vida em todas as suas formas. Em alguns casos o choque nos nervos diante da primeira leitura é incomensurável. O leitor pode acabar sorrindo para si mesmo ou cantarolando uma canção de algum musical. Toda uma perspectiva a respeito da existência é, numa palavra, alterada.

Desde que o vírus de Lovecraft foi introduzido na França por Jacques Bergier, o aumento de número de seus leitores tem sido substancial. Como a maior parte dos contaminados, conheci Lovecraft aos 16 anos de idade pela intermediação de um “amigo”. Chamar de choque meu contato com a sua obra seria atenuar a verdade. Eu não sabia que a literatura era capaz disso. E, digo mais, ainda não tenho certeza de que seja. Há algo na obra de Lovecraft que não é realmente literário.

Em favor dessa idéia, devemos considerar o fato de que cerca de quinze autores (Belknap Long, Robert Bloch, Lin Carter, Fred Chappell, August Derleth e Donald Wandrei, só para mencionar alguns) consagraram parte ou o todo de suas carreiras a desenvolver e enriquecer os mitos criados por Lovecraft. E não de maneira furtiva, não às escondidas, mas do modo mais declarado. Essa linhagem filial é ainda mais sistematicamente reforçada pelo uso consistente das mesmas precisas palavras, que passam a assumir o valor de fórmulas encantatórias – as colinas selvagens a oeste de Arkham, a Universidade de Miskatonic, a cidade de Irem com seus mil pilares, R’lyeh, Sarnath, Dagon, Nyarlathotep e, acima, de tudo, o inominável e blasfemo Necronomicon, cujo nome só pode ser proferido num sussurro.

Numa época que exalta a originalidade como valor supremo na arte, esse fenômeno deve ser certamente encarado como motivo de surpresa. Na verdade, conforme apontado oportunamente por Francis Lacassin, nada semelhante foi registrado desde o tempo de Homero e da poesia épica medieval. Devemos humildemente reconhecer que estamos lidando aqui com o que deve ser reconhecido como uma “mitologia fundadora”.

Michel Houellebecq

Leia também:
O horror de argila
Post mortem
O depoimento de Randolph Carter
Ode ao pessimismo

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas apoia causas aleatórias