Este cosmos desolado, parte 2 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de outubro de 2009

Este cosmos desolado, parte 2

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Criar um grande mito popular é criar um ritual pelo qual o leitor aguarda impacientemente e ao qual pode retornar com prazer crescente, seduzido cada uma das vezes pela repetição de diferentes termos, imperceptivelmente alterados a fim de permitir que ele experimente uma nova intensidade de experiência.

Colocadas dessa forma as coisas parecem quase simples, mas são raros os sucessos deste gênero na história da literatura. Na verdade, não é mais fácil criar-se uma nova religião.

Para demonstrar claramente o que está em jogo, seria necessário experimentar pessoalmente o clima de frustração que invadiu a Inglaterra diante da morte de Sherlock Holmes. Conan Doyle não teve escolha além de ressuscitar o seu herói. Lovecraft, que admirava Conan Doyle, teve êxito em criar um mito igualmente popular, vívido e irresistível.

As histórias de Sherlock Holmes giram ao redor de um personagem, enquanto em«A literatura não é atividade adequada a um cavalheiro.» Lovecraft não se encontra nenhum espécime verdadeiramente humano. Naturalmente esta é uma distinção importante, mas não verdadeiramente essencial, comparável à que separa religiões teístas de ateístas. A característica fundamental que as une, seu caráter religioso, é de resto difícil de definir e de se elucidar diretamente.

Outra pequena distinção que pode ser feita – mínima para a história literária, trágica para o indivíduo – é que Conan Doyle teve abundante oportunidade de perceber que estava criando uma mitologia essencial. Lovecraft não. No momento de sua morte ele tinha a clara impressão de que sua obra criativa mergulharia na obscuridade juntamente com ele.

Não obstante, ele já tinha discípulos – mas não que pensasse neles assim. Lovecraft correspondia-se com jovens autores (Bloch, Belknap Long e outros), porém não necessariamente os aconselhava a assumirem a mesma trilha que havia assumido.

Não se apresentava como mestre ou como modelo. Saudava as primeiras aventuras dos principiantes com delicadeza e modéstia exemplares. Era cortês, atencioso e gentil, mostrando-se seu verdadeiro amigo e nunca professor. Absolutamente incapaz de deixar uma carta sem responder, abstendo-se de exigir pagamento quando seu trabalho de revisão literária deixava de ser reembolsado, sistematicamente subestimando sua contribuição a histórias que sem sua intervenção jamais viriam à luz, Lovecraft portou-se como um autêntico cavalheiro ao longo de toda a sua vida.

Ele, naturalmente, gostava da idéia de tornar-se escritor, porém não apegava-se a esse sonho em detrimento de todo o resto. Em 1925, num momento de desânimo, confessava: “Estou muito perto de tomar a resolução de não escrever mais histórias, mas meramente sonhá-las quando der por bem, jamais rebaixando-me a algo tão vulgar quanto colocar o sonho por escrito em benefício de um público porcino. Cheguei à conclusão de que a literatura não é atividade adequada a um cavalheiro, e que escrever nunca deve ser considerado mais do que um empreendimento elegante ao qual se deve ceder apenas com infrequência e com critério.”

Felizmente Lovecraft continuou a escrever, e suas melhores histórias foram escritas depois dessa carta. Porém permaneceu até o fim, como gostava ele mesmo de descrever-se, um velho e gentil cavalheiro de Providence. Nunca, jamais, um escritor profissional.

Paradoxalmente, a personalidade de Lovecraft permanece fascinante em parte porque seus valores são tão diametralmente opostos aos nossos. Fundamentalmente racista, abertamente reacionário, Lovecraft glorificava as inibições puritanas e, obviamente, considerava repulsivas todas as “manifestações eróticas diretas”. Decididamente anticomercial, desprezava o dinheiro, considerava a democracia uma tolice e o progresso uma ilusão. A palavra “liberdade”, tão apreciada pelos americanos, inspirava-lhe apenas uma gargalhada triste e sarcástica. Ao longo de toda vida Lovecraft sustentou uma postura tipicamente aristocrática, desdenhosa com relação à humanidade em geral e extremamente generosa com relação aos indivíduos em particular.

Qualquer que fosse o caso, todos que de alguma forma se relacionavam com Lovecraft como indivíduo sentiram imensa tristeza quando souberam de seu falecimento. Robert Bloch disse que se tivesse sabido do verdadeiro estado da saúde física do amigo teria se arrastado de joelhos até Providence para vê-lo. August Derleth dedicou o restante de sua existência a reunir, compilar e publicar os fragmentos póstumos de seu amigo falecido.

E é graças a Derleth e alguns outros (porém principalmente Derleth) que o corpo da obra de Lovecraft acabou impactando o mundo. Hoje sua obra ergue-se diante de nós como imponente estrutura barroca, seus elevados estratos içando-se em inúmeros círculos concêntricos superimpostos, ostentando cada um largo e suntuoso patamar – sendo que o todo circunda um vértice de horror puro e absoluto assombro.

> O primeiro círculo, o mais exterior, corresponde a sua correspondência e seus poemas. Estes permanecem apenas em parte publicados, e ainda mais parcialmente traduzidos. A correspondência é particularmente vertiginosa: quase 100.000 cartas, algumas das quais chegam a 30 ou 40 páginas. Quando aos poemas, uma estimativa presente da sua quantidade não existe.

> Um segundo círculo conteria as histórias das quais Lovecraft participou – seja as que foram concebidas dede o primeiro momento como colaborações (como as histórias que escreveu com Kenneth Starling e Robert Barlow, por exemplo) ou as demais, cujos autores podem ter se beneficiado das revisões de Lovecraft (há dentro dessa categoria um número extremamente grande de casos; o teor da colaboração de Lovecraft variava, e algumas vezes representava uma reelaboração completa do texto). A essas podemos acrescentar ainda as histórias escritas por Derleth com base nas notas e fragmentos deixados por Lovecraft.

> No terceiro círculo chegamos às histórias escritas na prática por Howard Phillips Lovecraft. Neste caso, naturalmente, cada palavra conta; todas foram publicadas em francês e não devemos esperar que seu número total chegue a aumentar.

> Finalmente, podemos delinear muito distintamente um quarto círculo, o absoluto cerne da mitologia de Lovecraft, que contém aquilo que os mais apaixonados lovecraftianos continuam a chamar, a despeito de si mesmo, de “grandes textos”. Devo citá-los pelo prazer puro e simples de fazê-lo, juntamente com a data de sua composição:

  • O chamado de Cthulhu – The Call of Cthulhu (1926)
  • A cor que caiu do espaço – The Colour Out of Space (1927)
  • O horror de Dunwich – The Dunwich Horror (1928)
  • Um sussurro nas trevas – The Whisperer in Darkness (1930)
  • Nas montanhas da loucura – At the Mountains of Madness (1931)
  • Os sonhos da Casa das Bruxas – The Dreams in the Witch House (1932)
  • Uma sombra sobre Innsmouth – The Shadow Over Innsmouth (1932)
  • Sombras perdidas no tempo – The Shadow Out of Time (1934)

Além disso, suspensa sobre o castelo da obra de Lovecraft, como uma névoa espessa e instável, paira a insólita sombra de sua própria personalidade.É natural que se erga um culto ao redor de figura que obsequia com tamanhos benefícios. É possível que alguém ache um tanto exagerada, ou mesmo mórbida, a atmosfera de culto construída ao redor de sua pessoa, de seus gestos e atividades e até mesmo do mais insignificante de seus fragmentos escritos. Posso no entanto garantir que essa opinião estará fatalmente destinada a uma revisão depois de um mergulho nos seus “grandes textos”. É natural que se erga um culto ao redor de figura que obsequia com tamanhos benefícios.

E foi o que fizeram sucessivas gerações de lovecraftianos. Como sempre acontece, “o recluso de Providence” tornou-se agora figura quase tão mítica quando uma de suas criações. E o que é mais surpreendente é que todas as tentativas de desmistificá-lo fracassaram. Nenhum grau de detalhamento biográfico foi capaz de dissipar a aura peculiar de páthos que cerca seu pessoa.

A obra de Lovecraft pode ser comparada a uma ciclópica máquina de sonhos, de alcance e eficácia estarrecedores. Não há nada de tranquilo ou discreto em seus textos. Seu impacto na mente do leitor é selvagemente e assustadoramente brutal, bem como perigosamente vagarosa para dissipar-se. A releitura não produz nenhuma alteração notável nessa impressão, até que acabamos nos perguntando: como ele consegue?

No caso específico de H. P. Lovecraft não há nada de ridículo ou ofensivo nessa pergunta. Na verdade, o que há de distintivo em sua obra em relação a uma obra “normal” de literatura é que seus discípulos podem sentir-se capazes, pelo menos em teoria, através do uso judicioso dos mesmos ingredientes indicados pelo mestre, de obter resultados de qualidade comparável ou superior.

Ninguém jamais considerou seriamente a idéia de dar continuidade à obra de Proust, mas a obra de Lovecraft sim. E não se tratam de obras secundárias apresentadas como homenagem, nem tampouco de paródias: representam verdadeira continuação, e portanto caso único na história da literatura contemporânea.

Não apenas isso: o papel de gerador de sonhos assumido por Lovecraft não se limita apenas à literatura. Sua obra, pelo menos na mesma medida em que a de Robert E. Howard (embora de modo menos evidente), tem sido fator preponderante na renascença da ilustração de fantasia. Até mesmo a música rock, normalmente tão suspeitosa de tudo que é literário, fez questão de prestar-lhe homenagem – homenagem, pode-se dizer, prestada de um grande poder a outro, de uma a outra mitologia. Quanto às implicações da obra de Lovecraft nos domínios da arquitetura e do cinema, estas serão imediamente aparentes para o leitor atento. Trata-se da construção de um novo mundo.

Daí a importância dos materiais e das técnicas de construção: a fim de prolongar o impacto.

Michel Houellebecq
H. P. Lovecraft: Against the World, Against Life

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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