Essas histórias • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de agosto de 2009

Essas histórias

Estocado em Manuscritos

81

Essas histórias que comecei a escrever e não cheguei a concluir são a representação fiel e rigorosa da minha própria história. Por quase três décadas permaneci inteiramente enamorado pela minha incompletude.

Borges confessou uma vez que quando jovenzinho achava coisa muito importante ser tímido; a isso, que tenho em comum com ele, devo acrescentar que achava coisa muito importante ser indistinto — livre de qualquer meta, rumo ou definição que excluísse as alternativas. Concentrava os esforços em manter-me genérico, fazendo malabarismos para contornar as decisões inapeláveis. Meu único verdadeiro compasso moral era minha diretriz subconsciente de não escolher destino algum.

Tive desde sempre uma vida interior absurdamente povoada. Nos recintos fechados do arbítrio eu reconhecia e perseguia a vocação de escritor, mas isso sentido estrito de quem escreve livros. Nunca me ocorreria, evidentemente, ceder ao incômodo ou à indignidade de publicá-los. Escrevia febrilmente, de quatro a cinco horas por dia, mas não mostrava os resultados a quem quer que seja.

Criava incessantemente histórias, personagens e tramas. Desenhava histórias em quadrinhos, dava início a romances de ficção científica, fantasia e aventura, esboçava contos de terror e novelas de detetive; escrevia música para orquestra e fazia mixagens (precárias) de trilhas sonoras; compunha o libreto, registrava a história e dava forma a árias de óperas perdidas que nunca existiram.

Isso tudo antes dos dezessete anos, e disso ninguém ficou sabendo.

Em retrospecto, vejo claramente que a outra pessoa teria ocorrido repartir esses esforços (ou pelo menos mencionar esses planos) diante de amigos e familiares.

Não a mim. Minha timidez e minha diretriz de indefinição exigiam de mim esses rigores. Ninguém podia saber o que eu estava fazendo, ninguém podia tocar o meu mundo, ninguém podia ler as minhas coisas — e os que tentaram contemplaram o dia da ira.

Ninguém podia conhecer os meus planos, porque meus planos eram concluí-los sem que ninguém ficasse sabendo.

Essa era, no meu modo de ver as coisas, uma dureza necessária. Se eu não defendesse a minha precariedade, ninguém mais o faria por mim. Ao contrário: o mundo era mau, e me pressionava a ceder a escolhas. Com inclemência cada vez maior, os outros exigiam que eu desse a mim mesmo o que jamais daria voluntariamente a ninguém: limites que me definissem.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas adverte: isso não vai ficar assim