Enquanto isso existe • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de março de 2010

Enquanto isso existe

Estocado em Manuscritos



Naquela última noite ele passou mais tempo me mostrando vídeos do youtube no laptop do que fazendo amor comigo, e achei que era porque logo aquilo ia acabar para sempre. Pensei: ele está querendo repartir comigo o que é importante pra ele enquanto isso existe, e achei aquilo de uma doçura sem fim.

Agora penso diferente.

Eu havia sido relocada para a Argentina e ele para Minas Gerais, mas nosso plano sempre tinha sido comparecer a um escritório da Fachada e requerer uma relocação conjunta. Não era coisa fácil de se conseguir, a mínima alteração nos planos do Ajuste, mas eu tinha os contatos certos e sabia onde pressionar. E havíamos combinado que iríamos conseguir porque iríamos tentar.

Então, quando faltavam duas semanas de prazo para a apelação e as filas já eram intermináveis e as senhas eram vendidas descaradamente no Mercado Livre, ele parou de atender o celular. Ficava tocando até a voz da morta dizer para eu deixar a mensagem sujeita à cobrança, e se eu deixava ou não recado não parecia fazer diferença. Na empresa, de onde ele já tinha saído há dias (disso eu sabia), ninguém sabia dele.

Ele também não aparecia no messenger e não respondia meus e-mails, e tínhamos combinado que ele me pegaria em Congonhas naquele sábado para corrermos atrás da apelação. Mas o sábado foi chegando e passou sem qualquer notícia e sem resposta.

Então, na terça-feira seguinte, quando eu estava esperando para ser atendida no salão e ficava enquanto isso tentando o celular dele, o homem que eu ainda amava mandou uma mensagem de texto, em inglês como sempre fazia quando não tinha coragem de dizer o que queria: POR FAVOR, ENCONTREI ALGUÉM.

Só isso.

Liguei imediatamente mas ele não respondeu, nem quando tentei mais tarde. Passei a semana seguinte lendo o Manual, puxando tudo que conseguia da web antes que tudo caísse, e durante a noite remoía nosso último final de semana, aquele em que não saímos do hotel.

Passei a encontrar na lembrança daqueles dois dias todos os sinais, todos muito inequívocos, de que ele ia me deixar. O que eu havia interpretado como doçura tinha sido na verdade hesitação. O que eu tinha lido como introspecção diante de um futuro incerto tinha sido na verdade culpa. E eu, burra, tinha deixado tudo passar.

E todas as vezes que fechava os olhos só conseguia enxergar o cara abrindo a porta do quarto do hotel para saírmos juntos naquela última manhã, porta-ternos na mão, absolutamente vivo e vital, absolutamente irresistível, agora absolutamente distante.

Meu amor foi minguando e reduziu-se ao ritual de tentar ligar no celular dele uma vez por dia, perto da hora do almoço, na esperança de obter alguma satisfação. Eu na verdade precisava ouvir a voz dele; sabia que a ainda o idealizava e só a crueldade dele podia me ajudar a desconstruir essa imagem. Até para me livrar dele eu precisava dele.

Liguei na pizzaria com a Fran, no dia em que ela me ajudou a preparar a mochila. Liguei da casa dos meus pais, no último domingo em que passamos juntos. Liguei no aeroporto e liguei no primeiro dia em Buenos Aires, para contar do apartamento.

Então parei de tentar. Passei a fazer a minha parte na burocracia da reformulação e só.

Creio que eu estava aqui há já três semanas quando derrubaram a internet definitivamente, depois de uma dezena de alarmes falsos, e correu no mesmo dia a notícia de que em cinco ou seis dias todos os satélites estariam no chão. Naquela mesma hora peguei o celular da bolsa e liguei, mesmo sabendo que as linhas estariam sobrecarregadas, mesmo sabendo que ele não atenderia e que talvez tivesse bloqueado o meu número, e na primeira tentativa a ligação passou.

Tocou duas vezes e ele — certamente não se dando ao trabalho de ver quem estava ligando — disse, “oi, amor”, na voz cheia de cumplicidade que havia certa ocasião dedicado a mim. E eu: “acho que não é quem você está pensando”.

Ele respirou uma vez e, sem acrescentar nada, desligou.

Ruborizei na hora e apaguei imediatamente o número dele da memória do celular, absolutamente chocada, absolutamente envergonhada — não por mim, mas por ele. Sentia-me inteiramente constrangida por tê-lo levado ao constrangimento de desligar na minha cara, e apagar meu último elo de ligação com ele foi um último e necessariamente ridículo gesto de amor.

Joguei o celular para longe e comecei a chorar pela primeira vez desde aquele primeiro silêncio no Brasil, de alívio e de absoluto terror, porque estava livre dele e porque estava livre dele.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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