Enoque, governante e mestre • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de abril de 2008

Enoque, governante e mestre

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AS DEZ GERAÇÕES: Enoque, governante e mestre

Depois de viver por um longo tempo afastado dos homens, Enoque ouviu certa ocasião um anjo que o chamava:

— Enoque, Enoque, prepare-se e abandone a casa e o lugar secreto em que você tem se escondido, e assuma autoridade sobre os homens, para ensinar-lhes os caminhos em que devem andar e as obras que devem praticar a fim de viverem em conformidade com Deus.

Enoque abandonou sua reclusão e foi até aos locais freqüentados pelos homens, juntou-os ao redor de sim e instruiu-os na conduta agradável a Deus. Mandou mensageiros a todos os lugares para anunciar: “Vocês que desejam conhecer os caminhos de Deus e uma conduta íntegra, venham até Enoque!”

Por causa disso um vasto número de pessoas congregou-se ao redor dele, a fim de ouvirem a sabedoria que ele estava pronto a ensinar e aprenderem da sua boca o que é certo e errado. Até mesmo reis e príncipes, nada menos do que trinta deles, uniram-se a Enoque e submeteram-se à sua autoridade, para serem ensinados e guiados por ele da mesma forma que ele ensinava e guiava os demais.

Dessa forma a paz reinou sobre o mundo durante os duzentos e quarenta e três anos em que a influência de Enoque prevaleceu.

Ao final desse período, no ano em que Adão morreu e foi enterrado com grandes honras por Sete, Enos, Enoque e Matusalém, Enoque resolveu retirar-se novamente da convivência dos homens e devotar-se exclusivamente ao serviço de Deus. Ele porém recolheu-se gradualmente: no começo ele passava três dias em oração e louvor a Deus, e no quarto dia voltava até seus discípulos e oferecia-lhes instrução. Muitos anos se passaram dessa forma: ele passou a vê-los uma vez por semana, depois uma vez por mês e finalmente um vez por ano.

Os reis, príncipes e todos os outros que ansiavam por ver Enoque e ouvir suas palavras não ousavam aproximar-se dele durante os seus períodos de recolhimento. Tamanha era a majestade que descia sobre seu rosto que eles não olhavam para ele, temendo por suas vidas. Eles portanto decidiram que todos os homens deveriam apresentar suas questões diante de Enoque no dia em que ele aparecesse entre eles.

Era poderosa a a impressão deixada pelo ensino de Enoque sobre os que o ouviam. Prostravam-se todos diante dele e exclamavam:

— Longa vida ao rei! Longa vida ao rei!

Certo dia, enquanto Enoque dava audiências a seus seguidores, um anjo apareceu e lhe fez saber que Deus havia decidido estabelecê-lo como rei sobre todos os anjos da terra, já que até aquele momento ele havia reinado sobre homens. Enoque convocou todos os habitantes da terra e disse-lhes assim:

— Fui chamado para subir ao ceu, e não sei o dia em que deverei ir para lá. Irei portanto ensiná-los sabedoria e integridade até a hora de partir.

Mais alguns dias Enoque passou entre os homens, e durante todo o tempo que lhe restou deu-lhes instrução referente à sabedoria, ao conhecimento, a uma conduta de temor a Deus e à devoção, e estabeleceu lei e ordem para regulamentar as relações humanas. Então os que estavam reunidos ao seu redor viram um gigantesco corcel descer do céu, e falaram dele a Enoque, que respondeu:

— Este cavalo é para mim, pois chegou o dia e a hora de eu deixá-los para nunca mais ser visto.

E assim foi. O corcel aproximou-se de Enoque e ele montou, sem cessar ao mesmo tempo de instruir o povo, exortando-os e conclamando a que servissem a Deus e andassem em seus caminhos. Oitocentas mil pessoas seguiram-no ao longo de um dia inteiro; porém no segundo dia Enoque insistiu que seu séquito desse meia-volta:

— Vão para casa, para que a morte não lhes sobrevenha por me seguirem mais adiante.

A maioria deu ouvidos às suas palavras e deu meia-volta, mas alguns permaneceram com ele por seis dias, mesmo depois dele os ter advertido a voltarem para não morrerem. No sexto dia da jornada ele disse aos que o acompanhavam:

— Vão para casa, por que amanhã subirei ao céu, e qualquer um que estiver perto de mim morrerá.

Apesar disso alguns de seus companheiros permanecerem ao lado dele:

— Para onde você for nós iremos. Pelo Deus vivo, apenas a morte nos separará.

No sétimo dia Enoque foi levado ao céu numa carruagem de fogo puxada por cavalos flamejantes. No dia seguinte os reis que haviam dado meia-volta a tempo mandaram mensageiros para inquirir o destino dos homens que haviam se recusado a separar-se de Enoque, pois tinham anotado quantos eram. No local a partir do qual Enoque havia ascendido eles encontraram neve e enormes pedras de granizo e, quando cavaram para procurar, acharam os corpos de todos que haviam ficado para trás com Enoque. Apenas Enoque não estava entre eles: estava no alto, no céu.

Foto Júlio Diniz

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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