Memérico Vespúcio [1]

O florentino que deu o nome de «de todos os Santos» à Bahia era bom em nomear as coisas; deu também, sem querer, dois nomes ao novo continente: América e Novo Mundo. Enviado em 1501 pelo rei de Portugal para sondar as terras descobertas por Cabral, Américo Vespúcio escreveu sobre suas expedições cartas que foram traduzidas em diversas línguas e tornaram-se incrivelmente populares.

Episódio 7:
Fortuna e glória

 

– Em pé no alto da construção, Miro Valhacouto perscruta a paisagem, erguendo o olhar da esplanada estéril até a selva circundante. Valhacouto pode ser o mais prestigiado especialista em desarmamento de hidrelétricas da União, mas está sempre pronto para recordar as suas origens.

– Toma – disse Genésio Casabranca, empurrando a caixa de metal pelo concreto até tocar a perna do outro.

– Nascido num quilombo do Catupiry, filho de um índio gaúcho com uma fazendeira do Xingu, Miro começa de baixo, desarmando mata-burros na fazenda do doutor Clory. Nos anos 90 ganha prestígio no Serestão desarmando argumentos de candidatos Continue lendo →

Manual de emergência do observador de catástrofes

A conspiração contra a raça humana (2010), de Thomas Ligotti, foi recebido como o livro mais pessimista de todos os tempos, tendo entre outros méritos inspirado os discursos do policial niilista da primeira temporada de True Detective. Thomas Ligotti é um escritor que me deixa otimista com relação às possibilidades da literatura de horror; seus textos de ficção, reunidos em outros livros, são a única coisa contemporânea que chegou até mim e se aproxima da vertigem que é Lovecraft.

Na qualidade de pessimista, no entanto, Ligotti tem ainda muito a aprender. Comigo.

Liminar

 

Minona Martins, em pé na soleira da porta, era um homem rechonchudo de camiseta, chinelo e calça pescador; era também um índio de cocar de penas, e apoiava o braço sobre o tacape como se fosse uma bengala.

– Você não faz ideia – ele disse ao jornalista dentro da casa, – o que é lutar por dez anos contra hordas invasoras quando as regras dizem que você pode morrer mas não pode matar. O seu direito de pedir justiça termina onde começa o direito do Império de te exterminar.

Estavam em território ocupado pelo Império Gaúcho no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Lá fora as fogueiras de pneu perfuravam a Continue lendo →

Jogo de pernada

 

– Uma alternativa que não te falei ainda – o italiano disse a Maiara – são relíquias. Temos que falar de relicários.

– Relicários – disse a índia, mas só para anular o ruído pelo método fogo contra fogo. Ela afastou o celular do ouvido. – Não adianta, o Simas não está atendendo o telefone. E agora acabaram os meus créditos.

– Então?

Maiara, que não tinha interesse maior do que saltar as partes da narrativa que não faziam a história avançar, estava irritadíssima. Olhou ao redor. Estavam na praia do Leme, na esperança que o tiroteio não os seguisse em lugar tão público.

– Não saia daqui – ela apontou Continue lendo →

Riodomar

 

O serestanejo Riodomar via qualquer assentamento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso desbaratar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma humanidade. Quando desceu na rodoviária e pisou o Sacrocondomínio de São Paulo, ao mesmo tempo testemunhava e lia sua própria história da descida aos infernos. Não Enéas, não Lampião: Riodomar. Era porém cravo temperado pelo Serestão: não ignorava que os infernos atraem com graça irresistível tudo que é humano, por isso devem ser entrados com a maior reverência. Não era à toa que andava descalço.

Esperava por Continue lendo →


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