Reforma

Se os anos 80 são a minha época, há dois lugares aos quais sempre volto – lugares que freqüentam os meus sonhos e que freqüento nos meus sonhos: Urubici e o velho edifício da igreja batista do Cajuru.

São destinos da minha infância, os dois, que vejo transmutados mas plenamente reconhecíveis em sonho por incontáveis noites na minha história. Meus sonhos com Urubici e com o prédio do Cajuru são sonhos de atmosfera, nos quais pouco efetivamente acontece, mais claramente caracterizados pela embriagante sensação de se estar num lugar acolhedor e assustadoramente rico em possibilidades.

Fiquei sabendo que a reforma no edifício Continue lendo →

Especially for you

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Um dia desses ouvi Especially for you (1988), um duetinho romântico cantado por Jason Donovan (quem quer que seja o sujeito) e uma ainda jovenzinha Kylie Minogue, e fui varrido – arrebatado, sugado, abduzido – de volta para os anos 80. Fui forçado a admitir que para mim Aqueles Dias são a irrecuperável, açucarada e idealista década de 1980.

Meu amigo Ivan ponderou certa vez que no paraíso encontraremos todas as melhores versões de nós mesmos, em todas as idades. Haverá ali diversos eus, por assim dizer: o bebê, a Continue lendo →

O Mundo Perdido, parte 2

Nada me interessa mais na viagem do que desenterrar da paisagem prédios, objetos e gestos devidamente não-contemporâneos, artigos esquecidos de um tempo mais são.

Essas marcas sólidas do passado sobrevivendo num insubstancial mundo contemporâneo trazem-me à mente, inevitavelmente, os sentimentos de Tolkien, que escreveu ao filho depois de uma visita que fez à sua cidade natal durante a Segunda Guerra:

Exceto por um desmoronamento medonho [a cidade] não parece muito danificada: não pelo inimigo. O dano principal foi causado pelo crescimento de insípidos edifícios modernos desprovidos de qualquer característica notável.

Lembranças a Doré

Esbarramo-nos, eu e o inesgotável Luiz Fernando Farah, num pacato lugar da net que basicamente desonra discute a obra irretocável de Jorge Luis Borges. Ainda não estive pessoalmente diante das suas barbas aparadas, mas já sei sobre o Luiz o fundamental: que gosta de Borges, que esteve em Urubici e joga de vez em quando uma oferta na Bacia.

Nesse curto vai-e-vem virtual escavamos afinidades adicionais, celebramos Monteiro Lobato, ele me apresentou a Robert Heinlein, e o próprio Luiz lembrou que é feliz possuidor de uma das minhas mais caras memórias: a edição das fábulas de La Fontaine ilustrada por Gustave Doré que eu gostava Continue lendo →

A integridade das coisas

J. R. R. Tolkien (e quero enfatizar sempre isso, eu que prefiro casas velhas de madeira) desconfiava da modernidade tanto quanto da democracia. Ele acreditava que, do mesmo modo que a democracia radical (todos os homens são iguais) era uma afronta ao que ele cria ser o caráter único do indivíduo (todos os homens são únicos e infinitamente distintos), a obsessão com a tecnologia mecanizava a alma da humanidade.

Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média.

Em 1955, numa entrevista, um repórter de Nova Iorque perguntou a Tolkien o que o fazia clicar [gíria da língua inglesa para “motivar, tocar intensamente”]. “Eu não clico”, respondeu Tolkien, Continue lendo →


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