Tá vendo

Outro dia eu estava jogando de bola com o Arthur, que andou tendo umas aulas com o Dinho e já chuta melhor do que eu (o que, neste caso específico, não é tão notável assim).

– Nossa, que chutão, cara! – eu disse em determinado momento, e era verdade.

Segundos depois foi a vez dele me elogiar (não era verdade):

Nossa, que chutão, cara! – ele disse.

E, dois segundos depois, como se eu não estivesse realmente prestando a devida atenção:

– Tá vendo como eu também falo cara?

Dicionário do Arthur (atualizado)

O Arthur, meu sobrinho via Hélião, não diz problema, diz poguêma.
Ele não diz mortadela, diz umbrella.
Ele não diz lavanderia, diz vandelinha.
Ele não diz maternal, diz martenal.
Ele não diz dedo mínimo, diz nimo, ou (só para tocar horror) tchitcho.
Ele não diz jogar bola, diz jogar de bola.
Ele não diz Papai Hélio, diz Pélio.
Ele não Continue lendo →

Sem noção

Tudo bem, então. Deixe-me reassumir a minha missão civilizatória antes que o mundo afunde novamente num caos informe de trevas completas.

Alguém talvez lembre que eu já me perguntei anteriormente se algum gênio teria percebido antes de mim que a gíria é uma espécie espontânea e revigorante de poesia popular. Naturalmente, alguém percebeu.

Em 1892 o rebelde poeta americano Walt Whitman, celebrado autor de Leaves of Grass, descreveu a gíria como “um arranque de fantasia imaginação e humor, soprando em suas narinas o sopro da vida” e espalhando “riquíssimos flashes de humor e genialidade e poesia”.

O “sopro Continue lendo →

Em inglês

Todos na família do Hélio sabem que o Arthur é bilingüe; desde o primeiro dia o pai só fala com ele inglês (e, espera-se, todo o resto de nós em português). De vez em quando o menino troca uma ou outra palavra em inglês comigo mas, na maior parte das vezes, quando outra pessoa tenta ele se fecha.

Quando o Roger, por exemplo, tentou puxar esse papo, ele emburrou:

– O Arthur não vai talk em inglês com o tio Roger.

Mais engraçado foi o dia em que a Letízia (onze anos, filha da Lúcia e do Roger, prima dele), exigiu:

– Arthur, diz “amarelo” em inglês.

– Amarelo em inglês – ele disse.


Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas adverte: desta vida tudo se leva