Duzentas gramas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de março de 2006

Duzentas gramas

Estocado em Gírias e Falares

Meu amigo Hélio, que é pai do Arthur e diz sonoramente trêss e déss (ao invés de, digamos, “trêis” e “déis”) fica indignado quando peço na padaria duzentas gramas de presunto – quando a forma correta, insiste ele, é “duzentos” gramas.

Sempre que acontece e estamos juntos acabamos discutindo uns dez minutos sobre modos diferentes de falar. Ele de praxe argumenta que as regras de pronúncia e ortografia, se existem, devem ser obedecidas – e que os mais cultos (como eu, um cara que traduz livros!) devem insistir na forma correta a fim de esclacerecer e encaminhar gente menos iluminada, como supõe-se seja a moça que me vende na padaria o presunto e o queijo.

Eu sempre argumento que quando ele diz que só existe uma forma correta de falar está usurpando um termo de outro ramo, e tentando aplicar a ética à gramática: como se falar “corretamente” implicasse em algum grau de correção moral; como se dizer “duzentas” gramas fosse incorrer numa falha de caráter e dizer “duzentos” fosse prova de virtude e integridade.

Ele vem então com aquela de que a moça da padaria talvez seja desculpável, por desconhecer a norma culta, mas eu, que a conheço, estou sim demonstrando uma falha de caráter ao ignorá-la em benefício dos outros – só para evitar o constrangimento de falar diferente. Quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado, aquela história.

Eu reconheço, finalmente, que falo de forma diferente dependendo de com quem estou falando, ou até mesmo do meu humor. Às vezes uso deliberadamente formas controversas/incultas como tentêmo ou ir ir porque intuo que são soluções não isentas de charme, especialmente na linguagem falada – e se recorremos a elas com simpatia e assombro infantis e sem sarcasmo e desprezo de gente grande. Pelo mesmo motivo, todas as gírias e dialetos locais me interessam.

Não que – por exemplo – a decisão de dizer “duzentas gramas” ao invés de “duzentos” seja consciente, uma premeditação de inclusão social. Só sou lembrado de que há algo de peculiar nela quando o Hélio está perto. Como descobri quando tive de falar inglês com meu amigo britânico Julian ao invés de teclar com ele no messenger, as línguas falada e a escrita são domínios inteiramente diversos, habitam universos que raramente se cruzam e utilizam recursos diferentes do cérebro. São dois pesos, duas medidas e pesam pelo menos setecentas gramas cada.

Tudo tomado, sou pós-moderno o bastante para acreditar que a “verdade” gramatical definitiva é uma ilusão ou uma curiosidade (onde está a Norma para me acusar de relativismo quando preciso dela?) e que as línguas que não mudam são as mortas.

Algumas vezes, portanto, a coisa certa a se fazer é ignorar a Norma, ou pervertê-la. Enquanto isso, gente querida como o Hélio balança a cabeça em reprovação quando me assento na roda desses escarnecedores.

Quando peço “duzentas gramas de presunto, por favor”, a moça da padaria invariavelmente repete, como que para extorquir minha profissão de fé à norma inculta e provocar o Hélio:

– DUZENTAS?

– Duzentas – eu confirmo, já meio arrependido, mas caindo ainda assim em tentação.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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