Dos enigmas da serpente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de agosto de 2008

Dos enigmas da serpente

Estocado em Manuscritos

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Dos enigmas da serpente, o menor não será este: o fato de que, em termos dramáticos, sua presença na história é inteiramente desnecessária. Não há como enfatizar demais esse ponto: como narrativa, a história da Queda prescinde da serpente.

Adão e Eva não precisam de uma nova intervenção para terem sua atenção chamada para a árvore fatal; outro personagem já havia feito isso, no momento em que deitara a interdição e colocara em movimento o conflito. Não precisam da serpente para lembrá-los de quanto é atraente a árvore e curto o espaço que os separam dela, porque Eva será capaz de percebê-lo por si mesma quando a hora chegar.

Não é preciso ir muito longe para imaginar uma versão da história em que Adão e Eva tropecem na árvore por si mesmos, e sejam ofuscados — por meio da proibição, que está agora continuamente com eles — pelo eloqüente chamado do fruto proibido. Eles dobram-se ao conflito e são encontrados por Deus, que exclama um sentido “porque fizeram o que eu mandei que não fizessem?” e toma as providências que julga necessárias.

Em termos narrativos a proibição é sempre atração suficiente. João e Maria não precisam de um tentador para se embrenharem na floresta; Prometeu não precisa de convencimento para entender o brilho do fogo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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