Do culto aos livros • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de agosto de 2006

Do culto aos livros

Estocado em Traduzindo Borges

No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem adversidades para que às gerações futuras não falte algo que cantar; a declaração de Mallarmé, “o mundo existe para chegar a um livro”, parece repetir, uns trinta séculos depois, o mesmo conceito de uma justificação estética dos males. As duas teologias, no entanto, não coincidem integralmente; a do grego corresponde à da época da palavra oral; à do francês, à época da palavra escrita. Numa se fala de contar, na outra em livros. Um livro, qualquer livro, é para nós um objeto sagrado: já Cervantes, que talvez não escutasse tudo que lhe diziam as pessoas, lia até “os papéis amassados das ruas”. O fogo, numa das comédias de Bernard Shaw, ameaça a biblioteca de Alexandria; alguém exclama que arderá a memória da humanidade, e César lhe diz: Deixe que queime. É uma memória vergonhosa. O César histórico, em minha opinião, aprovaria ou condenaria a sentença que o autor lhe atribui, mas não o julgaria, como nós, uma piada sacrílega. A razão é clara: para os antigos a palavra escrita não era outra coisa que um sucedâneo da palavra oral.

É notório que Pitágoras não escreveu; Gomperz (Griechischeker Denker, I, 3) defende que ele agiu assim por ter mais fé na virtude da instrução da palavra falada. De mais peso que a mera abstenção de Pitágoras é o testemunho inequívoco de Platão. Este no Timeu afirmou: “Dura é a tarefa de descobrir o fazedor e pai deste universo e, uma vez descoberto, é impossível anunciá-lo a todos os homens,” e no Fedro narrou uma parábola egípcia contra a escrita (cujo hábito faz com que as pessoas descuidem do exercício da memória e dependam de símbolos), e disse que os livros são como figuras pintadas, “que parecem vivas, mas não contestam uma palavra às perguntas que lhes fazem”. Para atenuar ou eliminar este inconveniente ele imaginou o diálogo filosófico. O mestre elege o discípulo, mas o livro não elege seus leitores, que podem se malvados ou estúpidos; este receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria, homem de cultura pagã: “O mais prudente é não escrever, mas aprender e ensinar de viva voz, porque o escrito decai” (Stromateis), e estas do mesmo tratado: “Escrever num livro todas as coisas é deixar uma espada nas mãos de uma criança”; que derivam por sua vez das evangélicas: “Não dêem aos cães as coisas santas, nem atirem pérolas diante dos porcos, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, os despedacem”. Esta sentença é de Jesus, o maior dos mestres orais, que uma única vez escreveu umas palavras na terra e não as leu homem algum (João 8:6).

Clemente de Alexandria escreveu seu receio da escrita no final do século II; no final do século IV iniciou-se o processo mental que, com o passar de muitas gerações, culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada, da pena sobre a voz. Um admirável acidente quis que um escritor fixasse o instante (mal exagero ao chamá-lo de instante) em que teve início o vasto processo. Conta Santo Agostinho, no livro seis das Confissões: “Quando Ambrósio lia, passava a vista sobre as páginas, penetrando sua alma no sentido do texto sem proferir uma palavra nem mover a língua. Muitas vezes – pois a ninguém proibia de entrar, nem tinha o costume de pedir que anunciassem quem chegava, – vimo-lo ler silenciosamente e nunca de outro modo, e ao fim de um intervalo partíamos, conjecturando que aquele breve intervalo que se lhe concedia para reparar seu espírito, livre do tumulto dos negócios alheios, não queria ter ocupado com outra coisa, talvez receoso de que um ouvinte, atento às dificuldades do texto, lhe pedisse a explicação de uma passagem obscura ou quisesse discutir com ele, diante do que não poderia ler tantos volumes quanto desejava. Entendo que ele lia desse modo para conservar a voz, que escapava-lhe com facilidade. Em todo caso, qualquer que fosse o propósito de um homem como aquele, era sem dúvida bom”. Santo Agostinho foi discípulo de São Ambrósio, bispo de Milão, até o ano 384; três anos depois, em Numídia, redigiu suas Confissões e ainda o inquietava aquele singular espetáculo: um homem num aposento, com um livro, lendo sem articular as palavras.

Aquele homem passava diretamente do sinal escrito à intuição, omitindo o signo sonoro; a estranha arte que se iniciava, a arte de ler em voz baixa, conduziria a conseqüências maravilhosas. Conduziria, passados muitos anos, ao conceito do livro como fim, não como instrumento de um fim. (Este conceito místico, trasladado à literatura profana, daria os singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé, de Henry James e de James Joyce.) À noção de um Deus que fala aos homens para ordenar-lhes algo ou proibir-lhes algo sobrepõe-se a do Livro Absoluto, a de uma Escritura Sagrada. Para os muçulmanos, o “Alcorão” (também chamado de O Livro, Al Kitab), não é uma mera obra de Deus, como as almas dos homens ou o universo; é um dos atributos de Deus, como sua eternidade ou sua ira. No capítulo XIII lemos que o texto original, A Mãe do Livro, está depositado no céu. Muhammad-al-Ghazali, o Algazel dos escolásticos, declarou: “o Alcorão se copia num livro, se pronuncia com a língua, se recorda no coração e no entanto segue perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas ou pelos entendimentos humanos”. George Sale observa que esse não-criado Alcorão não é outra coisa que sua idéia ou arquétipo platônico; é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos, comunicados ao Islam pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena, para justificar a noção da Mãe do Livro.

“A história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos de forma vacilante, e na qual também somos escritos”.

Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. No primeiro capítulo de sua Bíblia é pronunciada a sentença famosa: “E Deus disse: haja luz, e houve luz”; os cabalistas raciocinaram que a virtude dessa ordem do Senhor procedeu das letras das palavras. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação), redigido na Síria ou na Palestina em meados do século VI, revela que Jeová dos Exércitos, Deus de Israel e Deus Todo-poderoso, criou o universo através dos numeros cardeais que vão de um a dez e das vinte e duas letras do alfabeto. Que os números sejam instrumentos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico; que as letras o sejam é claro indício do novo culto da escrita. O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: “Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as, gravou-as, combinou-as, pesou-as, permutou-as e com elas produziu tudo que é e tudo que será”. Logo se revela que a letra tem poder sobre o ar, e este sobre a água, e esta sobre o fogo, e este sobre a sabedoria, e esta sobre a paz, e esta sobre a graça, e esta sobre o sonho, e este sobre a cólera, e como (por exemplo) a letra kaf, que tem poder sobre a vida, serviu para formar o sol no mundo, a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo.

Mais longe foram os cristãos. A idéia de que a divindade havia escrito um livro moveu-os a imaginar que havia escrito dois, e que o outro era o universo. A princípios do século XVII Francis Bacon declarou em seu Advancement of Learning que Deus nos oferecia dois livros, para que não incidíssemos em erro: o primeiro, o volume das Escrituras, que revela sua vontade; o segundo, o volume das criaturas, que revela seu poderio, e que este era a chave daquele. Bacon se propunha a muito mais do que fazer uma metáfora; opinava que o mundo era reduzível a formas essenciais (temperaturas, densidades, pesos, cores) que integravam, em número limitado, um abecedarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. Sir Thomas Browne , em cerca de 1642, confirmou: “Dois são os livros de que aprendo teologia: da Sagrada Escritura e daquele universal e público manuscrito que está patente a todos os olhos. Os que nunca o viram no primeiro descobriram-no no outro (Religio Medici, I, 16). No mesmo parágrafo se lê: “Todas as coisas são artificiais, porque a natureza é a arte de Deus”. Duzentos anos transcorreram e o escocês Carlyle, em diversos lugares de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro, superou a conjectura de Bacon; registrou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos de forma vacilante, e na qual também somos escritos. Depois León Bloy escreveu: “Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo, a que correspondem seus atos, seus sentimentos, suas idéias, nem qual é seu verdadeiro nome, seu imperecível Nome no registro da Luz… A história é um imenso texto litúrgico, onde as vírgulas e pontos não valem menos do que os versículos ou capítulos inteiros, mas a importância de uns e de outros é indeterminável e profundamente escondida” (L’Ame de Napoléon, 1912). O mundo, segundo Mallarmé, existe para um livro; segundo Bloy, somos versículos ou palavras ou letras de um livro mágico, e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo; é, melhor dizendo, o mundo.

Buenos Aires, 1951

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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