Diante da angústia desse temor, o homem renuncia às suas terras • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de agosto de 2015

Diante da angústia desse temor, o homem renuncia às suas terras

Estocado em Goiabas Roubadas

Havia em Israel um rei, Acabe, e um pobre chamado Nabote. O primeiro possuía em abundância as riquezas do reino, o segundo tinha um pequeníssimo pedaço de terra. O pobre não desejava coisa alguma da propriedade do rico; o rei, no entanto, sentia que lhe faltava alguma coisa, porque o vizinho pobre tinha uma plantação de uvas.

Qual dos dois, agora, lhe parece o verdadeiro pobre? O que está satisfeito com o que possui ou o que anseia pelas coisas alheias? Certo é quem um dos dois é pobre de riquezas, o outro é pobre de alma. Uma alma rica não conhece a indigência, enquanto a riqueza abundante não é capaz de saciar o coração do ávido. E desse modo o rico se mostra ávido, invejando a posse alheia e lamentando-se da própria pobreza.

A história de Nabote é tão antiga quanto o tempo, mas em sua aplicação é quotidiana. Qual é o rico que não anseia avidamente, todos os dias, por bens alheios? Qual é o poderoso que não almeja privar o pobre do seu roçado e expulsar o miserável dos confins de sua terra ancestral? Quem chega a estar satisfeito com o que possui? A alma do rico não é por acaso inflamada pelo desejo de possuir o bem do próximo?

Portanto de Acabe não nasceu apenas um. É pior: a cada dia nasce um Acabe e não morre jamais neste mundo. Quando morre um surgem outros muitíssimos, e são mais numerosos os que roubam do que os que sofrem o furto.

Tampouco Nabote é o único pobre a ter sido assassinado; a cada dia tomba um Nabote, a cada dia um pobre é assassinado.

Diante da angústia desse temor, o homem renuncia às suas terras. O pobre, carregando o penhor do seu afeto, emigra com os filhinhos, e a mulher o segue chorando, como se acompanhasse o marido ao sepulcro.

Na realidade se desespera menos a mulher que chora a morte dos seus queridos, porque mesmo que tenha perdido a ajuda do marido, possui dele ao menos a sepultura; se não tem mais filhos, não tem de sofrer pelo exílio deles, não é afligida pela fome da terna prole, dor mais insuportável do que a própria perda dos filhos.

Ambrósio de Milão (337-397 d.C.) em A história de Nabote

 

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