Deducant • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de fevereiro de 2007

Deducant

Estocado em Manuscritos

Páro o carro no estacionamento da aduana, de frente para as filas intermináveis que brotam dos teleféricos da Catraca e sobem a pé pela Avenida Ellis. Caminhando sem assombro na moldura das flâmulas reluzentes, mais como visitantes numa fábrica do que como prisioneiros num campo de concentração, os recém-chegados são conduzidos ordeiramente por voluntários sorridentes aos terminais de encaminhamento: dezenas de pálios coloridos sob os quais aguardam cadeiras de praia, coquetéis de fruta, colares de orquídeas e oficiais descalços empunhando seus palmtops. É nos terminais que os ingressantes escolhem seus destinos, seus bens, suas marcas de carro, seus guarda-roupas, seus apartamentos, sendo informados não apenas de que apropriar-se-ão imediatamente de cada um desses itens, mas de que poderão optar por uma nova combinação deles quando e quantas vezes acharem por bem.

Da borda gramada do penhasco que delimita um dos lados do estacionamento descortina-se a paisagem cinza do Delta, com suas próprias filas, procedimentos e guichês. Quem chega às fileiras de terminais da Avenida Ellis já passou lá embaixo pelas bocas abertas dos postos de coleta, recebeu o abraço dos guichês e submeteu-se ao exame das máquinas de raio X.

Diante da convincente eficiência dessa organização ninguém na fluida multidão de ingressantes tem como saber que houve tempo (um tempo muito anterior à minha própria chegada) em que a segurança do céu não era tão rígida. Mais correto seria dizer que inexistia.

Os postos de coleta na orla externa do Delta, nos quais os ingressantes deitam anonimamente as lembranças que não querem levar consigo céu adentro, são tão antigos quanto a humanidade; foram remodelados uma meia dúzia de vezes para acomodar o fluxo crescente de recém-chegados, mas o procedimento e seu mecanismo subterrâneo permanecem essencialmente os mesmos desde a Queda.

Os guichês, as câmeras de monitoramento e a passagem pela máquina de raios X são, por outro lado, adições relativamente recentes à economia da aduana e à história do paraíso. Durante a maior parte da eternidade a Catraca não existiu, o comitê aduaneiro não tratou de assuntos de segurança e os pavilhões de encaminhamento espraiavam-se lá embaixo no próprio Delta, junto às estações dos teleféricos. As maiúsculas de ouro na efígie de um imenso portal anunciavam In paradisum deducant te angeli: Conduzam-te os anjos ao paraíso.

Até que houve o Incidente.

Bato a porta do carro e começo a caminhar a passos largos na direção do Edifício de Segurança, cuja entrada fica na orla do desfiladeiro, junto à saída dos teleféricos. Em algum lugar do segundo andar do prédio está meu escritório, imóvel entre estantes e xilogravuras, mas não é para lá que estou indo. Longe disso.

Muitas coisas a respeito do Incidente, talvez a maior parte, permanecem sem explicação. O certo é que foi de alguma forma violada a única verdadeira proibição imposta sobre os candidatos ao céu desde o início dos tempos. Essa regra singular determina que o ingressante é livre para levar consigo para o interior do paraíso o que quiser, menos qualquer tipo de lâmina afiada ou arma branca. Por alguma razão cuja primeira origem perdeu-se no tempo ou no arbítrio da divindade, os recém-chegados podem ingressar trazendo ferramentas, roupas, fotografias, quadros, aparelhos elétricos, fósforos, baralhos, bengalas, bebidas, amuletos, cigarros, imagens, entorpecentes, até mesmo (depois que foram inventadas) armas de fogo – mas nunca espadas, punhais, facas, tesouras, adagas, navalhas, estiletes ou o que os valha.

Até o Incidente acreditava-se, na verdade, que era não apenas proibido, mas impossível entrar-se no céu com qualquer uma dessas coisas. Facas e espadas eram irresistivelmente deitadas nas fendas dos postos de coleta, mesmo pelos que escolhiam adentrar o paraíso levando todo o resto.

Naquela tarde, quando um lituano baixinho e de olhos inquietos desembarcou do bondinho com um bisturi nas mãos ensangüentadas, ninguém soube dizer como ele havia feito para burlar a norma – e o homenzinho correu para o inferno antes de poder contar. Até hoje supõe-se que ele tenha trazido a lâmina escondida na própria carne, mas se agiu deliberadamente, como fez para remover o bisturi da batata da perna ou porquê decidiu usá-lo como arma são interrogações que permanecem sem ponto final.

A multidão na Avenida Ellis, contam as testemunhas, abriu-se incrédula diante do homenzinho e de seu bisturi, como se ele fosse um cirurgião que operava à distância, mas dentre todos o próprio lituano era o único que parecia sentir-se realmente ameaçado. Todos concordam que aconteceu muito rápido. Um anjo aproximou-se com as mãos espalmadas para tentar acalmar o sujeito; o homem golpeou ameaçadoramente com o seu bisturi, e todos no céu descobriram imediatamente o que ninguém havia imaginado: no céu nenhum ser humano pode ser ferido ou morrer, mas os anjos são – ou, para ser mais exato, eram – tremendamente vulneráveis.

Saúdam-me os voluntários no saguão do prédio, mas sigo adiante, ignorando os elevadores e congratulando-me de não ter sido visto por um oficial. Desapareço atrás da porta de ferro dos fundos e desço três lances de escada; numa sala de manutenção em que há mais tubulações do que espaço livre tomo um elevador de serviço e começo a descida, desfiladeiro adentro, até o nível do Delta.

O bisturi do lituano matou o anjo da Avenida Ellis e no mesmo momento morreram em solidariedade a ele todos os anjos do paraíso. Desabaram cinzentos e úmidos, como pombas abatidas, em meio ao que estavam fazendo. Não restou sequer um: vivemos hoje no céu sem anjos, e Deus absteve-se de comentar ou de fazer outros.

Uma mulher de lenço na cabeça arrancou o bisturi dos dedos apertados do assassino e entregou o instrumento a um oficial aduaneiro que tremia. O sangue do anjo tingiu de mercúrio o asfalto, consumiu do chão as manchas do sangue do lituano e em seguida evaporou em pleno ar. O anjo foi velado no saguão do Bureau e enterrado sob um monumento ornamentado com seis imensas asas de pedra; seus companheiros ao redor de todo o paraíso tiveram destino semelhante. São raras as praças do paraíso em que não há num canto um cinzento mausoléu aos anjos. Muitos desses monumentos tornaram-se local de peregrinação: seus anjos são venerados como santos, e não são poucos os que levam-lhes flores e rogam-lhes intercessão.

A porta de aço no final do corredor abre-se diretamente para a terra de ninguém, o espaço livre no qual os recém-chegados cambaleiam perdidos entre as vans do inferno e as filas do céu. Aqui, fora do paraíso e até mesmo do Delta, não me protege lei alguma, mas condenam-me todas as leis do céu; meu plano é agir rápido e sem ser visto. Avanço com decisão até a extremidade de uma das filas e aponto com a mão.

– Ei, você! Isso, você. Venha comigo.

Escolto minha presa pelo cotovelo até a porta de aço, depois ao longo do interminável corredor, depois até o interior do elevador de serviço.

Só quando deslizamos juntos para a sala de manutenção é que ouso falar.

– Bem-vinda ao paraíso.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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