De qüem foi a ideia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de setembro de 2007

De qüem foi a ideia

Estocado em Gírias e Falares

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Mexam no meu queijo, senhoras e senhores, mas não mexam nas minhas palavras. Mudem o nome das coisas, criem novos termos, deixem que rolem versões diferentes da mesma palavra até que vença a melhor. Que o idioma corra o seu curso, mas não me venham – absolutamente não me venham, em pleno século XXI – alegar autoridade para impor reformas na língua de cima para baixo.

As línguas que não mudam são as mortas, mas isso não quer dizer que devamos ajudar o pintinho do futuro a sair do ovo. A reforma legítima do idioma é a democrática, aquela que com o passar de séculos faz vossa mercê virar você, e faz em minutos beleza virar blz. Essa reforma democrática da língua é tão arbitrária quanto a outra, mas tem para abalizá-la uma autoridade que nenhuma assembléia de gramáticos pode requerer para si.

Não tenho, fique claro, afeição pelo trema, pelo hífen ou pelo acento diferencial. Que caiam em desuso. Nada tenho contra o k, o w e o y; pelo contrário, fico feliz que caiam na boca do povo. Mas que ocorra naturalmente, e não por decisão de comitê.

Que reine, prefiro, a anarquia. Viva o internetês. Viva o miguxês. Viva o reino das palavras que duram três meses. Viva quem escreve como fala, e viva quem fala diferente. Viva quem diz duzentas gramas. Cada um escreva como quer, e se quiser escreva diferente a cada vez que escrever a mesma palavra. Esta vitória da anarquia – valha-me nesta hora, cega deusa internet – estou pronto a endossar e celebrar. Mas não me venham teólogos de meia tigela deitar ortodoxias, acenando com a ameaça de reprovação eterna no vestibular.

Para o inferno com as regras. Que o uso determine o que é correto, e não o contrário.

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As novas regras da língua portuguesa devem entrar em vigor em 2008, mas a implementação está sendo adiada pela sensata hesitação de Portugal.

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O objetivo declarado da reforma é unificar a língua falada pela meia dúzia de países lusópatas, aumentando a respeitabilidade e a aplicabilidade do português – a terceira língua mais falada do mundo e a menos digna de respeito.

Não sei, mas para aumentar a respeitabilidade do português no Brasil talvez bastasse diminuir os nossos níveis de analfabetismo com esse idioma mesmo que está aí, o desunido e o capenga. Outro ato de bravura e totalmente digno de respeito seria adotarmos, retroativamente, finalmente, o holandês.

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Edição das 10h55 – Goiaba remetida pelo Tuco

…o que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inversão da realidade histórica. As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como “regras” e “padrões” as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramática normativa é decorrência da lingua, e subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua “bonita”, “correta” e “pura”. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática. O que não está na gramática normativa “não é português”. E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados, cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma “heresia”.

Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz
Marcos Bagno

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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