De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de janeiro de 2016

De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 2 de 3 da série Sobre barragens

O capitalismo não só anula os esforços dos seus críticos, mas os incorpora e se beneficia deles

Por milênios as instituições se perpetuaram com base em autoridades “fortes” e centralizadas, coisas como a vontade de Deus e o direito de sangue das monarquias. Eram autoridades que os próprios discursos oficiais tomavam por inquestionáveis. Qualquer dissidência tinha de ser tomada como absurda e sem fundamento, e todo dissidente tinha de ser tirado espetacularmente do tabuleiro, devidamente desqualificado pela nudez, pela tortura, pela forca, pelo fogo ou pela cruz.

Apesar de terem funcionado por séculos, o fato de serem fortes e centralizadas era para essas autoridades, sem que ninguém se desse conta, uma desvantagem. Seu ponto fraco estava no fato de serem inquestionáveis, porque uma vez questionadas eficazmente ou derrubadas por outras autoridades, todo o edifício de legitimidade que tinham construído para si vinha anulado e ficava denunciado como ilusório. Uma vez que um deus fosse derrubado por outro ou uma linhagem monárquica pela seguinte, as instituições anteriores perdiam de imediato toda a precedência.

A segunda coisa que o capitalismo faz com seus críticos é incorporá-los

Em nenhum momento essa vulnerabilidade ficou mais clara do que aquele em que a autoridade “forte” por excelência, a própria ideia de Deus, foi questionada pelos pensadores da Idade da Razão. A cristandade tinha apostado todas as suas fichas num Deus inquestionável. Quando o Iluminismo encontrou modo de refutar a divindade em termos racionais, os cristãos perderam numa única jogada mil e setecentos anos de investimento.

O capitalismo teve de descobrir como se perpetuar num ambiente que à primeira vista parece muito mais hostil, aquele da democracia liberal – o ambiente em que por definição nada é inquestionável a não o ser o direito de questionar de cada um. De que modo uma instituição pode prevalecer e se sustentar operando sob uma autoridade “fraca” e descentralizada, perpetuamente sujeita à crítica de qualquer um?

O capitalismo conseguiu, em grande parte, alterando para sempre o modo como as instituições tratam críticos e dissidentes.
 

É desde o século dezenove, muito antes que o capitalismo se tornasse tudo que existe, que seus modos de fazer vêm sofrendo oposição. Geração após geração de críticos (Proudhon, Marx, Engels, Weber, Shaw, Chesterton, Orwell, Debord, Chomsky e Papa Francisco, para mencionar só parte da diretoria) têm apontado que o modelo capitalista de maximização de lucros, crescimento infinito e justiça prometida para todos não tem como ter um final feliz – muito menos um meio.

O capitalismo não pode silenciar esses dissidentes pela tortura e pela morte, como faziam as autoridades “fortes” e centralizadas anteriores. O sistema de livre mercado depende de manter a todo custo a ilusão de liberdade, e esse risco inclui deixar que os críticos apontem publicamente cada uma de suas fenomenais contradições.

A ameaça e a lucidez dos dissidentes tinham de ser anulados de outro modo, e a tarefa mostrou-se mais fácil do que se poderia imaginar.

A cristandade perdeu o seu lastro de autoridade quando a divindade foi refutada em termos racionais

A primeira coisa que o capitalismo faz com seus críticos é ignorá-los. Essa é por certo a parte mais fácil, ainda porque o capitalismo pode ser criticado a partir de tantos ângulos que é impossível acompanhar os avanços de cada uma dessas linhas de análise.

Acima de tudo, no entanto, o capitalismo é assistido na tarefa de ignorar os seus críticos pelo fato de (e não apesar de) estar fundamentado numa autoridade descentralizada. A crítica que em outro tempo o rei ou o papa não podiam tolerar o capitalismo não precisa dar-se conta, porque sua autoridade está ao mesmo tempo diluída num oceano de cúmplices e garantida por ele. Como entendeu o personagem de As vinhas da ira de Steinbeck, não é possível encontrar um único culpado contra quem abrir fogo quando o banco vem derrubar a sua casinha e tomar o seu sítio. Quem merece a bala: o tratorista gente boa que veio cumprir a ordem? O presidente do banco? O conselho administrativo? Todos os investidores e correntistas? As flutuações do mercado? A descentralização do sistema protege o sistema.

No que diz respeito a ignorar as críticas, o capitalismo se beneficia ainda de não estar fundamentado numa autoridade “forte” e inquestionável como era a vontade divina. O fato de ser incessantemente questionado não o prejudica em nada, porque o sistema se esconde atrás da liberdade que concede de ser questionado. Como vimos, a cristandade perdeu o seu lastro de autoridade quando o Iluminismo refutou a divindade em termos racionais. O capitalismo tem sido refutado em termos racionais por séculos sem pausa, mas não perdeu em nada o seu lastro de autoridade a despeito disso.

Porém há momentos em que as críticas aos modos de fazer do capitalismo são tantas e tão lúcidas que o seu efeito acumulado não pode mais ser ignorado. A segunda coisa que o capitalismo faz com seus críticos é incorporá-los, e desse modo beneficiar-se deles.

Os observadores críticos acreditam (com razão) que o capitalismo é uma ideia tão maldita e mal pensada que está além da possibilidade de reforma. Cada um a seu modo, explicam que o capitalismo é uma locomotiva cujo avanço tratou de descarrilhar tudo que já foi humano no passado e de queimar as possibilidades gerações e gerações de gente humana futuro adentro. Não basta, eles insistem, não basta desacelerar a locomotiva. Por tudo que é sagrado, humano e sensato, é preciso parar a bicha de vez, enquanto há algo de vivo no passado e no futuro a ser recuperado entre os destroços.

O capitalismo tem sido refutado em termos racionais por séculos, mas não perdeu o seu lastro de autoridade

Para confirmar o seu pessimismo e a necessidade de parar a máquina imediatamente, os dissidentes apontam uma série de evidências, digamos [A], [B], [C], [n]. Como vimos, o sistema em geral ignora essas críticas e toda evidência da inviabilidade e do caráter injusto do capitalismo. Porém às vezes acontece que algumas dessas linhas de crítica (digamos [B]) ganha tração popular e torna-se impossível de ignorar.

É só nesses momentos extremos que o capitalismo reage ao pessimismo dos dissidentes – e o faz não por alguma crise de consciência, mas porque esse é o momento em que o sistema pode, canibalizando e incorporando as críticas contra ele, efetivamente lucrar com elas.

Essencialmente, o capitalismo converte as críticas dos dissidentes em correções cosméticas; em seguida transforma essas correções em [1] diferenciais de produto, e as críticas originais em [2] argumentos a favor da sua própria expansão.

Dois exemplos bastarão para ilustrar esse mecanismo.

CRÍTICA: Que o capitalismo é uma máquina de exploração fica claro pelas condições de trabalho – desumanas e desfigurantes – em que são produzidos determinados produtos populares (digamos, telefones celulares na China e camisetas na Indonésia).

OPORTUNIDADE DE MERCADO: Esses alertas são revertidos em diferenciais de marketing quando indústrias lançam marcas e linhas de produto com “consciência social”, garantindo que seus produtos foram produzidos em locais de trabalho com um mínimo de dignidade e com remuneração justa. As vantagens para os detentores do capital são pelo menos duas: primeiro, uma parcela de consumidores, aqueles que poderiam sensibilizar-se diante da crítica original, é apaziguada porque agora efetivamente consome produtos com consciência social. Em segundo lugar, linhas de produto inteiras podem ser desenvolvidas e lançadas no mercado; fábricas novas podem ser construídas e mercados ampliados, inclusive porque produtos com consciência social podem ser vendidos por preços mais altos.

REVERSÃO DA CRÍTICA EM ARGUMENTO A FAVOR DA EXPANSÃO DO CAPITALISMO: Se as condições de trabalho em determinadas regiões do país ou do planeta parecem injustas, argumentam os defensores do capitalismo, é porque o livre mercado não se expandiu em determinadas regiões quanto baste para efetivamente elevar o nível de vida dessas populações. O que é preciso para remediar esse desequilíbrio não é menos mas mais capitalismo, de modo a que essas regiões alcancem o mais rápido possível o patamar de dignidade de áreas mais civilizadas e desenvolvidas.

CRÍTICA: Se o capitalismo dá a impressão de ser viável é porque sustenta essa ilusão subsidiando o seu crescimento com a efetiva queima do patrimônio ambiental do planeta. Paremos a maldita locomotiva enquanto ainda resta uma réstia de futuro a ser deixada para as próximas gerações.

OPORTUNIDADE DE MERCADO: A lógica segue a do item anterior, exceto que as empresas lançam produtos com “consciência ambiental” em vez de (ou associada a) “consciência social”. Essas linhas de produto ecologicamente corretas servem para ampliar mercados e criar mercados novos; podem ainda ser vendidas por preços mais altos, visto que o seu público-alvo estará disposto a pagar mais a fim de aplacar a sua consciência.

REVERSÃO DA CRÍTICA EM ARGUMENTO A FAVOR DA EXPANSÃO DO CAPITALISMO: Os ambientalistas radicais da primeira onda de críticas foram substituídos por (ou incorporados em) consultorias ambientais institucionalizadas dentro das corporações, onde exercem o papel de encontrar, em parceria com os detentores do capital, “soluções ótimas para as questões ambientais”, de modo a produzir “um novo paradigma ecológico de desenvolvimento sustentável” – ou o raio que o parta. A questão toda, numa palavra, é rearticulada em argumento a favor da ampliação e da modernização da indústria. Maarten Hajer:

A crise ecológica não representa problema para o sistema, visto que a modernização ecológica parte do pressuposto de que a crise ecológica pode ser vencida pela inovação técnica e tecnológica. Isso transforma a “deficiência ecológica” da sociedade industrial em pretexto e estímulo para uma nova rodada de inovação industrial. Como antes, espera-se que a sociedade se modernize [e o capitalismo se expanda] como solução para a crise.

Numa perfeita reversão do argumento, os defensores do capitalismo afirmam que “os presentes problemas ambientais só podem ser resolvidos fomentando-se avanços incrementais na tecnologia e na industrialização”.

Pelo uso cuidadoso de termos como “avanço”, “fomento” e “incremental”, o que estão efetivamente dizendo é que o estrago efetuado pela locomotiva capitalista só pode ser reparado se efetivamente não pararmos o trem. A solução virá, porque é assim que as coisas funcionam, quando alimentarmos a caldeira e acelerarmos o conjunto todo ainda mais.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Sobre barragens

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  1. Sobre barragens
  2. De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas
  3. A queda da casa do mundo
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