Da preciosidade das memórias • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de dezembro de 2004

Da preciosidade das memórias

Estocado em Nostalgia

A memória é em parte uma caixa mental de lembranças (metálica, daquelas antigas de biscoito, já enferrujada e com os cantos amassados) guardada debaixo da cama da consciência, repleta de cartas enviadas e recebidas, cartões postais de lugares que nunca visitamos, fotografias, sabores e águas de mar, conchas e pauzinhos de canela, sorrisos e perfumes, abraços roubados e mechas de cabelo, pés descalços e flores secas, infinitas miudezas e preciosidades que você pode revirar e revisitar o quanto quiser.

Deve ser a proximidade do Natal que me leva a voltar nostalgicamente ao assunto da nostalgia, mas é inevitável pensar que as desnorteantes facilidades dos tempos modernos estão mudando também o modo como enxergamos, visualizamos e categorizamos as nossas lembranças, a nossa visão do passado e – conseqüentemente – daquilo que importa em nós mesmos.

Nosso relacionamento com as nossas memórias tornou-se mais vertiginoso, imponderável e caracterizado por um amargo afastamento.

O exemplo mais evidente que me ocorre é o da fotografia, que já foi – pasme-se – coisa rara e importante.

Não resta, que eu saiba, nenhuma foto do meu avô quando criança. Do meu pai contamos aqui em casa uma dúzia, talvez menos (em nenhuma ele aparece sozinho). Minhas, fotos em que apareço quando criança, deve haver, digamos, umas duzentas. Hoje em dia, uma criança de classe média tem mais de duzentas fotos tiradas dela mesma antes de completar um ano de idade – algumas, antes de sair da maternidade.

Alguém pode argumentar que uma fotografia digital (que é o que resta) é coisa imponderável demais para ser considerada uma foto de verdade, mas é justamente esse o meu ponto. Nosso relacionamento com as nossas memórias tornou-se mais vertiginoso, imponderável e caracterizado por um amargo afastamento. As recordações são angariadas num ritmo tão alucinante que, no final das contas, perdem todo o sentido. Filmamos o pôr-do-sol para assisti-lo obedientemente na televisão, enquanto outro sol está nascendo lá fora. Alguém, fatalmente, está filmando.

Vivemos dentro da caixa de lembranças, e não nos resta nem um momento livre para apreciá-la.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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