Correndo atrás do espelho • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de dezembro de 2008

Correndo atrás do espelho

Estocado em Goiabas Roubadas

Quando afirma que não veio abolir a lei, mas cumpri-la, Jesus articula uma consequência lógica do seu ensino. O alvo da Lei é a paz entre os seres humanos. Em momento algum Jesus zomba da Lei, mesmo quando ela assume a forma de proibições. Ao contrário dos pensadores modernos, ele sabe que para evitar conflitos é necessário começar com proibições.

A desvantagem das proibições, no entanto, é que elas acabam não desempenhando o seu papel de modo satisfatório. Seu caráter eminentemente negativo, como bem observou São Paulo, provoca inevitavelmente o impulso mimético/imitativo de transgredi-las. O melhor modo de evitar a violência não consiste em proibir objetos […], mas em oferecer às pessoas um modelo que os proteja das rivalidades miméticas, ao invés de envolvê-las ainda mais nessas rivalidades.

Com frequência acreditamos que estamos imitando o verdadeiro Deus, mas estamos na verdade meramente imitando falsos modelos de um eu independente que não pode ser ferido ou derrotado. Longe de nos tornarmos independentes e autônomos, entregamo-nos vez após outra a intermináveis rivalidades.

[…] Os não-cristãos imaginam que para se converterem devem renunciar uma autonomia que todos possuem naturalmente, uma liberdade e uma independência que Jesus quer arrancar deles. Na realidade, quando começamos a imitar Jesus descobrimos que nossa aspiração à autonomia levou-nos a nos dobrarmos continuamente diante de indivíduos que podem não ser piores do que nós, mas que são, no entanto, modelos prejudiciais, porque não somos capazes de imitá-los sem cairmos na armadilha das rivalidades, nas quais ficamos cada vez mais enredados.

Sentimos que estamos no processo de alcançar a autonomia quando imitamos nossos modelos de poder e de prestígio. Essa autonomia, no entanto, nada mais é do que o reflexo das ilusões projetadas por nossa admiração por eles. Quando mais essa admiração se intensifica, de modo mimético, menos conscientes nos tornamos de sua natureza mimética. Quando mais “orgulhosos” e “egocêntricos” nos tornamos, mais escravizados nos tornamos dos modelos que imitamos.

René Girard, I See Satan Fall Like Lightning

Leia também:
O bicho
A farsa mais poderosa do egocentrismo está em que ele acena com a ilusão de que estamos pensando sobre nós mesmos e buscando a nossa própria satisfação, quando estamos na verdade sendo prisioneiros dos outros e da sua vontade.
Em comparação: o dinheiro compra a felicidade
Os outros são a medida da nossa felicidade, e a inveja é nosso exigentíssimo motor.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna