Conversa de um filho da Terra com um filho do capitalismo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de setembro de 2009

Conversa de um filho da Terra com um filho do capitalismo

Estocado em Goiabas Roubadas · História

Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem o trabalho de vir buscar o seu arabutan. Uma vez um velho perguntou-me:

— Por que vêm vocês, mairs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para se aquecerem? Vocês não tem madeira na sua terra?«E vocês por acaso precisam de muita?»

Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas extraíamos dela tinta para tingir, tal o qual eles faziam com os seus cordões de algodão e suas plumas.

Retrucou o velho imediatamente:

— E vocês por acaso precisam de muita?

— Sim – respondi-lhe – pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que vocês podem imaginar, e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.

— Ah! – retrucou o selvagem – É assombroso o que você me conta.

E acrescentou, depois de compreender bem o que eu lhe dissera:

– Mas esse homem rico de quem você me fala não morre?

– Sim – disse eu – morre como os outros.

 

O missionário calvinista Jean de Léry tenta explicar o espírito do capitalismo a um índio tupinambá, durante sua permanência no Brasil na França Antártica em 1557.
Histoire d’un Voyage Fait en la Terre du Brésil, 1578

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Paulo Brabo @saobrabo

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