Como encontrei o Super-Homem • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de agosto de 2006

Como encontrei o Super-Homem

Estocado em Goiabas Roubadas

Leitores do Sr. Bernard Shaw e de outros escritos contemporâneos podem estar interessados em saber que o Super-Homem foi encontrado, e vive em South Croydon. Meu sucesso representará um grande baque para o Sr. Shaw, que tem estado seguindo uma pista falsa, e procura neste momento a criatura em Blackpool; e quanto à idéia do Sr. Wells de gerá-lo a partir de gases num laboratório privado, sempre considerei-a fadada ao fracasso. Asseguro ao Sr. Wells que o Super-Homem de Croydon nasceu da maneira usual, embora ele mesmo seja, naturalmente, tudo menos ordinário.

Tampouco seus pais são indignos do maravilhoso ser que deram ao mundo. O nome de Lady Hypatia Smythe-Brown (hoje Lady Hypatia Hagg) jamais será esquecido no East End, onde realizou esplêndido trabalho social. Seu grito constante de “Salvem as crianças!” aplicava-se à cruel negligência para com a faculdade visual das crianças implicada em permitir-se que brincassem com brinquedos pintados de maneira rude. Citava ela inquestionáveis estatísticas para demonstrar que crianças às quais se permitia olhar para o violeta e para o carmim sofriam com freqüência de vista deficiente quando chegavam à idade avançada; e foi devido a sua incansável cruzada que a pestilência do Macaco-na-vareta foi praticamente eliminada de Hoxton.

A devotada voluntária percorria as ruas incansavelmente, tirando os brinquedos das pobres crianças, que moviam-se por vezes às lágrimas diante de seu altruísmo. Sua boa obra foi interrompida, em parte devido por um interesse recente no credo de Zoroastro, em parte pelo golpe selvagem de um guarda-chuva. Este foi inflingido por uma dissoluta vendedora de maçãs irlandesa, que, retornando de alguma orgia a seu malcuidado apartamento, encontrou Lady Hypatia no quarto de dormir removendo uma pintura que, para dizer pouco, era incapaz de elevar a mente.

Diante disso a ignorante e parcialmente embriagada celta desceu uma severa bordoada na reformadora social, acrescentando uma absurda acusação de roubo. O equilíbrio da mente sofisticada da dama sofreu um choque, e foi durante essa breve doença mental que casou-se com o Dr. Hagg.

Do próprio Dr. Hagg creio não ser necessário falar. Qualquer um ligeiramente familiarizado com os ousados experimentos em Eugenia Neo-individualista que estão neste momento absorvendo o interesse da democracia britânica deverá ser capaz de reconhecer o nome e de com freqüência encomendá-lo à proteção pessoal de certo poder impessoal. Muito cedo o Dr. Hagg passou a aplicar à história das religiões a implacável percepção interna que adquirira em sua infância como engenheiro elétrico. Tornou-se mais tarde um de nossos maiores geólogos, e alcançou aquela ousada e brilhante visão sobre o futuro do socialismo que apenas a geologia pode produzir. Num primeiro momento parece ter havido algo como uma fenda, uma sutil mas perceptível fissura entre suas opiniões e as de sua aristocrática esposa.

Pois ela era favorável (para usar seu próprio epigrama mordaz) a proteger os pobres deles mesmos, enquanto ele declarava sem misericórdia, numa nova e contundente metáfora, que os fracos deveriam enfrentar o muro de fuzilamento. Com o tempo, no entanto, o casal percebeu uma união essencial no caráter inequivocamente contemporâneo de ambas as opiniões; e nesta esclarecedora e abrangente expressão suas almas encontraram paz. O resultado é que essa união dos dois modos mais elevados de civilização, a dama badalada e o médico tudo menos vulgar, foi abençoada com o nascimento do Super-Homem, aquele que os trabalhadores de Battersea tão ansiosamente aguardam noite e dia.

Encontrei a casa do Dr. e Lady Hypatia Hagg sem muita dificuldade; esta situada num das últimas ruas esparsas de Croydon, guarnecida por uma fileira de choupos. Cheguei à porta perto da hora do crepúsculo, e foi natural que eu imaginasse ver algo sombrio e monstruoso no vulto difuso daquela casa que continha criatura mais fabulosa do que os filhos dos homens. Entrando na casa fui recebido com sofisticada cortesia por Lady Hypatia e seu marido; mas encontrei dificuldade maior para ver de fato o Super-Homem, que tem agora cerca de quinze anos de idade e é mantido sozinho num quarto isolado. Mesmo minha conversa com seu pai e sua mãe não esclareceu muito a respeito da natureza do ser misterioso. Lady Hypatia, que tem um rosto pálido e penetrante, e traja os impalpáveis e patéticos cinzas e verdes com que alegrou tantas casas em Hoxton, não parece falar de sua prole com a vaidade costumeira das mães humanas comuns. Dei um passo arrojado e perguntei se o Super-Homem era bonito.

– Ele estabalece seu próprio padrão, sabe – respondeu ela, com um ligeiro suspiro. – Nesse plano ele é mais belo do que Apolo. Visto do nosso plano inferior, naturalmente…

E suspirou de novo.

Tive um terrível impulso e perguntei:

– Ele tem cabelo?

Houve um longo e doloroso silêncio, e o Dr. Hagg disse calmamente:

– Tudo naquele plano é diferente; o que ele tem não é… bem, não é, naturalmente, o que chamamos de cabelo… mas…

– Você não acha – disse sua esposa, muito suavemente – não acha melhor, para fins de discussão, quando for para nos dirigirmos ao mero público, chamarmos de cabelo?

– Talvez você esteja certa – disse o doutor depois de alguns momentos de reflexão. – Quando se trata de cabelo como aquele é necessário falar em parábolas.

– Ora bolas, mas o que é no fim das contas? – perguntei com alguma irritação. – Se não é cabelo, o que é? Penas?

– Não como compreendemos penas – responde Hagg em terrível entonação.

Levantei-me com alguma irritação.

– Posso vê-lo, de qualquer modo? – perguntei. – Sou jornalsta, e não tenho qualquer motivos terrenos que não sejam curiosidade e vaidade pessoal. Gostaria de poder dizer que apertei apertei a mão do Super-Homem.

Marido e mulher ergueram-se pesadamente e quedaram-se de pé, embaraçados.

– Bom, é claro que, sabe – disse Lady Hypatia, com o sorriso indiscutivelmente encantador da anfitriã aristocrática. – O senhor sabe que não poderia exatamente apertar a mão… não uma mão, sabe… A estrutura, naturalmente…

Violando todas as convenções sociais, precipitei-me até a porta do quarto que eu achava conter a incrível criatura. Abri-a num único gesto; o quarto estava inteiramente às escuras. Porém de diante de mim veio um chiado triste, e de trás de mim um duplo berro.

– Pronto, você conseguiu! – bradou o Dr. Hagg, enterrando nas mãos a testa calva. – Você deixou entrar uma corrente de ar, e ele está morto.

Quando saí de Croydon naquela noite vi homens de negro carregando para fora um caixão que não era de forma humana. O vento gemia acima de mim, fazendo rodopiar os choupos, de modo que eles curvavam-se e acenavam como as plumas de algum funeral cósmico.

– É, de fato – disse o Dr. Hagg, – o universo inteiro chorando a frustração de seu mais esplêndido nascimento.

Mas pensei haver um arrulho de riso no gemido agudo do vento.

G. K. Chesterton, Daily News, 1909

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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