Como diz o outro • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de maio de 2007

Como diz o outro

Estocado em Brasil · Gírias e Falares

O TEXTO QUE DEU ORIGEM À BACIA!

Em 2004, com a conclusão de um projeto no qual trabalháramos dez anos juntos, deixei de conviver diariamente com meu amigo Ivan e experimentei uma severa crise. Percebi que não tinha mais em quem despejar minha dose diária de reflexões infundadas e fragmentos de leituras sacrílegas. Um dia, sem ter com quem dividir determinada percepção que me acometera no ônibus, resolvi colocá-la por escrito junto com a experiência que a inspirara.

A meio caminho da composição do texto lembrei da internet. Quem sabe eu devesse reivindicar a posse de uma ilha no mar global em que pudesse me desvencilhar de todo o conteúdo que me assombrava havia décadas; quem sabe eu pudesse, no caminho, descobrir alguma ligação entre partes de mim que permaneciam até aquele momento desconectadas umas das outras; quem sabe eu pudesse finalmente superar minha egrégia falta de disciplina e escrever algo que tivesse começo, meio e fim. Ai de nós! Acreditei insensatamente nessas promessas e levantei a Bacia.

Por alguma razão, no entanto, o episódio que deu origem à série permaneceu offline por todos esses anos, informe, inconcluso, cheio de pontas soltas. O estilo do Brabo estará talvez todo aí, mas sem muita convicção, tadinho. Está aqui, incipiente, o espírito que me levaria a deitar minha série de confissões sobre a ANA (“o paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história”).

Deixo-o aqui então, para livrar-me dele, incompleto como o deixei, de interesse apenas para os completistas.

 

COMO DIZ O OUTRO (2004)

Apreensões sobre o Brasil, o mundo e acervo étnico

Não era, que eu soubesse, representativa em sentido algum aquela conversa entreouvida no ônibus. Era até mesmo incomum, porque na civilizada cidade em que resido (embora seja no Brasil) três estranhos normalmente não conversam em voz alta dentro de um coletivo sobre seja o que for – e estava claro que os três protagonistas eram isso mesmo, desconhecidos entre si, trocando opiniões com a desajeitada retórica de quem percebe ter uma audiência cativa.

– No meu tempo – dizia o veterano do trio, um baixinho grisalho que aparentava ser mais velho do que os sessenta e poucos anos que em determinado momento afirmou ter, – quando eu cheguei em 76 a essa Curitiba, a coisa não era assim. Tinha emprego pra todo mundo. Eu ganhava por semana, chegava o final de semana e eu recebia 600, 700 reais, réis na época, que a gente gastava e ainda sobrava pra semana seguinte. O sujeito saía de um emprego e já tinha outro esperando ali na esquina. A coisa era diferente, eu pude até construir alguma coisa. Mas agora, do jeito que vão as coisas, nesses últimos vinte anos não deu pra fazer nada.

Olhei de relance para o velho, que numa rápida avaliação profissional não me pareceu o tipo que tivesse construído alguma coisa, mesmo vinte anos atrás.

– Pois já diz o meu avô, ele lutou na Segunda Guerra – retomou depressa o segundo interlocutor, trinta e tantos anos de idade, cabelos pretos engomados, o que falava mais e mais alto dos três – que pra consertar mesmo esse país era só mesmo colocando os militares na rua. Tirar tudo que é deputado e vereador e deixar só os militares e o presidente no governo. Fechar o Palácio, deixar um vereador ou outro e fazer essa gente trabalhar o dia inteiro. Tem vereador aí ganhando oito mil reais pra não fazer nada. Acabar com essa roubalheira, e vê se o país não vai pra frente.

O velhinho concordou de imediato, e o terceiro participante, um jovem prematuramente barrigudo que usava óculos e barba por fazer, evidentemente mais politizado e convicto de não nutrir opiniões tão simplistas, calou e deu um meio sorriso.

– Pois com os bilhões que gastam esses deputados – concluiu o velho, empolgado pela sensatez da sua argumentação – imagine o que não dava pra fazer.

Enquanto eu tentava assuntar o mais desapaixonadamente que podia as eventuais vantagens e riscos de uma rigorosa intervenção militar, o segundo interlocutor, o falador, voltou à carga.

– Trabalha comigo um cara que veio da China. Ele disse que na China, se alguém rouba, o sujeito é algemado em praça pública e leva um tiro na cabeça, e ainda vão cobrar a bala da família.

– Pois aqui deveria ser assim – concordou na mesma hora o velhinho, empolgadamente.

O terceiro, o jovem, claramente incomodado pelo rumo reacionário que a conversa estava tomando, não conseguiu mais ficar quieto.

– É, mas se fosse tão bom lá ele não teria vindo pra cá.

O segundo entendeu e não ousou responder, mas o velhinho tentou impor a sua própria lógica.

– É – disse ele. – Essa gente ouve que aqui é bom, que aqui é primeiro mundo, e vem pra ver como é. Depois vem a decepção.

– Só sei que o Brasil é muito complicado – voltou o segundo. Sem interrupção, para preencher o vácuo, ele lançou a estocada seguinte. – A culpa toda é mesmo dos estrangeiros que vieram aqui colonizar. Vieram, como diz o outro, roubar as nossas terras.

– Pera lá – retrucou o jovem, que a essa altura não estava disposto a deixar passar mais nada. – Você é descendente de europeus. Você não tem como dizer que eles vieram roubar “as nossas terras”. Você não é descendente dos índios.

– Sou descendente de espanhóis – reconheceu o outro. E arrematou, como se explicasse alguma coisa: – Mas se pelo menos tivesse sido um povo só.

A platéia ao redor guardava desinteressado silêncio, entre um solavanco e outro, e quem deu a última palavra foi ele mesmo, o falador.

– Só sei que esse país não tem mais jeito – disse ele. – A gente vai morrer e daqui a cinquenta anos isso aqui vai estar a mesma coisa.

O jovem e o velho, sem acrescentarem nada à discussão e sem se despedirem, desceram no ponto seguinte. Ficamos só eu, que não havia dito nada, e o falador, que agora desviava os olhos de todos porque não tinha com quem conversar.

Sem deixar de observar impassivelmente a paisagem urbana que passava janela afora (eu, como todos os outros, não havia dado indicação alguma de que tinha estado prestando atenção; estávamos aparentemente acima daquele tipo de coisa), fiquei tentando diagnosticar o que naquele trecho roubado de conversa havia me perturbado ao ponto de não conseguir tirá-lo da cabeça.

Tive de concluir que, extraídos os lugares-comuns, três questões levantadas naquela conferência coletiva haviam colocado meu giroscópio interior para funcionar: a menção de passagem à Segunda Guerra, uma das minhas obsessões mais caras; a questão da diversidade dos povos na formação do país; e as implicações da expressão “como diz o outro”.

Aproveito esse pretexto, então, para expor certas impressões pessoais que me são muito caras e talvez não tenha oportunidade de deixar registradas em outro lugar. Só algumas dizem respeito ao Brasil. Mesmo que eu e você não estejamos no mesmo ônibus, essas impressões talvez sejam de interesse coletivo; mesmo se fazendo de desentendido, você pode querer ouvir.

* * *

Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo “jeitão” no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como “povo brasileiro”). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza – peculiar, para dizer pouco – do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre “o outro” que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.

Quem me vê sempre parado, distante,
garante que eu não sei sambar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
escutando, não posso falar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando,
pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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