Carta de uma irmã da igreja de Corinto • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de fevereiro de 2014

Carta de uma irmã da igreja de Corinto

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Essa história eu queria discutir com [o apóstolo] Paulo, que nos últimos tempos parece estar muito preocupado em colocar a mulher de volta “no seu devido lugar”. Ele anda tão obcecado com a ideia de impressionar os pagãos que tem, creio, revertido aos seus preconceitos rabínicos. Como se o papel da mulher fosse ficar em casa criando os filhos. “A mulher é a glória do homem”, pois sim!

É claro que um homem com a formação dele não ignora onde Gênesis coloca a mulher: “à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou”.

Que homem estranho Paulo é. Na sua carta para a nossa igreja ele enfatiza firmemente o status igualitário entre o homem e a mulher no casamento, mas na mesma carta se ocupa longamente, muito enfurecido, dos penteados adequados para a assembleia…

Ainda mais relevantes são essas suas palavras na carta que escreveu aos gálatas nossos vizinhos: “não já judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois vocês todos são um em Cristo Jesus”.

Temo que algumas pessoas acabem ouvindo não essas palavras de Paulo, que tão claramente refletem a postura e o ensino de Jesus, nossa sabedoria, mas deem ouvidos às suas recaídas ao tempo em que não tinha ainda recebido a liberdade no Espírito. Tremo ao pensar que um dia, no futuro, o líder de alguma das igrejas acabará dizendo: “gentios, escravos e mulheres não podem fazer parte do ministério da Palavra, porque Jesus não consignou sobre eles o apostolado”.

Quando disse isso a Paulo ele riu fragorosamente e exclamou: “Febe, você tem cada ideia! Se alguma das minhas cartas sobreviver, só um lunático deixará de ver a diferença entre a minha pregação da boa nova e minhas divagações sobre circunstâncias e problemas culturais. As pessoas de uma outra era saberão facilmente desconsiderar as armadilhas culturais e ir direto ao coração da mensagem”.

Trecho de uma carta de Febe, discípula fictícia da igreja de Corinto no primeiro século, escrita por uma aluna de Elizabeth Schüssler Fiorenza e publicada em seu In Memory of Her (1983).
Citada em A Radical Jew, de Daniel Boyarin.

 

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Paulo Brabo @saobrabo

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