Em câmera lenta • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de fevereiro de 2007

Em câmera lenta

Estocado em Brasil · Política

Na sociedade do espetáculo a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que sentimo-nos de alguma forma capazes de enxergar o que é certo e errado.

Estou falando, naturalmente, das recentes e espetaculares violências divulgadas pela televisão e do rastro de indignação extraoficial oficial que se seguiu.

Pode-se dizer que estou indignado com essa indignação – tão ou mais do que com a violência que dizem-me tê-la inspirado.

Pretendo ser bem entendido pelo menos numa coisa: não tenho prazer em ouvir de crianças sendo torturadas e de balas perdidas que encontram seus destinos, seja no Rio de Janeiro ou no Iraque, que é menos violento; não creio, com a mesma intensidade, que a onipresença da violência deva ser de alguma forma maquiada, omitida ou censurada. Deem-me a vida como ela é – não tenho escolha a não ser encará-la de frente, e prefiro não ter.

O que me incomoda na recente onda de indignação é que ela toma invariavelmente o caminho testado e aprovado da demonização do outro – o caminho que sancionou todos os derramamentos de sangue da história, inclusive aqueles que estamos agora condenando. E não é, sabemos disso, menos que derramamento de sangue o que estamos pedindo. Somos personagens da vigília circular prevista e denunciada por René Girard. O que queremos, o que estamos exigindo, é um bode expiatório no qual possamos afogar espetacularmente o nosso furor. Deem-nos um rei do crime, um magnífico Al Capone para crucificar; deem-nos a pena de morte, um maldito cujo sangue nos forneça a indelével impressão de purificação comunitária. Deem-nos uma punição exemplar, algo que corresponda em riqueza visual à pirotecnia da violência a que fomos submetidos pelas imagens da televisão.

Sou, devo confessar aos que ainda não perceberam, um idealista e um anarquista. Não sou porém idealista o bastante para crer que não há culpados, ou anarquista o bastante para crer que culpados não devam ser punidos. Apenas estou convicto de que há culpados em mais arenas do que gostaríamos de admitir, e violências cuja magnitude simplesmente não comportam os dois ou três palmos da tela azul.

Não é preciso mais do que meia hora para se fazer pelas ruas da cidade um desenho com o sangue e a carne de uma criança viva. Não é preciso mais do que minutos para abrir com o estilete uma garganta, para violentar uma garotinha, derrubar o fósforo aceso sobre um corpo vivo fedendo a gasolina ou apertar um cano fumegante contra uma têmpora.

A maior parte de nós, seres humanos, optaria por só fazer essas coisas em último caso. Preferimos em geral não ter de recorrer à violência. Preferimos que ninguém morra na nossa frente. Preferimos não ter de matar ninguém. Se matar for finalmente necessário, preferimos que não seja doloroso para quem morre.

Nós humanos somos assim. Não inerentemente bons, mas inerentemente cheios de melindres e nove horas.

As atrocidades espetaculares com que temos nos ocupado são jogo rápido e produzem resultados brutais, feitos sob medida para a nota de primeira página do jornal. São vistosas em sua abominação, e cabem justinho entre um comercial e outro do noticiário.

A tela é azul.

Essas violências são especialmente convenientes para o nosso consumo porque deixam claro, pelo seu próprio caráter de aberração, que não dizem respeito a gente do nosso convívio e da nossa estirpe. Ficamos chocados com elas e exigimos restituição na exata proporção em que cremos não ter nenhuma culpa no cartório.

A culpa, no entanto, é coisa insidiosa e comum. A violência é rápida, mas o processo de desumanização que a possibilita, que torna a violência concebível e até desejável para quem a pratica, é lento e complexo. É preciso muita coisa para fazer de um homem menos que um homem, mas temos conseguido – e tenho feito obedientemente a minha parte na criação desse admirável mundo novo.

É minha convicção de que somos todos – individualmente, já que coletivamente nada acontece – culpados dessa violência secreta que desconstrói eficientemente a humanidade de crianças, mulheres e homens.

Desconhecemos ou esquecemos o que é passar consistentemente fome, o que é ser barrado consistentemente no shopping, o que é constatar consistentemente que trabalho honesto gera menos sobrevivência do que fornecer entorpecentes malfeitos a distraídos ricos e classe-medianos. Não sabemos ou esquecemos o que é dormir na rua, o que é ver a mãe apanhando do pai, o que é ter a ordem de despejo no nariz, o cuspe no rosto, o chute no lado. Não sabemos ou esquecemos o que é ver o dia como ameaça, a noite como dia e a lata de cola por companheiro. Essas e outras violências secretas trabalham em perfeita coordenação para desfazer gente em menos do que gente, mas são coisa por demais comum e rasteira para merecer espaço na televisão. Não fazem e nunca farão, portanto, parte da nossa ética. Não têm qualquer relação com a verdadeira violência que estamos lamentando nos e-mails que repassamos.

Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian na Paraíba, no calçadão da perfumada Campina Grande, tomando suco e maravilhando da chuva e do friozinho que fazia ali tão na beira do sertão nordestino. Anoitecia e adiávamos, comentando sobre a extraordinário abundância de farmácias e garotas bonitas na cidade, a hora de voltar para o Hotel Gandhi. Espalhada pelo calçadão desfilava sem pressa uma procissão sem fim de crianças de rua e catadores de papel: meninos descalços, maltratados, vestidos de pano de chão, pedindo sem stress um centavo, um pedaço de comida, muitos empurrando ou puxando, como mulas, carrinhos de madeira dez vezes maiores do que eles mesmos.

O Julian já tinha visto cena semelhante em outras de nossas capitais, mas ali em Campina Grande, naquela noite e no meio daquelas crianças que o cercavam como a um loiro redentor, o inglês desembuchou.

– Por que vocês não fazem nada a respeito dessas crianças? – perguntou ele ternamente, serenamente, e falava em nome e a respeito das crianças de rua de todo o Brasil.

Nesse momento, senhoras e senhores, o Brabo desfiou um discurso que faria a delícia ou a vergonha de qualquer candidato em qualquer comício. Expliquei com toda a diligência que a solução não era simples, que o problema era congênito, que o governo não fazia nada, que a sociedade se omitia, que a maldição tinha raízes históricas que garantiam a sua perpetuação; falei sobre desvios de recursos, sobre reforma agrária, sobre prostituição infantil, sobre tráfico de drogas e de influências e sobre crime organizado. Falei sobre a história do Rio do Janeiro, sobre evasão rural, sobre nordestinos em São Paulo; expliquei sobre favelas e morros e falanges vermelhas e escadinhas, e quanto mais eu falava mais percebia que estava longe, cada vez mais longe, de responder a pergunta que meu amigo havia feito.

Meu amigo não me pedira estatísticas ou respostas prontas. Ele me perguntava por que eu – por que alguém – não fazia nada para humanizar a vida daquelas crianças e crianças como elas. Eu não soube o que responder. Não tinha o que responder, e finalmente confessei isso a ele.

– Pergunto – ele disse, apontando para um menino de uns seis anos absolutamente loiro, absolutamente lindo e absolutamente miserável que nos observava maravilhado conversando em inglês, como se testemunhasse anjos – por que esse menino poderia ser o meu filho.

A desumanização é uma violência muda que depende da contribuição de todos para funcionar. Basta um de nós virar a casaca para colocar tudo a perder. Eu mesmo tive meus momentos de fraqueza, mas o Julian voltou graças a Deus para sua Londres perfeita e não representa mais risco para a minha consciência. Minha eficiente omissão tem feito com que crianças sejam arrastadas pelas ruas, uma de cada vez, com a mesma inclemência impensável que os bandidos dispensaram a um menino que não conheci e cuja foto apareceu na televisão. Esse trajeto desumanizante é, no entanto, lentíssimo; acontece em câmera lenta demais para caber nos limites do noticiário de televisão. É devagar como um filme francês, e da mesma forma impotente para angariar pontuação no IBOPE. No final, no entanto, haverá um rastro de sangue e um ser humano a menos sobre a terra.

* * *

Deixamos o filho de Julian dormindo na rua e fomos para o quarto do hotel, caindo no sono sob a benção azul da novela Bang-Bang. Na manhã seguinte partimos para Recife.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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