Cadê a palavra que tava aqui? • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de agosto de 2005

Cadê a palavra que tava aqui?

Estocado em Goiabas Roubadas

Quem traduz, ou produz seus próprios textos, não pode abrir mão da palavra exata, da expressão precisa, do sentido correto ou, mais pedantemente, do mot juste. Mesmo que seja para não dizer coisa com coisa. Pode faltar nexo, só não poder faltar a palavra exata à falta de nexo.

Isso me lembra dos tempos de moleque quando pegava “emprestado” as suculentas mangas do quintal de dona Rosita. Eu queria a manga, mas a manga não me queria e mangava de mim. Hoje cobiço outra fruta, mas a metáfora é parecida.

Eu quero a palavra, mas ela não me quer. Vejo-a no galho do fraseado, pejada, plena e agarrada no talo teso da conjunção enganosamente frágil, pedindo — vadia — para ser colhida e comida. A boca enche-se d’água: seu brilho, sua cor e cheiro maduro provocam-me e zombam de mim. Finjo que não a quero, mas ambos estamos no cio e não tem jeito, caio sempre na esparrela frutiverbal.

Levanto-me para alcançá-la. Faço uma ginga estrambótica espichando o espinhaço, o braço e o bestunto ao máximo quase pegando-a com as pontas dos dedos. Por um momento pensei sentir a sua casca vernácula roçando as minhas digitais cibernéticas. Ela já tava aqui, ó! Na palma da mão; foi um nadinha de nada; faltou um cabelinho de sapo!

Não desisto. Esforço-me mais, pulo para cima, consigo dar-lhe um tabefe carinhoso e ela pendula para lá e para cá e pára fazendo pose no mesmo canto em que estava antes, e sorri debochando de mim. Ah, filha de uma fruta!

Suspiro irritado, vejo-a lá no alto, no zênite de minha cuca, “no topo da sinagoga” — segundo a anedota verborrágica sobre o Ruy Barbosa. E eu aqui plantado no baldio verbal de mãos nuas e desarmado: não valem paus nem pedras (ou valem?!). Ela, totalmente fora do meu alcance, já me parece enevoada e tão turva quanto o próprio adjetivo com que a xingo: obnubilada!

Não seria ela um delírio lexical, fruto — ai, que eu disse fruto! — dessa obsessão por um termo que talvez nem exista?

A palavra não me quer, mas não desisto. Empilho meus parrudos dicionários — aurélios, auletes, buenos e houaisses — e trepo-me, malabarista gorducho, sobre eles, que não bufam nem chiam por pura e mancomunada má-vontade.

Lá vou eu repetindo o gingado capoeirista com um golpe de matar de inveja, ou de rir, o mais experimentado mestre dessa arte. Só que dessa vez escondo na manga — ai, de novo! — uma velha malandragem do futebol brasileiro: planto-lhe uma marota dedada na protuberância semântica e — êpa! ôpa! … O ímpeto do lance jogou-me ao chão. Mas, oh queda gloriosa! Dessa vez peguei-a, peguei-a ainda no ar.

Mas segurei de mal jeito a “batata-quente” e despencamos cada um para um lado; ela se espatifou em mil e o caroço ficou no chão estrebuchando taquicárdico até parar de vez — como uma dessas moedas que aceleram ao máximo no final de um rodopio — espragatado e morto na folha do papel virtual.

Pus-me logo a catar os cacos que sobraram, mas não deram pra escrever nem mesmo uma frase de pára-choque, quanto mais para lapidar um pequeno poetrix e muito menos um haicai: jóia preciosa made in Japan (com montadoras no mundo inteiro) que tem mais densidade poética do que um processador ULSI tem de tecnologia. Eis aí os cacos que arreme(n)dei:

Palavra madura
Na beira da frase —
Colheita difícil, né?

©Marcos Vasconcelos, junho de 2005

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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