Benjamin Franklin em 1935 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de abril de 2007

Benjamin Franklin em 1935

Estocado em Goiabas Roubadas

Essas palestras [sobre Benjamim Franklin] me impressionaram tanto que na noite seguinte à segunda palestra tive um sonho pitoresco envolvendo eu mesmo e o senhor Franklin, centrado numa curiosa distorção do tempo (semelhante àquelas que nossos colegas escritores de fantasia e ficção científica gostam de retratar) pela qual uma região de 1785 mesclava-se imperceptivelmente a uma região de 1935.

Franklin e eu cavalgávamos de Filadélfia para Nova Iorque pelo mundo de 1785 – sendo que ele havia acabado de retornar da França. A estrada era estreita e enlameada, e ladeada por cercas consideravelmente cobertas de urzes e trepadeiras. Eu trajava um comprido casaco verde no estilo antigo (digamos, de 1760) com botões de prata, um colete florido avermelhado, lenço cor de tabaco e botas de couro pretas. Relances que captei de mim mesmo mais tarde em reflexos de janelas revelam que eu usava uma pequena peruca empoada e crespa e um chapéu preto de três pontas. O Dr. Franklin trajava um casaco de couro à moda quacre, usava o próprio cabelo (agora já ficando grisalho) solto sobre os ombros, e trazia sobre a cabeça um chapéu de aba larga como os quacres. Meu cavalo era cor de avelã, o dele um malhado preto e branco. A voz do meu companheiro era agradável, em nada afetada pela idade e sem qualquer sotaque provincial ofensivo. Nossa conversa estava relacionada a uma terrível verdade da qual eu me tornara de alguma forma conhecedor – a saber, que algo hediondo e inexplicável havia acontecido ao tempo, e que em algum ponto adiante de nós aguardava um monstruoso pesadelo de maquinaria e decadência chamado 1935.

Algo hediondo e inexplicável havia acontecido ao tempo.

Franklin não acreditava em mim – mas algum boato chegara ao vilarejo de New-Brunswick, pois quando atravessamos as ruas de pedra daquele lugar encontramos multidões aterrorizadas e ouvimos os sinos tocando em todos os campanários. Perto de Metuchen, um pouco mais tarde, encontramos uma névoa curiosa, e em Rahway pudemos ver as formas espectrais de 1935 (novos edifícios, automóveis e pessoas com trajes modernos) impingindo-se contra as pedras do calçamento, os telhados em mansarda, as fachadas georgianas e os habitantes de calças curtas de 1785.

Mesmo diante disso o Dr. Franklin insistia que estávamos apenas sujeitos a alguma bizarra alucinação coletiva. A meio caminho de Elizabethtown a névoa desapareceu e estávamos integralmente no mundo de 1935, nossos cavalos recuando diante do desconcertante fluxo dos automóveis. Finalmente Franklin percebeu que havia algo gravemente errado, pois vimos os passantes olhando perplexos para nossos trajes. Depois de ponderar o assunto ele pareceu não ter dificuldade em apreender o que havia acontecido; e tão vasto era seu conhecimento científico que ele foi capaz de apreciar os usos contemporâneos do fogo elétrico que ele havia tão espetacularmente arrebatado dos céus em 1752. Na cidade (a contemporânea) de Elizabeth, antes de visitar Leedle Sharlie no número 137 da W. Grande St, parei para comprar um traje de 1935, tendo-o vestido na própria loja. O Dr. Franklin, no entanto, recusou-se a alterar seu traje semi-quacre, e continuou a receber olhares de curiosidade. Em Newark deixamos nossos cavalos num estábulo e tomamos o metrô de Hudson para Nova Iorque, tendo emergido na Rua 33. Aqui ninguém notou o traje do Dr. Franklin, e vagamos livremente; eu apontava para o filósofo as várias maravilhas e horrores (o edifício Empire State, a populaça estrangeira, os estranhos meios de transporte e assim por diante) de 1935, e ele tentava ajustá-los a seu conhecimento anterior (…). Durante essa excursão errante, sem alcançar qualquer clímax dramático e sem a aproximação de qualquer momento decisivo na narrativa, comecei a deslizar vagarosamente vigília adentro.

H. P. Lovecraft,
em carta de 20 de abril de 1935 a Robert H. Barlow

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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