Basta um dia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de janeiro de 2006

Basta um dia

Estocado em Goiabas Roubadas

Há uma cena de A Pequena Sereia, dos estúdios Disney, que me leva invariavalmente a chorar. A doce, doce, doce Ariel está sonhando com a [im]possibilidade de visitar um mundo que não é o seu. Sua vontade de experimentar esse universo que a intriga e apaixona e que lhe foi vedado é tamanha que ela ousa pronunciar a sentença que me faz tremer todas as vezes que a ouço: “eu pagaria por um só dia poder viver [com aquela gente]”.

A parte que me faz estremecer não é a profética “eu pagaria”, mas a porção mais ousada e louca do seu argumento: “por um só dia”. Que desejo absolutamente insano é este, que é tão grande e absoluto e autosuficiente que pode se satisfazer com um único dia. A idéia subjacente é clara: para quem nunca experimentou a felicidade com que sonha, um dia tem peso de vida inteira.

Para Ariel, um dia bastaria. Basta isso para me fazer chorar.

Eu quero estar onde o povo está
Eu quero ver um homem dançando
E passeando em seus…
Como é que eles chamam?
Ah! Pés
Com barbatanas não se vai longe
Tem que ter pernas pra ir andando
Ou pra passear lá na…
Como eles chamam?
Rua
Durante a noite
Durante o dia
Lá eles andam com alegria
Tudo eu faria
Eu só queria ser deste mundo
O que eu daria pela magia de ser humana?
Eu pagaria por um só dia poder viver
Com aquela gente conviver
E ficar fora dessas águas
Eu desejo, eu almejo este prazer
Eu quero saber o que eles sabem
Fazer perguntas e ouvir respostas
O que é o fogo?
O que é queimar?
Será que eu posso ver?
Quero saber, quero morar
Naquele mundo cheio de ar
Quero viver
Não quero ser
Mais deste mar


A cena toda e seu argumento apaixonado é tão efetiva que foi repetida quase na íntegra no de resto lamentável Corcunda de Notre Dame, dos mesmos estúdios.

De seu posto no alto da catedral, Quasímodo deixa claro o que a sereiazinha não disse: que um dia, um único dia entre aqueles que ignoram a dádiva que é “ser eles”, o deixaria inteiramente satisfeito para o resto da vida: “velho e encarquilhado, não importa: terei passado um dia inteiro lá fora”.

Toda minha vida eu os observo, escondido, sozinho aqui em cima
Sedento das histórias que eles me mostram
Toda minha vida eu memorizo os seus rostos
Passando a conhecê-los como eles nunca me conhecerão
Toda minha vida imagino como seria passar um dia
Não acima deles
Mas parte deles
E lá fora
Vivendo sob o sol
Dê-me um dia lá fora
Tudo que peço é apenas um
Para acalentar para sempre
Lá fora
Onde eles vivem sem se dar conta
O que eu daria
O que ousaria
Só pra viver um dia lá fora

Lá fora entre os moendeiros e tecelões e suas esposas
Pelos telhados e frontões eu posso vê-los
A cada dia eles gritam e bronqueiam e vão vivendo suas vidas
Sem se dar conta da dádiva que é ser eles
Fosse eu na pele deles
Acalentaria cada instante
Lá fora
Passeando junto ao Sena
Como a gente comum
Que anda livremente por ali
Um único dia
E juro que me satisfaço
Com meu destino
Não vou me ressentir
Não vou desesperar
Velho e encarquilhado
Não importa
Terei passado, ora
Um dia inteiro
Lá fora


Nenhuma dessas distrações é para se comparar, no entanto, com a maturidade e a pungência e a fustigante beleza de Basta um dia, canção que Chico Buarque escreveu em 1975 para a peça Gota d’água.

Chegando em Chico tenho de parar, porque não tenho mais para onde ir.

Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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