Assentamento • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de janeiro de 2006

Assentamento

Estocado em Manuscritos

O estudante tinha viajado para a praia a fim de mergulhar nas apostilas, mas a febre não o deixava estudar e os sonhos não o deixavam descansar.

O comprido prédio de quatro andares da colônia de férias não estava oficialmente concluído (a piscina permanecia um losango de barbante estendido entre estacas sobre a lama arenosa), mas já vinha sendo usado havia anos e era a terceira vez que o estudante se hospedava aqui: a primeira sozinho. Era o momento mais baixo da temporada, chovia incessantemente e o estudante passou a enxergar o quarto frugal (os colchões depositados diretamente sobre bandejas de concreto) com a aceitação resguardada com que um condenado pisca para sua cela de prisão.

Ele devia estar estudando para o vestilbular, mas só fazia folhear O País de Outubro de Ray Bradbury, que havia contrabandeado no fundo da mochila, sentir o peso da chuva por baixo do cobertor da febre, e sonhar.

O canto setentrional da praia de Piçarras ficava a três ou quatro quadras de distância. O trajeto era orlado por hotéis e edifícios progressivamente mais altos e elegantes do que o seu, mas todos pareciam igualmente vazios. Quase todos os dias, uma ou duas horas antes do anoitecer, a chuva cedia, e às vezes o estudante conseguia violentar-se e forçar-se a uma caminhada.

Essas ocasiões enchiam-no de partes iguais de tédio, empolgação, arrependimento e assombro. Visão mais sinistra do que a praia deserta sob as nuvens opressivas, ver as baratas do mar deslizando para as frestas da rocha quando ele passava, era dar as costas para o mar e encarar a pálpebra cega da orla ao anoitecer: prédio contra prédio contra as encostas dos morros, tudo inteiramente às escuras. Ele caminhava devagar para o sul, onde a curva da praia perdia-se na neblina; na noite que se aperfeiçoava, meia dúzia de janelas iluminadas diluíam-se ao redor da figura solitária, entre o mar confuso e trezentos prédios.

O estudante observava fascinado o requinte com que a cidade balneária se deixara adornar pelas severidades do abandono. A faixa de areia diante da avenida beira-mar era uma exibição de decrepitude: placas de publicidade, lanchonetes, bancos, piers, sorveterias, bancos 24 horas e cabanas desabavam obscenamente uns sobre os outros, todos rigorosamente arranhados pela lepra branca da maresia. A calçada oposta, com suas lojas e entradas de prédios protegidas por gradeados e profanadas por pichações sem convicção, não oferecia maior consolo.

Não fosse o rugido do mar, o estudante sabia, os únicos sons naquelas ruas desoladas seriam os seus. Ou, talvez pior: por causa do mar ele não tinha como saber.

Na volta da sua primeira caminhada, pisando a areia junto da água morna, o estudante encontrou o que não sabia dizer se era um osso ou uma acha de madeira que o mar havia polido à perfeita brancura para enganar-se do seu tédio.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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