Aprendendo a dirigir, parte 1 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de junho de 2005

Aprendendo a dirigir, parte 1

Estocado em Família · Manuscritos

Eu tinha 18 anos quando entrei pela primeira vez no velho Gol de uma auto-escola em Bauru. Meu instrutor, um sujeito de meia-idade com um rosto ao mesmo tempo cansado, entediado e compassivo, perguntou Você sabe dirigir e respondi Não. Era verdade. O homem ligou o carro num suspiro silencioso que parecia expressar A gente encontra cada tipo.

Descobri apenas mais tarde que eu havia sido mantido vivo artificialmente numa bolha antropológica e automobilística, e que qualquer menino que se preze sabe dirigir e/ou manobrar desde os dez anos de idade (alguns, como o Arthur, desde muito antes).

Tenho em minha defesa que, por alguma razão, desde cedo uma enorme quantidade de desinformação sobre o assunto havia sido despejada sobre mim. Eu deveria ter uns quatro anos de idade quando algum espertalhão me informou (ou, possivelmente, imaginei) que Dirigir era muito difícil porque quando você vira o volante para um lado o carro vira, traiçoeiramente, para o outro. Isso para não mencionar a impensável coordenação necessária para apertar-se os pedais certos na hora certa e na ordem certa, empurrar o câmbio na direção certa, na hora certa e na ordem certa, virar a direção, especialmente esta na direção certa e na hora certa, olhar o tempo todo para a frente e ao mesmo tempo patrulhar oniscientemente os espelhos retrovisores – lembrando ainda de usar mãos, pés e olhos na hora certa, na direção certa e na operação certa (pelo menos naquela época não era preciso falar ao mesmo tempo no celular, e pensando bem talvez seja por isso que até hoje não tenho um). Era necessário um semideus para dominar a coisa toda.

Além disso, por razões que só os pais, aquela estirpe particularmente misteriosa de semideuses, saberiam compreender, meu pai proibiu-me explicitamente e advertiu-me severamente contra tocar na direção antes que eu completasse dezoito anos. Esse foi um dos raros casos registrados na literatura médica em que a proibição não produziu a tentação – com dezoito anos eu me interessava por um número notável de coisas, mas dirigir não era uma delas.

Naquela gloriosa tarde num bairro isolado de Bauru, quando comecei a pegar literalmente no tranco, o dom de dirigir permanecia na minha cabeça uma ousada e mística operação de alquimia, cujo sucesso dependia tanto de imponderáveis ingredientes secretos quanto da pureza de coração do candidato. A literatura, a arte e o amor eram em comparação operações mecânicas, estáveis e previsíveis. Como um desanimado candidato diante da pedra de Excalibur, eu sentia que se dependesse de mim daquela rocha não saía espada.

Ignoro o número de horas que concedi ao meu instrutor da minha graciosa companhia, mas o tempo que demorei para aprender a dirigir deveria estar também registrado na literatura médica.

Uma tarde, meses depois daquela primeira aula, eu estava dentro de outro Gol com dois outros candidatos e um austero fiscal, pronto para fazer o meu teste de direção. Olhando pela janela para o meu instrutor em pé lá fora, pensei ver nos olhos dele um misto de desespero e incredulidade. Se havia naquela expressão algum traço de otimismo com relação ao desempenho do seu discípulo, era infundado.

Aquele foi o meu primeiro exame de direção. Eu só seria aprovado no quarto na quarta tentativa.

continua…

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas tem o direito de ficar calada