Anuência • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de março de 2014

Anuência

Estocado em Goiabas Roubadas


Morris Berman


Permita-me concentrar-me um momento no assunto da vacuidade da vida norte-americana, porque creio ser esse o cerne da questão.

A primeira vez em que me dei conta da realidade desse fenômeno foi no final da década de setenta: eu morava em São Francisco e alguma galeria de arte montou uma exposição de fotografias de rostos anônimos europeus das décadas de 1920 e 1930. O que me impressionou foi a profundidade e a complexidade daqueles rostos, e o quanto diferiam dos rostos norte-americanos, que tendem a ser um tanto insípidos. O problema com a filosofia do Mais é que Mais não tem qualquer significado intrínseco. Com o passar dos anos passei a reparar nisso cada vez mais.

Mês passado aconteceu de eu estar em Barcelona, e o Museu de Arte Moderna Europeia abrigava uma exposição de escultura catalã do século vinte – sendo que a maior parte dela consistia em bustos de gente comum – e, sem qualquer dúvida, naqueles rostos se via uma verdadeira presença, uma verdadeira autopercepção: não havia como se enganar.

Finalmente, no dia seguinte fui ao MACBA, o Museu de Arte Contemporânea, e descobri ali a exposição de retratos do fotógrafo inglês Craigie Horsfield, tirados de gente de Barcelona em 1996, pelos quais Horsfield foi indicado para o prêmio Turner. Novamente, a impressão de uma vida interior estava de modo dramático e profundo presente nos olhos e nas expressões daqueles sujeitos, e alguém – quem sabe o curador da mostra – escreveu sobre a obra de Horsfield: “seus retratos individuais trazem-nos à memória a configuração de uma sociedade em que a discordância permanece mais do que nunca viva”. Lembrei-me imediatamente do filme Compliance/Anuência, a reconstrução de um episódio que ocorreu mais de setenta vezes em mais de trinta estados americanos, em que alguém fingindo ser um policial ao telefone levou seus concidadãos americanos a fazer sem questionamento tudo o que ele ia dizendo, não importava quão ultrajante ou degradante fossem as suas demandas.

O filme é uma triste radiografia da psiquê americana, revelando a completa ausência de uma voz interior. No final do filme a mulher que causou a maior parte do estrago como resultado a sua obediência cega é entrevistada na televisão, e tudo que ela quer discutir é o tempo em Nova Orleans.

O que se poderia esperar, no entanto, de uma nação em que os ícones culturais não são Garcia Lorca ou Picasso, mas Tony Robbins e Donald Trump? Uma nação que, para citar Barbara Ehrenreich, é insipidamente otimista, acha que Oprah é uma sumidade e não tem literalmente qualquer compreensão das dimensões trágicas da vida. Uma nação cujos cidadãos usam buttons com faces sorridentes e dizem “tenha um bom dia!” constantemente uns aos outros. Nenhuma análise vertical é necessária aqui: a realidade nos encara no rosto. Tomas Young, um veterano da Guerra do Iraque, colocou as coisas deste modo na carta que escreveu a Bush e Cheney antes de morrer: “Suas posições de autoridade, seus milhões de dólares de fortuna pessoal, seus consultores de relações públicas, seus privilégios e seu poder não conseguem mascarar a vacuidade do caráter de vocês.”

O problema com a filosofia do Mais é que Mais, como já foi observado, não tem qualquer significado intrínseco. Afinal de contas, assim que o obtém você passa a querer – Mais. É esse o sonho americano. Porém a conscientização pública dessa dinâmica – supondo que cheguemos a esse ponto – nos coloca num dilema, pelo menos no que diz respeito a mudanças sociais significativas. Estamos falando finalmente de uma espécie de experiência de conversão; e além do nível individual, que em si mesmo não representa feito de pouca monta, isso só tem como acontecer quando a história nos apresentar uma situação sem saída.

O fato é não podemos manter o sonho americano – hoje em dia tolamente perseguido pelos chineses – porque estamos ficando sem recursos, em particular sem petróleo. O sonho americano não consegue sobreviver sem energia, e quantidades enormes dela. Nossa conversão a um modo diferente de pensar virá desse modo na forma de uma crise, uma crise em que as luzes brandas e sombras quietas – e digo isso no sentido de Tanizaki, querendo dizer uma espécie de austeridade, um autocontrole Zen – serão exaltadas porque não temos os recursos para deixar luzes potentes queimando 24 horas por dia.

O sociólogo russo Pitirim Sorokin chamou esse processo da mudança de uma cultura “sensata” para uma cultura “ideacional”, e é nessa transição que estamos envolvidos. Se a história nos ensina alguma coisa, não será uma transição fácil, porque depois de se fazer uma coisa por muito tempo fica difícil trocar de marcha. Será, imagino, como desintoxicar-se de heroína.

In Praise of Shadows (2013)


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Imagem: Cristian Mantovani

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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