A tristeza de todos os Jecas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de agosto de 2007

A tristeza de todos os Jecas

Estocado em Brasil

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

“Lá no mato tudo é triste”, resume celebremente um verso triste de Tristeza do Jeca, obra do compositor paulista Angelino de Oliveira (1888-1964).

Nesta viola eu canto
e gemo de verdade
Cada quadra
Representa uma saudade

A letra de Tristeza do Jeca é apenas a mais famosa das poesias sertanejas a associar o mato (isto é, a zona rural, o campo – a “roça” em oposição à “cidade”) à tristeza, ao choro e à lamentação. Está longe de ser a única. Antes de resvalar no country e no brega romântico a música sertaneja brasileira era um gemido só – um lamento de rasgar o coração motivado não pela desilusão amorosa, mas, estranhamente, pela leitura direta da tristeza na “paisagem existencial” do sertão.

Desconheço outro país que tenha desenvolvido uma mitologia como a nossa, em que o mato seja, essencialmente, triste. Desertos, estepes e savanas (como os da África, Rússia e Austrália) são tidos em geral como solitários, opressivos e brutais, mas não particularmente tristes. Na Europa e na sua filha América do Norte a floresta é vista como ameaçadora, intimidadora, traiçoeira; estar longe da cidade é estar à mercê do perigo. Essa visão de mundo explica, em parte, a obsessão do hemisfério setentrional com histórias de terror – gênero que nunca chegou a ter verdadeira penetração entre nós, porque no Brasil o mato não dá medo, dá vontade de chorar. Não é ameaçador, é triste.

Lá no mato tudo é triste
Desde o jeito de falar
Pois o jeca quando canta
Tem vontade de chorar

O folclorista e compositor Cornélio Pires, responsável pela gravação do primeiro disco de música caipira no Brasil, cria que o cárater lamentoso da música sertaneja tem raízes profundas na história tupiniquim. O lamento caipira, explicava Pires, “reflete diretamente a tristeza do índio escravizado, a condição do escravo no cativeiro e a saudade que o português tem da sua terra [na Europa]”.

Ou seja: dos três elementos que, mesclados no cadinho mítico das raças, teriam formado a figura do brasileiro, não havia um sequer satisfeito com a sua sorte. Todos – índio brasileiro, escravo africano e colonizador português – haviam sido arrancados de uma condição de bem-aventurança anterior, e só lhes restava lamentar o seu destino. Somos nostalgia pura.

Dá vontade de chorar.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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