A torre de Babel • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de fevereiro de 2009

A torre de Babel

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NOÉ: A torre de Babel

A perversidade e a irreligiosidade de Ninrode atingiram seu clímax na construção da torre de Babel. Seus conselheiros apresentaram o projeto de edificação da torre, Ninrode concordou, e foi executado em Sinar por uma multidão de seiscentos mil homens. O empreendimento era nada mais nada menos do que rebelião contra Deus, e entre os edificadores havia três classes de rebeldes. O primeiro grupo dizia “subamos até o céu e travemos guerra contra ele”, o segundo grupo dizia “subamos até o céu, instalemos ali nossos ídolos e prestemos adoração a eles”, e o terceiro dizia “subamos até o céu e devastemo-lo com nossos arcos e lanças”.

Muitos anos foram gastos na construção da torre, que atingiu tamanha altura que era necessário um ano inteiro para chegar ao topo. Um tijolo tornou-se, portanto, mais precioso aos olhos dos construtores do que um ser humano. Se um homem caía e encontrava sua morte, ninguém se dava conta, mas se um tijolo caía e se quebrava todos choravam, porque seria necessário um ano para substitui-lo.

Tão obcecados estavam em atingir o seu propósito que não permitiam que uma mulher interrompesse seu trabalha na confecção de tijolos mesmo quando chegava a hora do parto. Modelando tijolos ela dava à luz seu filho e, amarrando-o junto ao corpo com um lençol, continuava fazendo tijolos.

Não diminuíam jamais o ritmo do trabalho, e das alturas vertiginosas que haviam atingido lançavam continuamente flechas em direção ao céu. Viam que as flechas voltavam cobertas de sangue, pelo que reforçavam a sua ilusão e gritavam:

— Matamos todos que estão no céu!

Diante disso Deus voltou-se para os setenta anjos que circundam seu trono e disse:

— Ora, desçamos e confundamos a linguagem deles, para que não entendam a fala um do outro.

E assim foi. A partir daquele momento ninguém soube o que o outro estava dizendo. Se um pedia argamassa, o outro lhe dava um tijolo; num acesso de fúria, o segundo jogava o tijolo no primeiro e o matava. Muitos morreram dessa forma, e os restantes foram punidos de acordo com a rebeldia da sua conduta. Os que haviam dito “subamos até o céu, instalemos ali nossos ídolos e prestemos adoração a eles”, Deus transformou em macacos e fantasmas; os que havia proposto atacar o céu com suas armas, Deus fez com que lutassem uns com os outros de modo a que caíssem em combate; e os que haviam decidido travar uma guerra contra Deus no céu foram espalhados por completo sobre a face da terra.

Quanto à torre incompleta, uma parte afundou terra adentro, outra foi consumida pelo fogo; apenas um terço permaneceu de pé. O lugar onde foi construída a torre jamais perdeu sua qualidade peculiar: qualquer um que passa por ali esquece tudo que sabe.

Em relação ao tamanho da sua transgressão, foi branda a punição infligida sobre a geração pecaminosa da torre. Por sua rapinagem a geração do dilúvio foi destruída por completo, enquanto que a geração da torre foi poupada a despeito de suas blasfêmias e de todos seus demais atos ofensivos a Deus. A razão disto está em que Deus tem em alta conta a paz e a harmonia. Por isso a geração do dilúvio, em que as pessoas entregavam-se a saques e depredações e nutriam ódio uns pelos outros, foi extirpada até a raiz, enquanto a geração da torre de Babel, em que as pessoas conviviam amigavelmente e amavam umas às outras, foi poupada pelo menos em parte.

Além da punição do pecado e dos pecadores através da confusão da fala, outra circunstância notável permanece ligada à descida de Deus à terra — sendo esta uma das dez descidas dessa natureza que devem ocorrer entre a criação do mundo e o dia do julgamento. Foi nessa ocasião que Deus e os sessenta anjos que circundam seu trono fizeram um sorteio sobre diversas nações da terra. A cada anjo foi sorteada uma nação, e a sorte de Israel recaiu sobre Deus. A cada nação foi destinado um idioma, sendo o hebraico — a linguagem usada por Deus na criação do mundo — reservada para Israel.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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