A serpente é astuta • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de agosto de 2008

A serpente é astuta

Estocado em Manuscritos

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A serpente é astuta e não revelará com facilidade o seu verdadeiro papel numa narrativa que, em termos estritos, não precisa dela para levar o seu conflito adiante. Requer-se-á uma outra forma de astúcia para entender o que a serpente está fazendo na história do Éden, e serão necessários dois mil anos para que Jesus contribua com uma interpretação esclarecedora.

Por enquanto deverá bastar contrapor a singeleza do texto às evasivas complexidades da nossa própria tradição. Para começar, é necessário contornar os rótulos que intérpretes e tradições dão ao que está acontecendo. Dar nomes é interpretar, e as interpretações acabam resvalando para dentro das histórias antes que cheguemos a elas pela primeira vez (e, precisamente da mesma forma que a história da Queda prescinde da serpente, o significado de uma narrativa prescinde das interpretações que lhe impõe a tradição).

Quem se aproxima do terceiro capítulo de Gênesis é invariavelmente guiado por um título que não faz parte do texto original. Estará, sem escapatória, na sua própria edição de Bíblia: “A tentação de Adão e Eva” — ou alguma variante desse mesmo preconceito. Este crédito de abertura, inserido pelos que tinham a boa intenção de catalogar em compartimentos estanques o inquieto fluido da narrativa bíblica, é pelo menos tão enganador quanto a serpente.

Pois a narrativa, incrivelmente, não usa a palavra tentação nem qualquer uma de suas variantes; não usa a palavra pecado, nem qualquer uma de suas variantes; não remete de forma direta (e quem sabe mesmo indireta) a qualquer um desses conceitos. Quando damos a este episódio o nome de “tentação de Adão e Eva” e à sua resolução o nome de “pecado original”, imprimimos à história uma interpretação retrospectiva que ela mesma procura evitar.

E por uma boa razão.

Paulo Brabo @saobrabo

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