A Reforma e a psicotização da experiência: materialistas, graças a Deus • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 30 de novembro de 2009

A Reforma e a psicotização da experiência: materialistas, graças a Deus

Estocado em Fé e Crença

Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de psicose é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua experiência, é rigorosamente concreto e literalista. Um neurótico — isto é, uma pessoa normal — enxerga uma palavra cercada por uma aura sempre cambiante de sentidos, interpretações, alusões, metáforas e ambivalências. Para o psicótico, não existe dúvida nem ambivalência: significante e significado são uma mesma e implacável coisa. Para o psicótico, um domínio da experiência não é refletido ou mapeado por outro. Nada remete:É graças à Reforma que somos todos materialistas. a representação é ela mesma a coisa, e tudo que existe é o literal.

As peculiaridades dessa condição tornam o psicótico em grande parte impermeável à psicanálise — que requer, por definição, a resignificação de elementos simbólicos e a reelaboração de mitos e metáforas. Como para o psicótico não existem mitos nem metáforas, tudo tudo é duramente pé-da-letra, seu espírito está condenado a vagar em regime perene pela concretude, sem ser jamais capaz de enxergar a luz e adentrá-la.

Neurótico como sou, não pude deixar de encontrar espreitando nessa noção sua própria e necessária metáfora. Bastará voltar, como devemos sempre fazer, àquele que talvez seja o documento mais importante jamais armazenado nesta Bacia: O holocausto da alma, que consiste essenciamente na tradução que fiz de um artigo de Peter Harrisson.

Ali está escrito que a Reforma Protestante, com sua ênfase no sentido literal da Escritura (“literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não”), não apenas trabalhou no sentido de expurgar da experiência cristã qualquer manifestação simbólica, de poesia, metáfora ou transversalidade (coisas que ainda permeiam, por exemplo, a vivência do catolicismo); esse modo “concreto” e “literalista” de enxergar a existência acabou contaminando ainda toda a cosmovisão ocidental, mesmo para os que vivem fora do alcance dos telhados eclesiásticos.

Os reformadores apostaram todas as suas cartas na suficiência do literal; isso implicava em atestar a supremacia de uma leitura científica “realista” em detrimento de abordagens mais simbólicas, alegóricas e literárias do texto. A Bíblia era para ser entendida como testemunho literal de uma realidade “concreta”, e nisso deveria confirmar os crivos empíricos da ciência e ser confirmada por eles. Com o arrastar dos séculos, no entanto, a ênfase no literal acabou voltando-se contra a própria Bíblia: a ciência finamente desvalidou a própria literalidade da Bíblia — via Darwin, por exemplo.

A ciência vencera e hoje reina suprema. Os elementos da natureza foram esvaziados de seu valor simbólico e a Bíblia de sua essência metafórica e mítica. Depois de insistirem por séculos que o cerne vital da Bíblia jazia na sua literalidade, os herdeiros do protestantismo ficaram sem graça de mudar o seu discurso e apontar que sua verdadeira e transformadora relevância é metafórica. Ridicularizamos por tanto tempo as parábolas que perdemos a capacidade de levá-las a sério — isto é, de lê-las como parábolas. E, quando, começamos, já era tarde demais: é graças à Reforma que somos todos materialistas.

Somos hoje em dia todos psicóticos funcionais, sem verdadeiro acesso à poesia e à metáfora. E os cristãos sequer se contentaram em limitar sua obra a seus próprios arraiais. Psicotizamos a própria experiência.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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