A punição • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de maio de 2007

A punição

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ADÃO: A punição

Enquanto Adão permaneceu nu, buscando algum meio de escapar do seu embaraço, Deus não apareceu a ele, pois não devemos “nos esforçar para ver um homem na hora da sua desgraça”. Ele esperou que Adão e Eva se cobrissem com folhas de figueira. Porém mesmo antes que Deus falasse com ele, Adão sabia o que estava para acontecer. Ele ouviu os anjos anunciarerm:

– Deus está dirigindo-se àqueles que habitam o Paraíso.

Ele ouviu mais, aquilo que os anjos estavam dizendo uns aos outros sobre a sua queda, e o que estavam dizendo a Deus. Perplexos, os anjos exclamavam:

– Quê? Ele ainda anda livremente pelo Paraíso? Não morreu ainda?

Pelo que Deus se pronunciou:

– Eu disse a ele “no dia em que comer você certamente morrerá”. Ora, vocês não sabem de que tipo de dia eu estava falando; se de um dos meus dias de mil anos ou de um dos dias de vocês. Darei a ele um dos meus dias: ele terá novecentos e trinta anos para viver, e setenta para deixar aos seus descendentes.

Quando Adão e Eva ouviram Deus se aproximando, esconderam-se entre as árvores – o que não teria sido possível antes da queda. Antes de cometer o seu pecado, a altura de Adão ia da terra ao céu, mas depois foi reduzida a cem côvados. Outra conseqüência do seu pecado foi o medo que Adão sentiu quando ouviu a voz de Deus; antes da queda ela não o inquietava de modo algum. Por isso quando Adão disse “Ouvi a sua voz no jardim e tive medo”, Deus replicou: “Antes você não tinha medo, agora tem?”

Deus conteve as repreensões a princípio. Em pé no portão do Paraíso ele apenas perguntou:

– Adão, onde está você?

Deus queria dar a ele a oportunidade de se arrepender.

Através disso Deus estava querendo ensinar ao homem uma regra de boas maneiras, a de nunca entrar na casa de outra pessoa sem anunciar-se primeiro. Não há como negar que as palavras “onde está você?” estavam prenhe de signficado; elas destinavam-se a fazer com que Adão percebesse a vasta diferença entre seu estado anterior e o atual: entre seu tamanho sobrenatural anterior e as dimensões reduzidas de agora; entre o senhorio do Senhor de antes e o senhorio da serpente de agora. Ao mesmo tempo, Deus queria dar a ele a oportunidade de se arrepender do seu pecado, para o qual Adão teria recebido o perdão divino. Porém, longe de arrepender-se, Adão difamou a Deus, proferindo blasfêmias contra ele. Quando Deus perguntou: “Você comeu da árvore que eu mandei que não comesse?” Adão não confessou o seu pecado, mas tentou justificar-se com as seguintes palavras:

– Ah, Senhor do mundo! Enquanto eu estava sozinho não caí em pecado, mas logo que me veio essa mulher ela me tentou.

Deus replicou:

– Eu a dei a você para ajudá-lo, e você está se mostrando ingrato ao acusá-la dessa forma, dizendo “foi ela que me deu o fruto da árvore”. Você não a deveria ter obedecido, pois a cabeça é você, não ela.

Deus, que sabe todas as coisas, já havia previsto exatamente isso, e não havia criado Eva até que Adão lhe pedisse uma ajudadora, para que ele tentasse colocar a culpa em Deus por ter criado a mulher.

Adão tentava colocar em outra pessoa a culpa pelo seu delito, e o mesmo fez Eva. A mulher, como seu marido, também não confessou sua transgressão e orou por perdão, o que teria sido concedido a ela. Gracioso como é, Deus não teria proferido condenação sobre Adão e Eva antes deles se mostrarem obstinados. Não foi assim com a serpente. Deus infligiu a maldição sobre a serpente sem ouvir a sua defesa, porque a serpente é perversa, e os iníquos são bons argumentadores. Se Deus a tivesse questionado a serpente teria perguntado:

– O senhor deu-lhes um mandamento e eu o neguei. Por que eles obedeceram a mim e não ao senhor?

Por isso Deus não entrou numa discussão com a serpente, mas decretou diretamente as seguintes dez punições: a boca da serpente foi fechada e ela perdeu a capacidade de falar; suas mãos e pés foram cortados fora; a terra lhe foi dada como alimento; ela é forçada a sofrer dor intensa durante a troca de pele; inimizade passou a existir entre ela e o homem; se ela comer as iguarias mais finas ou beber as bebidas mais doces, essas se transformarão em pó na sua boca; a gravidez da fêmea dura sete anos; as pessoas tentarão matá-la logo que a virem; mesmo no mundo futuro, quando todos os seres serão benditos, ela não escapará a punição decretada para ela; e desaparecerá da Terra Santa se Israel seguir nos caminhos do Senhor.

Além disso, Deus disse à serpente:

– Criei você para reinar sobre todos os animais, tanto os animais domésticos quanto as feras do campo, mas isso não lhe satisfez. Você será por essa razão mais maldita do que qualquer animal doméstico ou fera do campo. Criei você para ter uma postura ereta, mas isso não lhe satisfez. Você deverá por essa razão andar sobre sua barriga. Criei você para comer a mesma comida que o homem, mas isso não lhe satisfez. Você deverá por essa razão comer poeira todos os dias da sua vida. Você procurou causar a morte de Adão a fim tomar dele a sua esposa. Eu por isso estabeleço inimizade entre você e a mulher.

Quão verdadeiro é que aquele que cobiça o que não lhe é devido não apenas não obtém o que deseja, mas perde também aquilo que tem!

Os anjos estavam presentes quando a condenação foi proferida contra a serpente (pois Deus havia convocado o Sinédrio dos setenta e um anjos ao sentar-se para julgá-la), portanto a execução do decreto contra ele foi confiada aos anjos. Eles desceram do céu e cortaram as mãos e os pés da serpente. Seu sofrimento foi tamanho que seus berros de agonia foram ouvidos de uma extremidade a outra do mundo.

O veredito contra Eva consistiu também de dez maldições, sendo que o seu efeito é ainda perceptível até hoje na condição física, espiritual e social da mulher. Não foi o próprio Deus que anunciou a Eva a sua sina. A única mulher com quem Deus jamais falou foi Sara. No caso de Eva ele valeu-se dos serviços de um intérprete.

Finalmente, a punição de Adão também foi dividida em dez partes: ele perdeu seu traje celestial – Deus o despiu; com dificuldade ele teria de ganhar o seu pão; a comida que ele comia se transformaria de boa em ruim; seus filhos vagariam pela terra; seu corpo secretaria suor; ele teria uma inclinação para o mal; na morte seu corpo seria presa de vermes; os animais teriam poder sobre ele, no sentido de que poderiam matá-lo; seus dias seriam poucos e cheios de adversidade; e no fim ele teria de prestar contas de toda a sua conduta sobre a terra.

Deus teria permitido que eles permanecessem no Paraíso.

Esses três pecadores não foram os únicos a receberem punição. A terra não teve melhor sorte, sendo culpada de vários delitos. Em primeiro lugar, ela não havia obedecido por completo à ordem que Deus dera no terceiro dia, de produzir “árvores frutíferas”. O que Deus desejara era uma árvore cuja madeira fosse agradável ao paladar da mesma forma que o fruto. A terra produziu árvores que davam frutos, mas a árvore em si não era comestível. A terra, além disso, não cumpriu o seu dever em relação ao pecado de Adão. Deus havia designado o sol e a terra para testemunharem contra Adão caso ele transgredisse. O sol, em conformidade com isso, escurecera no instante em que Adão tornara-se culpado de desobediência; porém a terra, não sabendo como apontar a queda de Adão, desconsiderou-a por completo. A terra sofreria também uma punição dividida em dez partes: sendo antes independente, a terra teria agora de esperar para ser regada pela chuva do alto; os grãos que ela produz seriam suscetíveis a ressecamento e mofo; ela teria de produzir toda espécie de vermes odiáveis; a partir daquele momento ela seria dividida em vales e montanhas; teria de fazer crescer árvores infecundas, que não dão fruto; espinhos e abrolhos brotariam dela; muito seria semeado na terra, mas pouco colhido; no futuro a terra terá de revelar o sangue que abriga, não podendo mais encobrir seus mortos; e, finalmente, ela deveria envelhecer como uma roupa.

Quando Adão ouviu as palavras “você produzirá espinhos e abrolhos” dirigidas [por Deus] à terra, seu rosto começou a suar, e ele disse:

– Quê? Será que eu e meu gado comeremos do mesmo coxo?

O Senhor teve misericórdia dele, e disse:

– Por causa do suor do seu rosto, você comerá pão.

A terra não foi a única coisa criada a sofrer com o pecado de Adão. O mesmo destino sobreveio à lua. Quando a serpente seduziu Adão e Eva, expondo a sua nudez, ambos choraram amargamente, e com eles choraram o céu, o sol e as estrelas, e todos os seres criados e coisas diante do trono de Deus. Os próprios anjos e seres celestiais lamentaram a transgressão de Adão. Apenas a lua riu, pelo que Deus se enfureceu e diminuiu a sua luminosidade. Ao invés de brilhar de forma invariável como o sol, ao longo de todo o dia, a lua envelhece rápido, e é obrigada a nascer e renascer vez após outra.

A conduta insensível da lua ofendeu a Deus, não apenas pelo contraste com a compaixão demonstrada por todas as outras criaturas, mas porque ele mesmo enchera-se de pena de Adão e sua esposa. Ele fez para eles roupas da pele tirada da serpente, e teria feito ainda mais; teria permitido que eles permanecessem no Paraíso, se eles apenas tivessem se mostrado arrependidos. Mas Adão e Eva recusaram-se a se arrepender e tiveram de partir, para que seu entendimento semelhante ao divino não os levasse a pilhar a árvore da vida e aprendessem a viver para sempre. De certo modo, ao expulsá-los do Paraíso, Deus não deixou que o atributo divino da justiça prevalecesse por completo. Ele associou misericórdia à justiça, e enquanto partiam ele disse:

– Ah, que pena que Adão não foi capaz de guardar o mandamento dado a ele nem por um pouco de tempo!

Para guardar a entrada do Paraíso, Deus designou os querubins, também chamados de espadas flamejantes eternamente revolventes, porque os anjos podem alternar-se entre um formato e outro de acordo com a necessidade. Ao invés da árvore da vida, Deus deu a Adão a Torá, que é semelhantemente uma árvore da vida para os que se apegam a ela, permitindo que ele habitasse no oriente, nas proximidades do Paraíso.

Tendo a sentença sido pronunciada sobre Adão, Eva e a serpente, o Senhor ordenou que os anjos conduzissem o homem e a mulher para fora do Paraíso. Esses começaram a chorar e suplicar amargamente, e os anjos tiveram pena deles, deixando de cumprir a ordem divina até que pudessem pedir a Deus que mitigasse o seu severo veredito. Porém o Senhor foi irredutível:

– Fui por acaso eu que cometi uma transgressão ou pronunciei falso julgamento?

Também a oração de Adão, que lhe fosse dado de comer o fruto da árvore da vida, foi negada – porém com a promessa de que, se ele levasse uma vida piedosa, ser-lhe-ia dado o fruto no dia da ressurreição, e viveria para sempre.

Eles haviam desfrutado dos esplendores do Paraíso por poucas horas.

Vendo que Deus estava irremediavelmente decidido, Adão começou a chorar e implorar aos anjos que lhe dessem pelo menos permissão para levar consigo especiarias de doce aroma para fora do Paraíso, para que lá fora ele também pudesse oferecer ofertas a Deus, e suas orações fossem aceitas diante do Senhor. Pelo que os anjos foram até Deus e disseram:

– Rei da eternidade, ordena-nos que demos a Adão temperos de doce aroma do Paraíso.

E Deus ouviu a oração deles. Adão colheu açafrão, nardo, cálamo e canela, e além disso toda sorte de sementes para o seu sustento. Carregando essas coisas, Adão e Eva deixaram o paraíso e vieram à terra. Eles haviam desfrutado dos esplendores do Paraíso por um brevíssimo período, de umas poucas horas. Foi na primeira hora do sexto dia da criação que Deus teve a idéia de criar o homem; na segunda hora ele pediu o conselho dos anjos; na terceira ele juntou terra para o corpo do homem; na quarta, formou Adão; na quinta revestiu-o de pele; na sexta seu corpo sem alma estava completo, de modo que ele podia postar-se de pé; na sétima a alma foi soprada nele; na oitava o homem foi conduzido ao Paraíso; na nona foi dada a ele a ordem divina que proibia-o de comer o fruto da árvore no meio do jardim; na décima ele transgrediu essa ordem; na décima primeira foi julgado, e na décima segunda hora foi expulso do Paraíso para expiação do seu pecado.

Esse dia fatídico foi o primeiro do mês de Tishri, por isso Deus disse a Adão:

– Você será o protótipo dos seus filhos. Da mesma forma que você foi julgado por mim neste dia e absolvido, os filhos de Israel serão julgados por mim neste dia de Ano Novo, e serão absolvidos.

Cada dia da criação produziu três coisas: o primeiro, o céu, a terra e a luz; o segundo, o firmamento, o gehenna e os anjos; o terceiro, árvores, ervas e o Paraíso; o quarto, o sol, a lua e as estrelas; o quinto, peixes, pássaros e o leviatã. Como Deus planejava descansar no sexto dia, o Sábado, trabalhou em dobro na sexta-feira, produzindo seis criaturas: Adão, Eva, gado, répteis, feras do campo e demônios. Os demônios foram criados logo antes do início do Sábado e são, por essa razão, espíritos sem corpo – o Senhor não teve tempo de criar-lhes corpos.

O Senhor não teve tempo de criar corpos para os demônios.

No crepúsculo entre o sexto dia e o Sábado dez criações foram produzidas: o arco-íris, mantido invisível até o tempo de Noé; o maná; as fontes de água, das quais Israel tiraria água para saciar sua sede no deserto; a inscrição sobre as duas placas de pedra dadas no Sina; a pena com a qual a inscrição foi escrita; as duas placasem si; a boca da mula de Balaão; o túmulo de Moisés; a caverna na qual habitariam Moisés e Elias, e a vara de caminhada de Arão, com suas flores e amêndoas maduras.

Photo by Simon Pais

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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