A primeira blasfêmia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de fevereiro de 2008

A primeira blasfêmia

Estocado em Manuscritos

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A primeira blasfêmia, portanto, está em Deus achar necessário criar o universo antes de criar o homem.

A quem acompanha a narrativa podem ocorrer pelo menos duas soluções para o problema do céu e da terra, nenhuma das quais diz coisa muito generosa sobre a auto-imagem divina. Por um lado, o planejamento e a execução do universo parecem indicar que Deus não se considerava, ele mesmo, suficiente para o homem – o que é, naturalmente, desconcertante ao ponto do inconcebível. Sendo a divindade quem é, não bastaria para o homem Deus, somente Deus, assim seco e sem gelo? Os céus declaram a glória de Deus, opina o salmista; para quem observa a mesma cena por outro ângulo, céu e terra são uma esmagadora declaração de divina insuficiência. Então Deus precisa do universo para nutrir o homem?

Por outro lado – e eis o segundo problema – com a exuberância do céu e da terra Deus proporciona um pano de fundo contra o qual ele mesmo pode acabar passando despercebido para o ser humano. Não há como ignorar a façanha: o universo que Deus produz é, incrivelmente, suficiente sem Deus. Se ama de fato o homem e quer intimidade com ele, por que deitar sua obra mais cara num mundo tão extraordinariamente bem amarrado (com seus astros e estrelas e animais selvagens e animais domésticos e aves do céu e peixes do mar e árvores frutíferas e ervas do campo, “cada um segundo as suas espécies”) que prescinde horrivelmente de Deus?

Aqui estão, logo nas primeiras páginas da história, dois enigmas que são um: Deus não se considera suficiente mas cria um universo suficiente. O que ele está tentando provar? O que está tentando esconder?

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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