A paixão de Francesco • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de novembro de 2010

A paixão de Francesco

Estocado em Manuscritos

Os indícios estavam em todo lugar, mas a revelação só me atingiu, digamos, na Galeria dell’Accademia de Florença, e não foi diante dos pés de carne branca do Davi de Michelangelo.

Porque naqueles meus primeiros sete dias na Toscana encontrei arte medieval em todo lugar — nos museus, nas igrejas, nas portas, nos tetos, nos cemitérios, nos campanários, nos batistérios, nos palácios, nos castelos, nas torres, nos átrios e nos monastérios, — e toda manifestação de cultura daquele período é uma ruminação da história sagrada. O paraíso, a queda, a lei, a encarnação, a cruz, a ascensão, o martírio e a singularidade dos santos, o juízo final, o inferno, o purgatório e, finalmente, o retorno ao paraíso; tudo que a arte medieval tem para contar está contido nesse círculo.

E, com frequência, estão todas essas estações figuradas numa mesma obra. Cá embaixo, demônios de olhos desvairados arrastam os impenitentes para os poços infernais; mais acima, na mesma pintura, os fiéis são alçados do perigo do lago de fogo por anjos de asas azuis; ainda mais acima, santos e mártires, muitos deles trazendo no corpo as marcas e lacunas do seu sofrimento, formam um austero círculo ao redor de uma cruz vazia e abaixo do arco bem-aventurado dos doze apóstolos; no céu, acima deles e orlados por nuvens de querubins e rosáceas de luz, Onde estava o Jesus encarnado, ele também estava.cintilam em dourada glória a Virgem e o Pai; e, acima de todos, dois dedos erguidos numa invariável benção, rege o universo o entronizado Filho: Rei de todos, Salvador de todos, Senhor de todos.

Mas há na parede seguinte um afresco que retrata a criação e a queda; na outra esquina uma anunciação, uma crucificação, algum martírio, um diabo reptiliano sendo lançado no lago de fogo, a vitória de um santo do Antigo Testamento. E é assim em todos os museus, em todas as igrejas, em todas as capelas, em todos os tetos — até que o cristão se encontre totalmente varado pela beleza dourada e vermelha, sacra e macabra, divina e humana, vária e absolutamente consistente, do universo medieval.

Para tudo isso, muito evidentemente, eu estava preparado. Afinal de contas, há a Comédia. Há Palestrina. Há Umberto Eco. Advertido por profetas desse calibre, eu já sabia o que esperar. Não tinha como antecipar a intensidade da coisa, a legitimidade e o vigor de expressão daquelas pinceladas e aplicações de ouro, marcas gravadas na carne do tempo por gente que já morreu; mas não ignorava o próprio fato de que seria esmagado pelo que estava ainda por ver.

O que eu não esperava era encontrar um homem de carne e osso estendendo a mão para me tocar através daquela arte; não esperava ser seduzido pela gentileza de um morto e ser reduzido à mais completa submissão pela mera unanimidade da sua herança.

Porque, finalmente percebi, enquanto caminhava de um vertiginoso salão para o outro: onde estava o Jesus encarnado, ele também estava. São Francisco eu conhecia de um poeminha de Vinícius, o santo magrinho amigo da natureza, mas aqui estava um homem muito singelo e muito real; meu amigo italiano o chamava simplesmente de Francesco, com a reverência e a familiaridade que só se reservam para aqueles que o coração já acolheu. E o que ocultava meu desconhecimento da sua história as pinturas revelavam além de qualquer dúvida: um homem absolutamente dobrado — absolutamente definido e devastado e justificado — por sua paixão por Jesus.

Se a pintura é de um homem segurando no colo o Deus-menino, o homem é Francesco. Se o homem Jesus aparece a uma multidão de santos e apóstolos, é sem dúvida Francesco aquele agarrado aos seus pés. Se a cena é da crucificação, os apóstolos, os santos e as mulheres observam austeramente à distância; Maria e o jovem João estão postados em reverência mais perto da cruz, mas apenas Francesco — o apaixonado, o incontido, o livre — estará abraçando (meu Deus, abraçando) as pernas do crucificado, o rosto e o corpo transtornados de dor e amor. Se Jesus já foi baixado da cruz e está debaixo das lágrimas de Maria, o homem que segura sua cabeça entre dedos magros, ou mantém a testa apertada contra os joelhos de seu Deus morto: Francesco.

Onde todos estão revestidos de alguma glória, Francesco está descalço ou de sandálias, e não veste (na verdade não tem) mais do que uma despretensiosa túnica marrom. Onde todos permanecem à distância, Francesco já abandonou qualquer recato e qualquer prudência e despejou-se para tocar o seu mestre diante de todos — diabos, santos, centuriões, anjos, judeus, romanos, céu e inferno.

A vertigem dessa unanimidade, oferecida uma imagem após a outra, acabou por me derrubar. Começa no medievo tardio, que foi também a sua época, mas é marca que se estende ao Renascimento, ao Barroco e era moderna adentro. É seu milagre e sua tremenda herança: se há um homem tocando o corpo de Jesus, esse homem é Francesco.

Há, de fato, este sinal e este enigma: a relação de Francesco com Jesus, como representada na iconografia do medievo e do barroco, é claramente sensorial. Se o Filho do Homem está presente, Francesco estará abraçando suas pernas, seus pés, suas mãos, seus braços, seu torso, sua cabeça. É uma paixão que não se esconde, séculos adentro, e que sobrevive a todos os estilos, todos os maneirismos, todas as censuras. Francesco é o homem abraçado ao corpo de Jesus. O protestante dentro de mim ficou devidamente constrangido diante dessa intimidade, apenas para desabar no momento seguinte diante da sua singeleza.

Então finalmente entendi, derramando lágrimas que também são estas, a enormidade da obra de um homem que recuperou para sua época e incorporou para as seguintes a singeleza, a vitalidade descalça e a simplicidade do rabi da Galileia. Pois a igreja havia ao longo dos séculos pintado um Jesus tremendo e distante, coroado de glória, poderoso, entronizado e muito rico; um Jesus rei, impassível e vigilante, que observava e punia seus irrelevantes subordinados de seu posto acima de tudo e de todos. Em tudo, um Jesus cuja imagem servia apenas para legitimar os poderes que oprimiam o povo e patrocinavam a desigualdade do sistema.

Então um homem, que antes de ser santo foi comerciante e foi soldado, encarnou Jesus nesta terra. Um homem ousou levar a sério a imprudência deitada pela primeira epístola de João, aquela que declara quem afirma estar nele deve viver como ele viveu.

E Francesco efetivamente desafiou e abalou todos os sistemas, porque sua paixão pela vitalidade de Jesus habilitou-o a encarná-lo em vida. Francesco encontrou no evangelho a poesia que definiria a sua vida, e teve a delicadeza de transpô-la para a linguagem do seu próprio tempo, enaltecendo as coisas mais simples: a água, o sol, a terra, as estrelas e o prazer de andar descalço.

Em sua pobreza, Francesco declarou-se e estabeleceu-se como irmão de todos. Em palavras e em atitudes viveu louvando o Deus da pequenas coisas, as coisas que estão ao alcance de todos mas estão muitas vezes vedadas, ocultas em sua simplicidade, aos grandes e notáveis. Coisas que pra mor de ver, como lembravam Luiz Gonzaga e Humberto Pereira, o cristão tem de andar a pé. Glórias que não revestiram Salomão.

Na gentil subversão de viver como se no mundo não houvesse ganâncias, diferenças ou ameaças, o santo de Assis ensinou ao mundo que Jesus não era um rei distante que se devia temer, mas um homem amantíssimo que valia à pena abandonar tudo para abraçar.

Isso tudo aprendi sobre Francesco só de olhar aquelas pinturas e afrescos, e tremi de pensar que é dessa maneira que devem tê-lo aprendido meus irmãos em outro tempo. Mais tarde li os episódios de sua história, mais tarde li suas recomendações e poemas, mais tarde fui visitá-lo onde repousa e fala em Assis, a cidade sobre o monte. Mas Francesco estava inteiro ali naquela primeira semana, já era meu irmão e já havia me feito cativo.

No eremitério de Assis, para se visitar a cela de Francesco, o visitante deve atravessar uma longa galeria de corredores, escadas e salas intermediárias; a lição está em que as portas vão ficando menores e mais baixas, e é preciso curvar-se cada vez mais para se entrar no recinto seguinte, até o final. Francesco usava essa disciplina para lembrar-se de que é preciso humildade para aproximar-se de Jesus, mas seus irmãos usamos o mesmo recurso para lembrar que é preciso humildade para aproximar-se de Francesco.

Vivendo como seu mestre viveu, o poverello demonstrou estar nele, e revelou-o em gentileza e glória para sua geração e também para nós. É nesse sentido absolutamente justo, absolutamente literal, que a arte medieval e posterior retrate Francesco como estando sempre ao lado de seu irmão Jesus, quando a razão insiste que os separem um abismo de séculos.

Ora, a razão não sabe nada dessas coisas. O amor atravessou os séculos e alterou a história. São Francisco estava abraçando os pés de Jesus na cruz, porque sua humildade decidiu assim. Fique registrado para todas as gerações, para sua memória: um homem ganhou o privilégio de estar com Jesus para sempre. E viveu atestando que esse é um privilégio que poderia também ser o nosso, se apenas suportássemos o peso devastador da simplicidade; se apenas nos rebaixássemos a viver como ele viveu.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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