A obra da serpente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de janeiro de 2009

A obra da serpente

Estocado em Manuscritos

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A obra da serpente é feita ainda mais notável porque ela consegue contaminar uma injunção que é boa e bem-intencionada — algo a que mais tarde se daria o nome genérico de mandamento — sem recorrer uma única vez à falsidade ou à mentira.

O único ponto do seu discurso cuja veracidade alguém poderia colocar em dúvida está no seu desconcertante “certamente não morrerás”, isto é, “garanto que vocês não vão morrer”. Ainda mais fácil, no entanto, é colocar em dúvida a verdade do que o próprio Deus havia dito, “no dia em que comerem [do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal] vocês morrerão”. Ou ambos estavam mentindo ou ambos falavam de coisas diferentes, pelo que não podem ser condenados.

Porém a fidedignidade daquilo que consiste no cerne da sedução — “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão, e serão como Deus, conhecendo o bem e o mal” — a própria narrativa não demorará, em termos muito explícitos, a confirmar.

A serpente consegue, sem recorrer à mentira, manchar a integridade do mandamento e da sua interdição. Isto está escrito para que o leitor não tenha dúvida de duas coisas: primeiro, que o peso da verdade pode ser usado, sem maiores dificuldades, para fins de perversidade. A mentira é sempre reveladora em demasia; uma vez desmascarada podemos enxergar muito claramente as intenções do mentiroso. É muito mais eficaz esconder-se atrás da verdade, que ocultará para sempre a verdadeira natureza das nossas intenções. Mais tarde, neste mesmo livro, o Filho do Homem e a serpente se digladiarão usando como arma a mesma espada: a verdade.

Segundo, a narrativa quer deixar claro que enquanto houver um mandamento, ou seja, uma boa intenção articulada na forma de interdição, a serpente será sempre capaz de injetar nele o seu veneno, tornando-o contraproducente e revertendo-o em seu próprio favor. É o que ela faz desde o princípio.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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