A morte de Adão • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de setembro de 2007

A morte de Adão

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ADÃO: A morte de Adão

No último dia da vida de Adão, Eva disse a ele:

– Por que eu deveria continuar a viver, se você não vai estar mais aqui? Por quanto tempo terei de permanecer depois da sua morte? Diga-me!

Adão assegurou-lhe que ela não teria de esperar muito: morreriam juntos, e seriam enterrados no mesmo lugar. Ele ordenou que Eva não tocasse o seu cadáver até que um anjo de Deus tomasse as providências necessárias a respeito dele; ela deveria, além disso, começar a orar imediatamente a Deus, até que sua alma escapasse do seu corpo.

Enquanto Eva estava de joelhos em oração chegou um anjo, e disse a ela que se levantasse.

– Erga-se, Eva, da sua penintência – ordenou ele. – Veja, seu marido abandonou o seu invólucro mortal. Levante-se, e veja o espírito dele ascendendo até o seu Criador, a fim de comparecer diante dele.

E, para sua surpresa, Eva avistou uma carruagem de luz, puxada por quatro águias resplandecentes e escoltada por anjos. Nessa carruagem jazia a alma de Adão, que os anjos estavam levando para o céu. Chegando ali eles queimaram incenso, até que nuvens de fumaça cobriam o céu, e puseram-se a orar para que Deus tivesse misericórdia daquele que era sua imagem e obra das suas santas mãos.

Em seu assombro e seu pavor Eva chamou Sete, e pediu que ele contemplasse a visão e explicasse as visões celestiais que ultrapassavam a sua compreensão.

– Quem podem ser – ela perguntou – os dois etíopes que estão acrescentando suas orações às do seu pai?

Sete disse-lhe que eram o sol e a lua, tornados negros por não poderem emitir brilho diante do Pai das luzes.

Mal ele havia falado e um anjo tocou sua trombeta, e todos os anjos bradaram em formidável uníssono:

– Bendita seja a glória do Senhor sobre suas criaturas, pois demonstrou misericórdia sobre Adão, obra das suas mãos!

Um serafim tomou então Adão e carregou-o até o rio Aqueronte, lavou-o três vezes e levou-o até a presença de Deus, assentado no seu trono, que estendeu sua mão, ergueu Adão e entregou-o ao arcanjo Miguel, com as seguintes palavras:

– Erga-o até o Paraíso do terceiro céu, e deixe a alma dele ali até o grande e temível dia ordenado por mim.

Miguel executou o mandado divino, e todos os anjos entoaram uma canção de louvor, exaltando a Deus pelo perdão que havia concedido a Adão.

“Agora eu lhe prometo a ressurreição”.

Miguel em seguida pediu a Deus permissão para preparar o corpo de Adão para a sepultura. Concedida a permissão, Miguel retornou à terra, acompanhado por todos os anjos. Assim que adentraram o Paraíso terrestre todas as árvores floresceram, e o perfume emitido por elas fez com que todos os homens caíssem no sono, com exceção de Sete. Deus então disse a Adão, cujo corpo jazia no chão:

– Se você tivesse guardado o meu mandamento, não poderiam regozijar-se os culpados que levaram-no a esta condição. Mas eu garanto a você, transformarei em tristeza a alegria de Satanás e de seus companheiros, e a sua tristeza se transformará em alegria. Restituirei o seu domínio, e você ocupará o trono daquele que o seduziu, enquanto ele será condenado, juntamente com os que lhe dão ouvidos.

Em seguida, ao comando de Deus, os três grandes arcanjos cobriram o corpo de Adão com linho, e derramarem sobre ele óleo aromático. Com Adão enterraram também o corpo de Abel, que jazia sem ser enterrado desde que fora assassinado por Caim, porque todos os esforços do assassino para ocultá-lo haviam sido em vão. Vez após outra o cadáver havia brotado para fora da terra, e dela saíra uma voz que dizia: “nenhuma criatura poderá repousar no interior terra até que o primeiro de todos tenha devolvido a mim o pó com o qual foi formado”. Os anjos carregaram os dois corpos, o de Adão e o de Abel, para o Paraíso (o corpo de Abel jazera até aquele momento numa pedra sobre a qual os anjos o haviam colocado) e enterraram-nos juntos no local de onde Deus havia retirado o pó para formar Adão.

– Adão, Adão! – Deus disse ao corpo de Adão.

– Eis-me aqui, Senhor – ele respondeu.

E Deus falou:

– Eu lhe disse uma vez: “você é pó e ao pó voltará”; agora eu lhe prometo a ressurreição. Você despertará no dia do julgamento, quando todas as gerações de homens que brotarão da sua descendência erguer-se-ão do túmulo.

Deus então selou a sepultura, para que ninguém fizesse mal a ele durante os seis dias que teriam de passar até que sua costela lhe fosse devolvida, mediante a morte de Eva.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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