A medida das coisas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de junho de 2006

A medida das coisas

Estocado em Manuscritos

Para Bertoldo Schneider Jr.

 

Restavam apenas os quatro no botequim: o punk, o lixeiro, o vendedor e a mulher do dono do bar, todos rindo ocasionalmente e evadindo-se a enfrentar que amanhã era um dia que já era hoje e não era sem fim o conforto da noite.

O lixeiro se agasalhara num canto do balcão para desenhar sem ser incomodado, girando sem cessar, sobre um guardanapo, uma caneta de cabo mordido. Quando perguntado sobre o que eram as três rodas que vinha desenhando, respondeu com relutância que a primeira, imóvel e vertical, era o passado; a do meio, giratória e horizontal, o presente; e a última, imóvel e vertical como a primeira, o futuro. Disse que tivera num sonho a visão de três gigantescas rodas que mal se tocavam, e sentira que traziam a explicação para o mistério do universo.

– Talvez a roda do presente, que fica girando sem parar, tire o seu movimento da imobilidade das outras duas – sugeriu o vendedor. – Assim que nem um ímã.

– Se o futuro é tão imutável quanto o passado, sei lá se a roda do meio tem como girar – observou o punk, olhando para o desenho.

– É só no presente que as coisas mudam, não está vendo?

A mulher do dono do bar, cujo marido se recolhera mais cedo por conta de uma indisposição, produziu quatro fitas métricas de um escaninho atrás do balcão e disse:

– Se muda mesmo vamos mensurar!

Começaram pelos copos que iam bebendo. Mediam e bebiam e reabasteciam e mediam e bebiam, para ver se os copos mudavam de tamanho com o passar do tempo. As primeiras variações foram quase imperceptíveis, milimétricas, mas logo a diferença entre uma medição e outra alargava-se de um centímetro, e nenhum deles deixou de expressar a sua admiração. A altura e (como mais tarde se descobriu) a circunferência de copos e garrafas se alterava com o girar formidável da roda do presente, como se cada movimento deixasse cicatrizes de antemão na rocha imóvel do futuro. Maravilharam-se que aquele fenômeno nunca tivesse sido observado por outra pessoa.

– Amanhã vou trazer um paquímetro – lembrou o vendedor, que tinha um paquímetro em casa.

O lixeiro sugeriu que medissem seus próprios corpos para ver se eles também registravam alteração. O vendedor gargalhou e observou que um único membro do seu corpo era capaz de mudar de tamanho, mas garantiu que aquelas fitas métricas eram insuficientes para medir essa parte. O lixeiro replicou que duvidava que mesmo a língua do vendedor pudesse ser tão grande, e todos riram.

Deixando de lado copos e garrafas, deram empolgada continuidade à experiência. Dentro do bar, submeteram tudo e todos à medição pelas fitas métricas: notas fiscais, toalhas de mesa, moedas, cotovelos, narizes, mamilos, barras de calça, cadarços, tábuas do assoalho, batatas da perna, palitos de dente, ralos, azulejos, fios de cabelo, buracos de fechadura. O punk desenrolou e mediu todos os rolos de papel higiênico e pôde conferir que não apenas as medidas não batiam a cada aferição, mas o número total de folhas picotadas também se alterava a cada contagem. O lixeiro mediu palitos de fósforos antes e depois de usados, e a mulher do dono do bar mediu e remediu cada letra das manchetes do jornal.

Descobriram que o mundo era fluido e que nenhuma grandeza ou escala permanecia a mesma de uma aferição à seguinte. O que media agora quinze centímetros não passava no momento seguinte de treze e meio. Lápis, mangas de camisa, orelhas, garrafas de cachaça enfileiradas, meias, as pimentas e os ovos coloridos do vidro: nada se conformava à estabilidade.

Com o avançar da madrugada descobriram diferentes graus de maleabilidade até mesmo nos números. Notaram que depois de meia dúzia de rigorosas medições sobre o balcão o algarismo 3 se flexibilizava notavelmente, sendo que com algum esforço no três acabavam cabendo quatro e, dependendo do mensurador, até cinco unidades inteiras – sem prejuízo e sem distorção de escala. No quinze cabiam sem qualquer dificuldade dezesseis e meio, e o trinta mostrou-se especialmente tolerante: fizeram caber nele oitenta e um antes de decidirem dar a noite por encerrada.

Abraçaram-se, congratularam-se e deram pulos de alegria e ajudaram a mulher a puxar a porta de ferro do bar e fechar o cadeado. Voltaram para casa imprimindo-se cuidadosamente a muros, postes e carros estacionados, como que para não perder esse último contato com a imponderável realidade.

A mulher do dono do bar faleceu de um aneurisma duas semanas depois, e o lixeiro, único do grupo presente no funeral, orou que os mortos pudessem lembrar o que os bêbados esqueciam.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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