A história do presente e o julgamento do futuro • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de outubro de 2006

A história do presente e o julgamento do futuro

Estocado em Pense comigo

Já pensei mais de uma vez em iniciar um blog chamado História do Presente, que consistiria de ensaios sobre história contemporânea escritos de uma perspectiva artificialmente distanciada – tentando antecipar como nossa época será descrita e interpretada daqui a, digamos, duzentos anos.

A historiografia tradicional julga a história do presente imprudente de se escrever, pela excelente razão que vivemos no presente e falta-nos a necessária perspectiva histórica para entender o que está acontecendo e apontar de que forma os eventos contemporâneos se encaixam no futuro imediato e no passado recente. O presente permanece um ponto cego nos nossos esforços de interpretar a História; podemos com alguma acurácia prever o futuro pela leitura do passado, mas ao presente é-nos vedado atribuir qualquer significado.

Essa postura parte naturalmente do pressuposto, considerado ultrapassado por muitos, de que a história pode ser interpretada – no sentido isento da coisa. O consenso contemporâneo parece ser que toda percepção da História, em todas as épocas, é construção posterior – ou seja, os livros de História revelam sempre mais sobre a nossa época do que sobre o passado. Essa terrível conclusão (ela mesma relativamente recente na história) acabou gerando o surgimento inevitável de disciplinas novas, como o estudo histórico da interpretação da História – e por conseguinte a história do estudo histórico da interpretação da História, levando-nos cada vez mais para longe dos fatos e diminuindo inexoravelmente nossa fé na possibilidade deles.

Em compensação (e paradoxalmente), essa nossa falta de isenção parece garantir que a história do presente esteja sendo continuamente escrita naquilo que escrevemos sobre o passado.

* * *

Estou particularmente interessado em saber o quanto podemos antecipar do modo como seremos julgados pelos habitantes do futuro. Seremos considerados especialmente promíscuos? Materialistas? Distraídos? Pretensiosos? Incoerentes? Obtusos?

Coniventes por certo, mas com o quê?

Nossas boas intenções se desfarão em nada quando nossa hipocrisia for revelada, mas por qual transgressão coletiva seremos lembrados?

Opinei recentemente, a partir de uma reflexão do Lou, que nossa irresponsabilidade para com o meio ambiente será provavelmente considerada o crime por excelência do nosso século. Prevejo que pelo esgotamento irreversível dos recursos da Terra seremos julgados com a mesma convicção unânime com que condenamos hoje a Inquisição e os nazistas.

Nossas discussões mais caras serão julgadas irrelevantes, incompatíveis ou mera cortina de fumaça para o atordoante crime que estamos encobrindo.

Mas digo isso do meu ponto cego no presente, e daqui não consigo enxergar o quanto do futuro podemos ainda salvar.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas informa que ao ler esta página você se compromete contratualmente a concordar com a totalidade do seu conteúdo, obrigando-se ainda a alinhar suas crenças e prioridades às nossas; subscrever todas as nossas opiniões e juízos; acalentar, fomentar, promover e maravilhar-se diante da lucidez de tudo que dizemos até o fim dos seus dias