A heresia secreta • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de janeiro de 2006

A heresia secreta

Há bons bestsellers e maus bestsellers. O Código Da Vinci, de Dan Brown, é um bom bestseller: fácil de consumir mas não de descartar, pretensioso mas levíssimo, marcado por um ritmo impecável, alguma sofisticação de estilo, abordando um tema pseudo-erudito ao mesmo tempo em que evita as armadilhas mais fáceis do pedantismo. Não há como deixar de admirar a esperteza do escritor, que requentou idéias que circulavam há muito tempo e amarrou-as num pacote cuja atração – sobre mim, pelo menos – é irresistível enquanto dura.

Está certo que, estruturalmente, O Código é uma única cena de perseguição estendida por cem capítulos. Está certo que os personagens são estereotípicos, a caracterização nenhuma, as probabilidades forçadas, a geografia incorreta, a teologia conspiratória, a acuracidade histórica risível, os procedimentos policiais, aéreos, alfandegários e judiciais absurdamente inexatos. Mérito maior do autor, cuja habilidade faz o leitor mais cético (este sou eu) passar por cima de tudo isso [quase] todo o tempo, deixando ainda um sabor agridoce de apressada originalidade. Não importa o que se pense do resultado, trata-se de um sujeito que fez bem o que propôs-se a fazer.

Ainda mais vantajosa para o sucesso do Código foi a miríade de livros que surgiu na sua cola para refutá-lo. Tratam-se, veja bem, de esforços para refutar uma obra de ficção – não creio que algo parecido tenha acontecido, em grau significativo, em qualquer outro momento da história.

A indignação contra as baboseiras históricas contidas no livro é de certa forma justificada; afinal de contas, algum leitor desavisado do Código pode de fato acreditar que, na teologia primitiva dos judeus, Deus de fato mantinha relações sexuais com sua esposa, a Shekiná. Essa é apenas uma das “informações” do livro que, embora não sobreviva ao exame histórico mais superficial, pode acabar passando por verdade. Funciona para manter a história andando, mas aqui, fora do livro, posso garantir que o Deus da Bíblia – para eterno constrangimento de seus concorrentes – não tem e nunca teve vida sexual. A shekiná é sua glória, seu esplendor, um de seus atributos – e o menos informado dos hereges não ousaria interpretá-la como sendo sua consorte.

O livro está correto quando defende a tese de que o Deus dos judeus (e por tabela o dos cristãos e muçulmanos) esforça-se consistentemente para dissociar sexo de adoração, ao contrário do que fazem inúmeras religiões antigas e contemporâneas. Segundo o Código, o motivo dessa dissociação com o sexo é que o Deus cristão é uma aberração machista criada artificialmente para diminuir a importância do papel da mulher na sociedade e no culto. O motivo, na verdade, é menos romântico e mais pessoal: nas religiões que promovem ritos de fertilidade (como por exemplo as promíscuas religiões de Canaã, que a Torá não se cansa de condenar), o sexo ritual é usado como meio de manipulação da divindade. Os ritos sexuais servem como modo de extorquir fertilidade e prosperidade dos deuses associados a elas – e um traço fundamental do caráter do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é que ele não se deixa extorquir. Deus não faz barganhas, e não quer que seu povo recorra ou acredite que qualquer esforço humano possa garantir o favor espiritual da divindade. Pelo mesmo motivo Deus baniu da vida de Israel qualquer associação com a magia e a mediunidade.

O oposto é verdadeiro: nenhum fator na história da civilização ocidental serviu para reverter a condição secundária da mulher mais do que o ensino e o exemplo de Jesus e seus seguidores imediatos.

Historicamente, o cristianismo institucional acabou de fato demonizando o sexo – coisa que o judaísmo nunca fez, – mas não pelos motivos expostos no livro (ou na Bíblia). Também, ao contrário do que sugere o texto do Código, o cristianismo não foi usado desde o início como ferramenta de opressão contra as mulheres. O oposto é verdadeiro: nenhum fator na história da civilização ocidental serviu para reverter a condição secundária da mulher mais do que o ensino e o exemplo de Jesus e seus seguidores imediatos – incluindo Paulo, que ousou proclamar há dois mil anos que em Jesus não há qualquer distinção entre homem e mulher. Sua proclamação permanece, na prática, herética para muitos cristãos dos nossos dias.

No que me diz respeito, no entanto, o mais interessante a respeito do Código é que a premissa central do livro, a proposição secreta da qual depende todo o conflito da narrativa, é menos herética do que poderia parecer.

Em O Código Da Vinci, o segredo que pode “ameaçar todos os fundamentos da Igreja cristã”, o terrível segredo escondido por Leonardo no quadro A Última Ceia e por uma milenar sociedade secreta cujos esforços estendem-se da ordem dos templários a Jean Cocteau, é que, contrário do que dão a entender os evangelhos, Jesus na verdade foi casado – e com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem real cujos herdeiros sobrevivem até nossos dias.

(A propósito, se você ainda não leu O Código Da Vinci, não leia o parágrafo anterior.)

O autor e os personagens do livro parecem acreditar que um Jesus que fosse humano ao ponto de ter se casado – e com filhos! – ameaçaria toda a teologia cristã, especialmente a idéia da divindade de Jesus. Embora com toda a probabilidade Jesus não chegou a se casar (muito menos a ter filhos), esse enlace hipotético em nada prejudicaria a sua imagem, sua obra ou seus atributos.

Esse enlace hipotético em nada prejudicaria a sua imagem.

Parte do problema está em que essa premissa está baseada em outra noção fantasiosa defendida pelo livro: a idéia de que durante três séculos, até a intervenção do imperador Constantino, Jesus teria sido visto pelos seus seguidores como figura admirável mas inteiramente humana, desprovida de qualquer reivindicação à divindade. Uma conspiração liderada por Constantino teria forçado goela abaixo do cristianismo a estranha novidade, a idéia de um Jesus divino – que, portanto, não se rebaixaria a ninharias como o casamento.

Mais uma vez, o oposto é que é verdadeiro. Desde os primeiros momentos do cristianismo e entre todas as suas facções, o único ponto teológico inquestionável era a divindade de Jesus. Historicamente, muito mais problemático e controverso foi defender – e, para alguns, eventualmente provar – que ele era ainda, mas não contraditoriamente, integralmente humano. A noção de um Jesus homem era tão controversa e inverossímil que heresias inteiras foram elaboradas para contornar o constrangimento que isso implicaria. Para evitar a abominável (para alguns) noção de um Deus que se rebaixasse às mais sórdidas experiências da condição humana, como a tortura e a morte, os primeiros hereges propuseram que a humanidade de Jesus é que era ilusória – já que sua divindade era desde o princípio ponto pacífico.

Paradoxalmente, então, se Jesus tivesse casado e tido filhos a questão inicialmente controversa da sua humanidade teria sido mais fácil de defender – o que reverte por completo as premissas e as conclusões do suspense de Dan Brown.

Por outro lado, o sucesso de um livro como O Código Da Vinci só é concebível porque vivemos atualmente na situação cultural oposta: ao contrário do que aconteceu durante a maior parte da história, o que nos constrange hoje em dia é a divindade de Jesus, não a sua humanidade. Um Jesus integralmente humano (o que, no nosso vocabulário, quer dizer um Jesus sem qualquer pretensão à divindade) nos parece mais palatável e mais conectado com o espírito da modernidade – para não dizer mais verossímil.

A heresia de O Código da Vinci não está em defender um Jesus humano, mas um inofensivo – um sujeito bem intencionado mas que teve o bom senso de não ignorar os jogos de poder, escolhendo a consorte estratégica para inaugurar uma linhagem real. Esse Jesus é que é, na verdade, criado à nossa imagem e semelhança. Do ser humano indomável que dizia quem vê a mim vê ao Pai e defendia idéias impopulares como meu reino não é deste mundo e bem-aventurados os pobres, não queremos ler livro nenhum.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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